“Chama na chincha”: o reggae que molda a identidade das periferias de Maceió e inspirou “Estiga Perifa”

“As melhores discotecas para mim são a Scorpion e a Reggae Night”. O relato da canção “Melô do Jaçaman”, do disco Estiga Perifa (2015), do musicista alagoano Boby CH, não conta apenas uma experiência unilateral, mas uma vivência atravessada por gerações nas periferias de Maceió, capital de Alagoas.
Bairros como Chã da Jaqueira, Jacintinho e Vergel do Lago são marcados pelas notas melódicas do reggae, um dos principais gêneros musicais nas comunidades periféricas alagoanas desde os anos 70, quando começaram a tocar em discotecas da região. Décadas depois, o ritmo se tornou parte essencial da rotina dos moradores – seja em escolas, lojas ou residências.
É a partir destas vivências que o músico decidiu fazer Estiga Perifa como um resultado das memórias coletivas, das afetividades, das denúncias contra violência e, essencialmente, o ode à cultura periférica do estado.
Só tem melô na perifa: o reggae em Maceió

Antes de tudo, é preciso voltar entre os anos 70 e 80, quando Maceió começou a utilizar as batidas do reggae em discotecas como Baila Conmigo, fazendo com que o gênero se tornasse um sucesso local. Porém, foi só nos anos 90 que o reggae possuiu um crescimento fora do comum em todo o estado.
Dentre os nomes que contribuíram no “boom” do gênero em Alagoas estão as Bandas Mensageiros de Jah (Arte Para Viver), Vibrações (“Olhos Verdes”), Airê Vibration e o cantor Osvaldo Silva (“Amigo Flanelinha”), que não apenas impulsionaram a sonoridade nas ruas da capital, mas também moldaram um estilo de vida regueiro por meio das roupas, penteados e o gosto musical.
Com isso, as influências perduraram por mais 30 décadas impulsionando grandes nomes do reggae brasileiro ao mundo, como o DJ Cleiton Rasta, destaque em festivais do sul e ícone cult da música brasileira, e Luana do Reggae, uma das grandes vocalistas do gênero em Alagoas, perpassam o som para crianças a idosos.
Além disso, mesmo que São Luís, no estado do Maranhão, seja a capital do reggae e definiu parâmetros presentes nas produções do gênero até hoje, Alagoas segue um caminho diferente.
O estado produz em larga escala os melôs, versões melódicas e românticas de canções já famosas, como “We Belong Together”, de Mariah Carey; e “Melô do Espaço Cultural 2004”, de autoria desconhecida.
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Estiga Perifa
Compreender o cenário regueiro do estado traz uma melhor percepção para o que é feito em Estiga Perifa. As referências do disco vão para além daquelas diretamente faladas, mas também para as guardadas em nosso imaginário.
Na canção “Introdosom”, que abre o álbum, Boby inicia o seu set chamando o pessoal para dançar – como nas antigas discotecas do bairro – enquanto a batida está começando a esquentar.
A anunciação prelude o ápice da festa em “Estiga Perifa”, faixa em que os ritmos mais acelerados do projeto surgem como aperitivos para o que está por vir, trazendo uma clara referência aos bailes de reggae nas discotecas focadas no gênero
Nomes como DJ Boca e DJ Thuppa, dois dos principais representantes da cena no estado, foram responsáveis em popularizar os melôs para além das paredes festivas por meio de gravações de DVD distribuídos localmente.
“A minha música tem muita influência dessas discotecas, mas acho que hoje em dia a maioria desses lugares nem existem mais”, destaca Boby ao ser questionado sobre as inspirações destes espaços culturais em sua obra.
Além das pistas de dança, o estilo de vida das comunidades, o seu modo de falar (“champra”, “rafamé”, “chama na chincha”…) e o enaltecimento da nação regueira alagoana também foram homenageados.
No Gueto é Sem Massagem
Porém, nem tudo que o reggae emana é apenas boas vibrações. O gênero também é utilizado como meio para discussões políticas e sociais, seja em dimensão local ou global.
Por exemplo, bandas como Vibrações e Tequilla Bomb trazem assuntos que abordam as problemáticas que a sociedade brasileira – principalmente as classes baixas – vivem no dia a dia.
No disco, Boby faz críticas há diversos pontos que englobam a realidade das periferias alagoanas. Em “No Gueto é Sem Massagem”, o artista discute sobre a violência policial em Alagoas, onde registrou 54,6% de mortes ocasionadas por intervenção policial em 2025, de acordo com o 20° Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
“Eles querem eles dizem mas não vão nos cegar / Nos dividem enriquece com as suas regras / Eles acham só porque sou da favela / Aqui não existe paz ainda estamos em guerra”, diz a letra.
Na mesma música, é abordado como a visão elitizada deturpa o cotidiano de pessoas que moram nas regiões, assim como um sistema desigual afeta o bem-estar e a saúde da população.
Além disso, na faixa “Guerreiro”, a canção propõe a destacar a luta da classe trabalhadora em uma jornada extensa e intensa na tentativa de melhorar as suas vidas.
Top 5 músicas do Estiga Perifa
1. Estiga Perifa
2. Melô do Jaçaman
3. Guerreiro
4. Muitxo Calor
5. Introdosom
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Lu Melo




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