“Com Amor, Alcione”: exposição em São Paulo celebra 50 anos de carreira da cantora maranhense

Com Amor, Alcione - CCVM 2025
Foto: © 2025 Ana Mello Fotografia

Com Amor, Alcione está em cartaz até 6 de dezembro no Museu das Favelas, no Centro Histórico de São Paulo, com entrada gratuita.

Em sua primeira itinerância, a exposição reúne mais de 650 itens do acervo pessoal da cantora e ganha um módulo dedicado à relação da artista com a capital paulista e às migrações que ajudaram a formar a cidade, além de uma imperdível sala de LPs, cassetes, CDs e até jukebox interativa com karaokê.

O TMDQA! esteve na inauguração da exposição, em São Paulo, que teve a participação da cantora. Confira o que Alcione contou sobre os discos favoritos de sua trajetória e o que não caberia em um museu!

50 anos de carreira de Alcione no Museu das Favelas

O provérbio iorubá ‘Orí eni ní um’ni j’oba‘ significa ‘A cabeça de uma pessoa faz dela um rei’. Ao longo de cinco décadas, a atitude, escolhas e voz de rainha fizeram Marrom não ter medo de seu sucesso ou de ousar. Nos sete ambientes do Museu das Favelas, é possível viajar pela vida e pela trajetória com uma curadoria que teve muito cuidado com os detalhes.

Fotografias raras, vídeos, prêmios, objetos pessoais, figurinos e registros musicais aproximam o público de diferentes versões da artista: a menina criada em uma família de músicos, a maranhense que deixou São Luís, a mulher negra que enfrentou tentativas de desqualificação e a cantora que transformou composições em parte da memória afetiva brasileira.

As fotografias ao longo da exposição passeiam pela infância e pela família, passam pelos desfiles da Mangueira e também registram encontros que ajudam a contar a história da música e da cultura brasileira. Alcione aparece ao lado de Cartola, Clara Nunes, Elke Maravilha, Pelé, Maria Bethânia, Gal Costa, Martinho da Vila, Cher e tantas outras personalidades que cruzaram seu caminho ao longo da carreira…

Alcione e Cartola
Cartola e Alcione Foto: divulgação / Museu das Favelas

Assinada por Deyla Rabelo, Gabriel Gutierrez e Luciana Gondim, com curadoria institucional do jornalista Jairo Malta, a mostra percorre temas como família, fé, carnaval, migração e identidades negra e nordestina.

Do Maranhão a São Paulo, sem abandonar as raízes

Antes de chegar ao Museu das Favelas, Com Amor, Alcione começou na cidade natal da cantora. A exposição foi apresentada pelo Centro Cultural Vale Maranhão, em São Luís, entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026.

Agora, em sua primeira viagem para fora do estado, a mostra estabelece uma ponte entre o Maranhão e São Paulo, com uma sala que conta uma linha do tempo da história do Brasil e um texto lido na voz da artista – de emocionar!

O núcleo desloca Alcione do lugar de exceção para inseri-la numa história maior, formada por pessoas que deixaram suas terras, ocuparam novos territórios e transformaram culturalmente a cidade.

Aliás, a presença do Maranhão atravessa toda a exposição. Está nas cores, nos materiais, nos elementos do Bumba Meu Boi e na maneira como a expografia apresenta a artista. Para o curador Gabriel Gutierrez, uma das escolhas decisivas de Alcione durante sua carreira foi preservar essa ligação enquanto ampliava o alcance da própria obra:

Uma das boas escolhas contínuas da Alcione foi nunca deixar de ser fiel às suas raízes maranhenses. Ela fala com muito orgulho do Maranhão e traz o Maranhão para dentro desse percurso. Quando sai de lá, leva o estado para fora. São as raízes que dão a base para tudo”.

Antes, os visitantes passam por um dos núcleos mais brilhantes de todo o espaço. Uma sala com dez manequins feitos sob medida com vestidos usados pela cantora em desfiles e aparições especiais da Mangueira, sua escola de samba do coração, além do figurino usado no Rock in Rio.

Mostra em SP reúne figurinos icônicos de Alcione
Foto: divulgação

Em volta dos manequins de strass também chama a atenção um detalhe: os Mourões coloridos. Tradicionalmente são troncos de madeira fincados no barracão onde ocorrem os rituais centrais da festa Bumba Meu Boi, e para o museu foram confeccionados por artistas conterrâneos de Alcione.

O trabalho envolveu integrantes do Boi da Floresta e do Boi de Leonardo, no Território Liberdade, região de São Luís reconhecida por sua concentração de manifestações culturais negras e apontada pela prefeitura da cidade como o maior quilombo urbano da América Latina.

Deyla Rabelo compara o processo de construção da mostra ao trabalho minucioso dos artesãos maranhenses:

Foi como bordar um couro do Bumba Meu Boi, que é feito com infinitas miçangas minúsculas para contar narrativas e histórias da nossa cultura. A gente pensou a exposição desde o pano de fundo, construído com paetês, trazendo esse couro, mas também todo o brilho que Alcione carrega.”

Ao redor, imagens contam o carinho e dedicação que a artista sempre teve com novos talentos da comunidade, a qual acompanhou de perto promovendo desfiles de debutante. Deyla explica:

Esse núcleo fala sobre a diversidade e sobre o arco que Alcione faz ao sair do Maranhão, chegar ao Rio de Janeiro, à Mangueira e seguir adiante”.

