Carlinhos Brown e Orquestra Ouro Preto ampliam fronteiras da música brasileira em “Afrossinfonicidade”

Carlinhos Brown e a Orquestra Ouro Preto lançaram neste dia 26 de junho o segundo volume de Afrossinfonicidade, projeto gravado ao vivo na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, que aproxima a percussão afro-brasileira da linguagem sinfônica.
A primeira parte do álbum já está disponível nas plataformas e reúne releituras de músicas como “Segue o Seco”, “Frases Ventias”, “Argila”, “Maria de Verdade”, “Magamalabares” e “Muito Obrigado Axé”.
Agora, o Volume 2 amplia o repertório com canções que atravessaram diferentes fases da obra de Brown, incluindo “Vilarejo”, “Velha Infância”, “Amor I Love You”, “E.C.T.”, “Já Sei Namorar” e “A Namorada”. O lançamento também será acompanhado pelo audiovisual completo do show.
O TMDQA! conversou com Carlinhos Brown e o maestro Rodrigo Toffolo sobre o resultado da mistura das diferentes sonoridades.
[Continua após o vídeo]
A Afrossinfonicidade de Brown
Carlinhos Brown passou a carreira tratando o ritmo como matéria viva. Compositor, cantor, percussionista, produtor, criador da Timbalada, integrante dos Tribalistas e autor de uma obra que circula por lugares muito diferentes da música brasileira.
Alfabetizado somente aos 14 anos, o verborrágico mestre do Candeal aprendeu o abecedário do ritmo muito antes de ser ensinado o dialeto português brasileiro, como mostra de forma didática este trecho do documentário “O Milagre do Candeal”, de 2004.
Autor de mais de 908 músicas registradas pelo Ecad (entidade brasileira responsável pela arrecadação e distribuição dos direitos autorais das músicas), Carlinhos explicou:
Ter no corpo é também ter o princípio de educação musical e formação nas comunidades nas quais são carentes de instrumentação ou instrumentalização, que são caras. Então, a gente tem que apresentar folhas, com latas, com balcões, com o capô de algum carro antigo que você possa fazer. E isso não é nenhum demérito, isso te leva a outras oportunidades de ouvir“.
Em seu cardápio, estão composições gravadas por nomes como Marisa Monte, Maria Bethânia, Tribalistas e outros artistas centrais da MPB, além de “Ratamahatta”, faixa do Sepultura lançada em 1996 no álbum Roots, em que Brown aparece entre os compositores.
Essa amplitude ajuda a entender Afrossinfonicidade. O projeto não parte da ideia de que a música popular precisa ser elevada por uma orquestra. O caminho é outro: Brown e a Orquestra Ouro Preto mostram como tambor, cordas, voz, berimbau, corpo, rua, igreja, terreiro e palco sempre estiveram mais próximos do que certas divisões musicais sugerem.
“Quando eu cheguei na Orquestra Ouro Preto, foi como ter chegado à Academia”
Para Brown, o encontro com a Orquestra Ouro Preto deu forma a uma ambição antiga: fazer sua obra soar de maneira mais ampla, com o peso coletivo de uma formação sinfônica, mas sem perder a origem percussiva.
Quando eu cheguei na Orquestra Ouro Preto, foi como ter chegado à Academia. Foi uma pós-graduação, porque o meu pensamento é sinfônico. Quando eu organizo percussões grandes, eu penso sinfonicamente, embora seja idiofone, não sinfônico, mas há um tipo de melodia.”
O artista também falou sobre a importância de ouvir sua obra fora da moldura mais imediatamente associada ao carnaval e à música baiana de massa. Brown não nega essa dimensão festiva, mas recusa que ela seja a única leitura possível para sua música.
Esse salto aparece em músicas como “Frases Ventias”, originalmente lançada em “Alfagamabetizado”, álbum de Brown que completa 30 anos em 2026. Na nova versão, a canção ganha uma moldura que aproxima Bahia, Minas, religiosidade popular e memória barroca. Brown diz que a faixa ganhou, com a orquestra, uma dimensão que parecia estar esperando há décadas.
Depois de 30 anos que ‘Alfagamabetizado’ faz, eu encontrei a finalização do álbum. Quando eu falo isso, as pessoas falam: como a finalização do álbum? Porque a frase que se vencia no ‘Alfagamabetizado’ está incompleta, está incompleta como letra. Ela era para ter uma orquestra assim e só vem encontrar uma orquestra 30 anos depois.”
A partitura em branco
Um dos pontos mais fortes da conversa com Brown e Rodrigo Toffolo está na ideia de risco. Afrossinfonicidade é um projeto muito ensaiado, com arranjos definidos, mas também guarda momentos em que a música sai do controle absoluto da partitura. Brown contou, pela primeira vez, que há trechos em que a página fica em branco e a condução passa a depender do olhar, do ouvido e da confiança entre os músicos.
Tem um momento que é em branco. A partitura fica em branco. É no olhar, né, maestro? Aí eu olho para ele e digo: agora vou para onde? Aí ele puxa, conta. Todo mundo vai. Ou seja, tem um ouvido. Então, de um certo modo, o maestro escuta para o público.”
Para Rodrigo Toffolo, esse ponto de encontro entre o controle da orquestra e a liberdade da música popular é a chave do projeto.
Eu costumo falar que a música erudita não pode ser tão quadrada e a música popular não pode ser tão solta. A gente coloca a música mais popular dentro de uns limites e abre um pouco os limites da música erudita. Então a gente encontra um ponto de interseção. A erudita fica um pouco mais livre e a música popular fica um pouco mais presa.”
