Como o Tropkillaz redesenhou a música urbana brasileira e conquistou o mundo

As batidas do Tropkillaz possuem uma assinatura imediata que dispensa apresentações. Muito antes do mercado fonográfico brasileiro compreender o produtor musical como uma figura central do espetáculo, o duo já redesenhava as engrenagens da música urbana, exportando texturas periféricas para a espinha dorsal do pop global. Para além de acompanhar tendências internacionais, DJ Zegon e Laudz sintonizaram o Brasil em um novo ritmo de pista, transformando o peso do rap e o swing do funk em uma linguagem universal capaz de atrair desde lendas americanas até o mercado fonográfico asiático.
Essa “grife sonora” nasceu da colisão orgânica entre dois arquitetos de tempos distintos. DJ Zegon carrega consigo a bagagem analógica e histórica da era de ouro do rap nacional, tendo pavimentado os anos 90 com o Planet Hemp e explorado as fronteiras globais no elogiado projeto N.A.S.A. Do outro lado, Laudz representa a precisão cirúrgica da geração digital de beatmakers, de alguém que domina o software. Ao unirem essas duas forças, eles criaram um ecossistema criativo onde o preciosismo do estúdio e o termômetro das ruas convivem em perfeito equilíbrio.
Olhando para trás, a dupla destrincha uma linha do tempo que se confunde com a própria consolidação do trap e da bass music no país. Longe da necessidade de alimentar a velocidade superficial das redes sociais, Zegon e Laudz hoje se dão ao luxo de priorizar o ofício do estúdio, cozinhando novos projetos em seu próprio tempo. Em entrevista ao TMDQA!, os produtores revisitam os acidentes felizes que moldaram o grupo, analisam o impacto silencioso de seus timbres no fenômeno do K-pop e reafirmam a importância de manter as raízes intactas enquanto jogam nas ligas mais competitivas do mundo.
O acidente perfeito
O nascimento do Tropkillaz esteve longe de seguir um plano de negócios ou uma estratégia ensaiada para as rádios. O início do duo foi espontâneo, impulsionado pelas conexões casuais que a internet proporciona. Zegon recorda que o projeto surgiu de forma despretensiosa, após uma polêmica no Twitter envolvendo uma tradicional competição de produtores de rap, a Liga de Beats.
O mais legal disso tudo é que não teve nenhum plano. A gente não planejou, não premeditou, não, vamos fazer um projeto que vai, não. A gente foi, eu sempre já falei, isso foi um acidente. Eu vinha de projetos, né? Eu já tinha o Planet, tô aqui com o D2 muitos anos, era 2012 quando eu e o Laudz começamos. Eu conheci o Laudz no Twitter, a nossa primeira conversa foi sobre a Liga dos Beats. O Laudz veio, ficou em segundo lugar, todo mundo postou e eu falei: ‘Te roubaram feio, mano. Você tinha que ter ganhado essa’.”
O entrosamento no estúdio foi imediato e trouxe uma proposta clara: subverter a dinâmica tradicional do rap nacional e colocar os beatmakers na linha de frente, inspirados em movimentos consolidados da música eletrônica internacional. Zé Gonzales acrescenta:
Quando eu conversava com o Laudz, eu dizia que a gente tinha que fazer pro rap o que o drum ‘n’ bass fez, que é música que não depende de MC, que não depende de feat, que a gente não depende de ninguém. Vamos fazer o rap como a música eletrônica foi feita, nós dois beatmakers, e virar o nosso show, a nossa parada, porque ninguém fazia isso dentro da cena. Vamos inventar isso”.
A Sibéria virou termômetro
O reflexo dessa consistência digital não demorou a cruzar oceanos. A faixa “Mambo”, uma das primeiras composições assinadas pela dupla, começou a gerar um volume incomum de interações nas redes sociais russas. Sem o suporte de grandes escritórios de gerenciamento de carreira, os produtores descobriram que o seu som havia se tornado um fenômeno de massas no Leste Europeu.
Zegon relembra o impacto de receber o convite para a primeira turnê internacional do projeto, intermediada por um produtor local.
Pegamos uma turnê de cinco dias, cinco shows: Moscou, São Petersburgo e fomos parar na Sibéria, em Krasnoyarsk. Estava zero graus no verão, com sol da meia-noite, foi incrível e a gente completamente pop star no bagulho. Pensei: ‘Que porra é essa? Está famoso o bagulho, a gente só fez umas músicas, a gente teve que montar um show’.”
Ao retornar ao Brasil, o Tropkillaz levou essa experiência de palco para o circuito de clubes nacionais, como as históricas noites na Clash Club, na Zona Oeste de São Paulo. Essa vivência direta com a pista de dança refinou a sensibilidade dos produtores para entender o comportamento da plateia, unindo a longa milhagem de Zegon com o frescor de Laudz, que pontua:
A gente ter esse feeling de DJ conta muito. O Zé está tocando aí desde 80 e poucos, então sabe muito bem o que a galera quer ouvir. E querendo ou não, eu também comecei cedo, então já tinha noção do que a galera queria ouvir. Então acaba ficando um pouco menos difícil de entender o público. A gente só precisa executar ali o que é basicamente o que meio que a gente quer ouvir também”.