A mulher que mudou o samba

Sua discografia passou pelo samba, bolero, canções românticas, ritmos maranhenses e diferentes zonas da música popular.

A abertura para repertórios e compositores de gerações distintas permitiu que sua voz se renovasse sem perder identidade: “O samba não é o mesmo antes e depois de Alcione. Ela realmente transformou o samba”, afirma Gabriel Gutierrez. O curador vai além da contribuição musical ao pensar no espaço que as interpretações de Alcione ocupam na vida cotidiana.

Alcione criou o sentimento brasileiro, criou uma forma de a gente sentir. A gente se relaciona com as emoções de maneira diferente depois de ouvi-la. Essa abertura para a vida, muito genuína e direta, mantém o samba vivo, com crianças do século XXI cantando Alcione 50 anos depois.”

Essa capacidade de atravessar gerações também aparece fora do museu. Poucas semanas antes da inauguração, o TMDQA! acompanhou O Maior Encontro do Samba, no Nubank Parque, em São Paulo.

Por lá, Alcione dividiu o palco com Zeca Pagodinho e Jorge Aragão. Martinho da Vila participou da noite, enquanto o repertório passou por músicas como “Sufoco”, “Gostoso Veneno”, “Você Me Vira a Cabeça”, “Estranha Loucura” e “Não Deixe o Samba Morrer”.

Os discos que mais marcaram a vida de Alcione

A parte dedicada à discografia é imperdível para quem gosta de música. A exposição reúne grande parte das capas dos discos de Alcione, além de fitas cassete e CDs lançados em diferentes períodos. São objetos que registram mudanças na indústria fonográfica, no design e na maneira como as pessoas escutam música.

Jukebox com Karaokê Com Amor Alcione

Para quem cresceu comprando LPs ou esperando uma fita rebobinar, há reconhecimento imediato. Para gerações que nunca precisaram colocar uma caneta dentro de um cassete, existe a oportunidade de ver de perto formatos que ajudaram a transportar a voz de Alcione antes do streaming.

Entre tantos títulos, Alerta Geral ocupa um lugar especial para esta repórter. Lançado em 1978 pela Philips, o quarto álbum de estúdio da cantora é um dos melhores discos de samba já feitos. Em 12 faixas, Alcione passa pela urgência de “Sufoco”, pela densidade de “A Profecia”, de Candeia, pela composição de Gilberto Gil em “Entre a Sola e o Salto” e pela força da faixa-título, escrita por Marku Ribas. O repertório ainda inclui a autobiográfica “Eu Sou a Marrom”.

O impacto foi suficiente para que Alerta Geral também se tornasse o nome de um programa de televisão apresentado pela cantora, no qual recebia artistas, promovia encontros musicais e conduzia conversas. Durante a inauguração na coletiva de imprensa, ao ser questionada sobre quais discos considerava importantes dentro de uma discografia tão extensa, Alcione citou outros dois trabalhos.

Capa do álbum ‘E vamos à luta’ (1981)

Eu tive muitos discos bonitos, como ‘E Vamos à Luta’, em que cantei música do Gonzaguinha. Outro disco que marcou a minha vida foi ‘Gostoso Veneno’. Sempre tive uma turma de compositores muito bons compondo para mim. Tive a sorte de encontrar pessoas que queriam me dar uma música. Gilberto Gil me deu uma inédita para gravar. Graças a Deus, foi por aí que eu vim.”

O que não cabe dentro do museu

Uma exposição pode guardar roupas, fotografias, discos, documentos e objetos. Há experiências, porém, que não se acomodam numa vitrine. Durante a inauguração, o TMDQA! perguntou a Alcione qual lembrança de sua carreira não caberia em um museu.

A cantora não escolheu um grande show, uma premiação ou um encontro com outro artista. Pensou nos momentos em que precisou usar a própria voz para se defender:

Eu já fiz umas coisas terríveis. Sou muito bocuda. O que não caberia aqui no museu são os desaforos que eu já disse por causa da minha cor, por causa do lugar onde estou, de a pessoa querer dizer para onde eu vou.”

Alcione lembrou então de “Meu Ébano” e da reação de um diretor ao ouvir o verso “É você um negão de tirar o chapéu / Não posso dar mole, senão você créu”, cantado na sala para os jornalistas prensentes respondendo ao TMDQA!. A música foi lançada no álbum Uma Nova Paixão, de 2005:

Meu diretor me chamou e disse: ‘Mas, Alcione, como é que você vai cantar uma música que fala em créu?’. Eu respondi: ‘Olha, diretor, o senhor não sabe das coisas que eu sou capaz de falar’.”

A cantora contou que nem sempre reagiu dessa maneira. A mudança veio com a repetição das violências e com a percepção de que o silêncio não impediria que tentassem determinar seu valor:

Eu já fui de não falar essas coisas. Mas, na vida, você vai tropeçando em pessoas que querem te desqualificar pela sua origem, pela sua cor. Porque eu sou do Maranhão, aí não presta. Sou bocuda mesmo e vou morrer assim.”

Serviço

Em cartaz até 6 de dezembro
Local: Museu das Favelas
Endereço: Largo Páteo do Colégio, 148, Centro Histórico de São Paulo – SP
Visitação: Terça a domingo, das 10h às 17h (permanência até as 18h)
Entrada: Gratuita
Ingressos: Disponíveis para retirada antecipada via Sympla ou diretamente na recepção do Museu (sujeito à lotação)

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Liz Sacramento

“Com Amor, Alcione”: exposição em São Paulo celebra 50 anos de carreira da cantora maranhense


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