O maestro também explicou como a sintonia com Brown permite que esses momentos funcionem ao vivo.
Quando você sai do controle e olha para o seu lado e o Carlinhos Brown está de pé, você se sente seguro novamente. É um descontrole, porque a sintonia é muito boa. A gente está numa sintonia musical única. Quando a gente se olha e sabe a hora de entrar, a gente sabe o que tem que fazer, que tem que segurar. A música acontece muito no ouvido, mas acontece muito no olhar também.”
“Cadê as outras mãos e as outras almas?”
O lançamento de Afrossinfonicidade também chega em um momento em que orquestras brasileiras enfrentam sinais concretos de fragilidade, mas seguem existindo, resistindo e fazendo parte da manutenção da cultura e educação.
Em Minas Gerais, músicos denunciaram remunerações insuficientes, déficit no quadro da orquestra e a necessidade de completar a renda fora dos palcos. Em São Paulo, a Orquestra Sinfônica de Santo Amaro interrompeu atividades após o fim da parceria com a Prefeitura, deixando dezenas de profissionais sem salário.
A inteligência ancestral atravessa os tempos. Num momento em que as novas mídias propõem ao homem uma realidade ilusória, manufaturada, o coletivo se reúne para dizer: estamos aqui. Essa linguagem econômica que se apoderou do músico, somada a vieses políticos de controle da estética, tem nos levado a atrasos de cachês, a lugares que não respeitam o artista e a uma espécie de dúvida do próprio público. Ficou muito difícil para os músicos. […] Acredito que estamos buscando novos caminhos para lidar com situações diferentes. Aqui, tanto o maestro quanto eu seguimos lutando pelo melhor, para que as pessoas estejam melhores e mais confortáveis naquilo que fazem.”
Brown ainda faz uma defesa importante: a orquestra não pode virar apenas um efeito bonito, uma camada digital ou uma simulação de grandiosidade.
Hoje você chega no estúdio, mete a mão no teclado e tem um som de orquestra lá. Aí eu faço uma pergunta: tem a alma da sua mão, mas cadê as outras mãos e as outras almas? Elas faltam.”
É por isso que o registro ao vivo importa. A gravação na Concha Acústica preserva a resposta do público, os encontros de olhar, os ajustes entre os músicos e a sensação de que a música está sendo construída ali, diante de todo mundo. Brown também usa o projeto para afirmar uma dimensão muitas vezes reduzida na leitura da percussão popular brasileira. Para ele, a música baiana não pode ser lida apenas como entretenimento de festa.
Nós não somos apenas animadores de festa. Nós temos responsabilidades. Porque isso é uma cadência que se estuda, que é milenar, que existem técnicas e tecnologias milenares para isso se apresentar.”
Canções conhecidas, outro corpo sonoro
O Volume 2 de Afrossinfonicidade deve chamar atenção por trazer algumas das canções mais conhecidas de Brown em novas versões. É o caso de “Vilarejo”, “Velha Infância”, “Amor I Love You”, “E.C.T.”, “Já Sei Namorar” e “A Namorada”.
São músicas que já têm vida própria na memória afetiva do público. Algumas ficaram profundamente associadas às vozes de Marisa Monte e dos Tribalistas. Brown sabe disso e falou sobre essa relação com humor e reverência.
Música que Marisa canta, eu apenas menciono. Deixe claro: música que Marisa canta, eu apenas menciono. Não importa que eu seja autor de ‘Maria de Verdade’, ‘Segue o Seco’, ‘Magamalabares’. Para mim, quando ela põe a voz, ela vira, na hora, parceira, porque ela encontra outros caminhos.”
Em Afrossinfonicidade, Brown não tenta substituir essas versões. Ele volta às composições como quem revela outra camada. A canção continua reconhecível, mas muda de corpo. O que antes podia estar concentrado na voz, no violão ou na memória pop ganha expansão orquestral, percussiva e coletiva.
Entre Salvador e Ouro Preto
O primeiro encontro entre Carlinhos Brown e a Orquestra Ouro Preto aconteceu em 2024, em um concerto aberto na Avenida Paulista, em São Paulo. Depois, o projeto passou por Salvador, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Ouro Preto, até chegar ao registro ao vivo na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. Um encontro de linguagens que já pareciam destinadas a caminhar juntas.
‘Afrossinfonicidade’ é um encontro de linguagens que sempre estiveram destinadas a caminhar juntas. O tambor já nasce sinfônico porque organiza pessoas, emoções e memórias. Quando a Orquestra Ouro Preto abraça essa pulsação, nasce uma música que celebra o Brasil em toda a sua grandeza. Gravar esse trabalho ao vivo era fundamental, porque existe uma energia acontecendo ali que não cabe apenas na partitura ou no estúdio. O público canta, responde, vibra. O projeto nasceu para ser vivido de forma coletiva.”
Rodrigo Toffolo também enxerga o álbum a partir da relação simbólica entre as cidades que sustentam o projeto.
O disco retrata um encontro profundamente ligado às relações culturais entre Ouro Preto e Salvador, duas cidades fundamentais na formação do Brasil e carregadas de identidade e brasilidade. Quando as cordas da Orquestra Ouro Preto se encontram com a percussão e a força criativa de Brown, criamos uma experiência sonora singular, potente e surpreendente.”
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Liz Sacramento




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