Essa abordagem garantiu que o duo se distanciase das estridências comerciais do EDM da época, focando na sofisticação dos samples e na inclusão orgânica de colagens de voz e percussões brasileiras, elementos herdados diretamente da cultura de rua.
Primeiro sucesso nacional
A dinâmica interna do Tropkillaz sempre foi sustentada por um forte contraste geracional que expandiu o alcance do projeto. No início do duo, Zegon já acumulava décadas de vivência na indústria, enquanto Laudz iniciava seus vinte anos. Essa diferença de idade funcionava como um filtro rigoroso de qualidade: se uma batida agradasse a ambos, o potencial de comunicação com o público geral era garantido.
Essa assinatura maleável permitiu ao duo atuar como uma plataforma de fomento para a cena nacional através do selo Skol Music, onde produziram o clássico “Tombei”, de Karol Conká, e colaboraram com nomes como o álbum Cachorro Magro, do rapper do Shawlin. Pouco tempo depois, a parceria com Anitta no estrondoso sucesso de “Vai Malandra” inseriu definitivamente o Tropkillaz no topo das paradas do mainstream brasileiro. O sucesso massivo, contudo, alterou a percepção de uma fatia do público de nicho, como recorda Laudz:
Essa parada da Anitta foi o momento em que a gente começou a aparecer mais aqui no Brasil, porque até então a gente fazia meio que quase tudo fora. Mesmo quando saiu a primeira música com a Anitta, o pessoal achava que a gente era gringo. A gente já cansou de receber mensagem de brasileiro em inglês, achando que nós éramos gringos”.
Zegon complementa analisando o impacto dessa transição para o mercado de massa.
O ‘Vai Malandra’ ali também foi o ponto que a gente se afastou de um certo público, porque ali quando você vai pro mainstream, um monte de gente vai virar a cara para você, e virou. A gente se afastou daquele público que é o público do Soundcloud atual, toda a geração que faz, que são os pioneiros, são os ‘Trop’ de hoje em dia. A gente se distanciou disso e foi para um outro caminho. A gente também estava todo mundo mais velho fazendo música.”
Uma estrada sem atalhos
Embora o Tropkillaz tenha estabelecido novos rumos no mercado nacional, o alcance internacional de suas produções ganhou novos contornos na Ásia. A estética desenvolvida pelo duo em sua primeira fase serve de alicerce para grande parte das produções atuais de K-pop, que utilizam a fusão de graves e texturas eletrônicas como base. Zegon identifica com clareza essa influência nas estruturas das canções sul-coreanas modernas.
O K-pop hoje em dia é bem inspirado no hip-hop com música eletrônica e no trap. A gente escuta nossas demos da época, músicas daquela primeira fase, algumas que não deram em nada podiam ser um K-pop. Essa essência a gente foi precursor, demorou anos para isso acontecer depois. Aquele tipo de teclado que é a identidade dos drops do Trop, aquele teclado meio desafinado com uma ressonância, cheio de saturação, aquilo virou tipo tema em músicas de 2020 para frente até agora.”
Atualmente, o Tropkillaz optou por se afastar da velocidade frenética de conteúdos imposta pelos algoritmos das redes sociais, focando a energia no desenvolvimento técnico dentro do estúdio. Deixando de lado a pressa por engajamento efêmero, os produtores concentram seus esforços em cozinhar faixas para outros artistas e em lapidar um vasto catálogo autoral guardado para o momento certo, como revela Zegon:
A gente vem gravando e a gente nunca parou de gravar, mesmo estando trabalhando com foco máximo na nossa carreira de produtor nos últimos anos, a gente tá cozinhando disco, né? A gente tem mais que um disco pronto. A gente nunca que a gente vai engavetar isso. A gente fala do disco do Trop a vida inteira e tem mais que um, porque a gente vai para vários lados. Um projeto principal nosso é lançar um disco até daqui um ano, quem sabe menos”.
Essa postura de blindar o processo criativo reflete o compromisso de manter viva a verdade que os uniu no começo da caminhada, garantindo que o sucesso comercial não apague a essência urbana do projeto. Para Laudz, a sobrevivência da dupla depende diretamente dessa conexão com as origens:
A gente precisa estar conectado com o que nos trouxe até aqui, a gente não pode perder esse elo tanto do rap, que é algo que a gente gosta muito de fazer, que é produzir os MCs. A gente não pode perder isso, senão perde o sentido, sabe? A gente não vai estar sendo verdadeiro com nós mesmos. A partir do momento que a gente esquecer o que nos trouxe até aqui, tem alguma coisa errada.”
Sem buscar atalhos e mantendo o orgulho de representar a identidade musical brasileira nas ligas mais competitivas do mercado mundial, Zegon encerra reafirmando a resiliência do projeto.
A gente gostaria que soubessem que foi a gente que plantou, que pavimentou essa estrada. Mas a gente segue fazendo o nosso, se preocupa mais em fazer olhando para frente. Vamos continuar fazendo que uma hora o que é nosso sempre vem, sem atalhos. A gente segue a caminhada sem atalhos.”
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Felipe Mascari
Como o Tropkillaz redesenhou a música urbana brasileira e conquistou o mundo




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