Como Seu Jorge transformou 16 anos de produção em seu disco mais sofisticado

Quem der play em The Other Side, novo álbum de Seu Jorge, esperando reencontrar o sambista expansivo de Baile à la Baiana, o cronista bem-humorado de Músicas Para Churrasco ou o hitmaker de refrães imediatos como “Burguesinha”, talvez precise de alguns minutos para entender o “outro lado” sugerido no título do disco.
Foram 16 anos para Seu Jorge lançar seu disco mais sofisticado. Em sistema Dolby Atmos, o TMDQA! ouviu em primeira mão as 11 faixas do álbum, que chegou às plataformas nesta sexta-feira, 8 de maio, em lançamento mundial.
Com participações de Marisa Monte, Maria Rita, o veterano multifacetado Beck e o grupo belga-congolês Zap Mama, o disco conta ainda com produção de Mario Caldato Jr. e arranjos orquestrais assinados por Miguel Atwood-Ferguson. Dessa forma, The Other Side é sensível, sofisticado, tecnicamente minucioso e claramente conectado à linguagem da bossa nova.
O álbum chega pelas gravadoras Amor in Sound, selo de Mario Caldato Jr., Black Service, fundada por Seu Jorge, e Phonomotor Records, de Marisa Monte. A distribuição global fica por conta da The Orchard.
The Other Side: o disco mais sofisticado de Seu Jorge
Gravado integralmente no estúdio MCJ, em Los Angeles, o trabalho desacelera a atmosfera mais festiva da carreira do artista. Assim, investe em canções mais contemplativas, violões delicados, baixos acústicos e arranjos orquestrais que se espalham pelo ambiente sem excesso.
A sensação, em vários momentos de “The Other Side”, é a de assistir a um filme sem imagens. Não por acaso, Seu Jorge afirma que as canções ganharam um caráter cinematográfico desde as primeiras gravações do álbum. Essa percepção é ampliada, principalmente, pela produção de Mario Caldato Jr. — brasileiro premiado que já trabalhou com nomes como Marisa Monte, Chico Science, Marcelo D2 e os Beastie Boys.
Além disso, a longa parceria entre os dois “Marios”, iniciada em Samba Esporte Fino (2001), ajuda a explicar a unidade sonora do trabalho. Os arranjos orquestrais de Miguel Atwood-Ferguson, multi-instrumentista e compositor que acumula mais de 600 gravações em álbuns, filmes e séries de televisão, aprofundam ainda mais essa unidade.
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O olhar internacional do álbum não dilui a identidade musical de Seu Jorge. Pelo contrário, reforça elementos que sempre atravessaram sua trajetória, como o samba, a bossa nova e a sofisticação melódica da MPB.
A abertura com “Crença”, composição de Milton Nascimento e Marcio Borges lançada originalmente no clássico álbum Travessia (1967), já anuncia o tom contemplativo de The Other Side. Em seguida, “Vento de Maio”, interpretada ao lado de Maria Rita e eternizada nas vozes de Lô Borges e Elis Regina, reforça a aproximação do álbum com a tradição do Clube da Esquina. A faixa também se conecta com a estética intimista da bossa nova, em uma faixa conduzida por cordas suaves e violões discretos.
A escolha do repertório também ajuda a revelar outra mudança importante em The Other Side. Aqui, Seu Jorge parece tirar o pé da figura do compositor e assumir de maneira mais evidente o papel de intérprete.
Das 11 faixas do álbum, apenas “Quando Chego” leva sua assinatura na composição, ao lado de Marisa Monte e Arnaldo Antunes. A canção nasceu de forma espontânea, como contou Seu Jorge aos jornalistas na Black Service. Durante um feriado em que havia decidido ficar em casa, o cantor viu Marisa Monte online no WhatsApp, mandou mensagem e descobriu que ela estava indo para Paraty ao lado de Arnaldo Antunes. O encontro acabou inspirando a faixa, que fala justamente sobre deslocamento e convite.
Após a audição na Black Service, em conversa com os jornalistas, Seu Jorge comentou que o disco nasceu longe da lógica tradicional da indústria. Sem pressão de lançamento ou prazos rígidos, o álbum foi gravado aos poucos entre 2009 e 2018. Ao longo dos 16 anos para a conclusão do trabalho, o artista contou que o que o guiou sempre foi a busca pela beleza sonora e a ousadia da liberdade criativa.
Essa construção mais paciente aparece de forma clara em várias faixas do repertório, especialmente em “Girl You Move Me”, escolhida como single para Estados Unidos e Europa.
Originalmente gravada pela banda canadense Cane and Able nos anos 1970, a música já havia sido reinterpretada por Seu Jorge no projeto coletivo Almaz, lançado em 2010. A nova versão muda completamente a direção da faixa: sai a leitura mais pop rock e psicodélica do passado, entra uma interpretação marcada por cordas orquestrais, baixo acústico e uma atmosfera misteriosa que reforça o caráter cinematográfico do disco.
O olhar internacional do álbum aparece também nas participações especiais. Em “River Man”, Seu Jorge divide a faixa com o astro internacional Beck em uma releitura da clássica composição de Nick Drake. Já “Far From The Sea” ganha participação do coletivo belga-congolês Zap Mama, grupo fundado por Marie Daulne e conhecido por misturar referências africanas, europeias e vocais experimentais. Mesmo com essas conexões internacionais, o disco mantém forte ligação com a canção brasileira.
“Caboclo”, lançada por Arthur Verocai em 1972, ganha nova leitura mais de cinco décadas depois da gravação original. Já “Flor de Laranjeira” e “Luz na Escuridão”, de Cezar Mendes e Capinam, reforçam a presença de um lirismo brasileiro sofisticado que atravessa o álbum inteiro. Em outra direção, “Folia de Amor” recoloca o samba em primeiro plano. Assim, lembra que toda a sofisticação sonora de The Other Side continua ligada à pulsação brasileira que moldou a trajetória de Seu Jorge desde os tempos de Farofa Carioca.
“Beleza Bárbara”, que encerra o álbum, aposta na linguagem do bolero, gênero pouco explorado recentemente na música brasileira. A faixa longa e hipnótica lembra o resgate contemporâneo do estilo em trabalhos internacionais recentes, como The Romantic, de Bruno Mars. Ainda assim, aqui o caminho é outro, menos ligado ao bolero mariachi pop e mais próximo de uma interpretação lenta, orquestral e melancólica.
Vale lembrar que Seu Jorge é uma das atrações da 12ª edição do Coala Festival, que acontecerá no Memorial da Améria Latina, em São Paulo, dia 13 de setembro. Ele também fará em breve um show especial ao lado de Criolo no festival Coolritiba.
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Liz Sacramento
Como Seu Jorge transformou 16 anos de produção em seu disco mais sofisticado




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