Conexão Brasil x Portugal: o encontro entre Jovem Dionisio, Terno Rei e Capitão Fausto

Jovem Dionisio, Terno Rei e Capitão Fausto
Jovem Dionisio, Terno Rei e Capitão Fausto

Cruzar o Atlântico em direção ao Rio de Janeiro é um movimento clássico de cartografia afetiva, mas o que acontece quando três eixos tão distintos do indie contemporâneo decidem ancorar no mesmo porto? De um lado, o Terno Rei e sua melancolia urbana de trinta e poucos anos, envelopada no breu sofisticado e nas texturas finas de Nenhuma Estrela. Do outro, os guris da Jovem Dionisio, que chutaram o balde dos algoritmos para rodar as estradas com a crueza analógica, o suor e os ruídos cotidianos de Migalhas. E, costurando essa costura transatlântica, os portugueses do Capitão Fausto, que há tempos fazem da luz carioca o combustível para sua Subida Infinita.

No próximo domingo, dia 31 de maio, o palco do Vivo Rio deixa de ser apenas cimento e luz para virar uma ponte viva. Um ecossistema onde as guitarras climáticas de São Paulo, o sotaque de boteco de Curitiba e o rock ensolarado de Lisboa vão se chocar – e, no intervalo das faixas, ganhar o estofo monumental e a urgência social das orquestras Maré do Amanhã e Chiquinha Gonzaga. É o indie que sabe ser íntimo, mas que descobriu que também pode ser sinfônico.

Antes que as cortinas se abram e o som das louças lavadas ou dos violinos flutuantes tome o Parque do Flamengo, o TMDQA! teve a chance de conversar com Ber Pasquali (Jovem Dionisio), Ale Sater (Terno Rei) e Tomás Wallenstein (Capitão Fausto) para entender como a manualidade do erro, o peso da maturidade e a mística da música lusófona se encontram no meio do campo – afinal, entre o dream pop e a garagem, o que esses arquitetos de canções estão buscando é uma única coisa: a imperfeição perfeita do olho no olho.

Com vocês, um papo exclusivo sobre pontes, orquestras e o som que nasce quando a gente decide não ficar parado. Leia abaixo!

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TMDQA! Entrevista Jovem Dionisio x Terno Rei x Capitão Fausto

TMDQA!: Que maravilha ter um encontro tão único e tão belo com vocês! Ale, Bernardo e Tomás, muito obrigado mesmo por receberem a gente. Eu já entrevistei o Ale e o Bernardo antes, então é uma felicidade enorme estar aqui com os três.
Queria começar fazendo uma pergunta geral:o pop contemporâneo que vocês fazem costuma nascer de forma muito íntima – às vezes no quarto, num estúdio pequeno, no looping de uma guitarra ou em um sintetizador. Considerando a surpresa de contar com os shows no intervalo entre vocês, se vocês pudessem “roubar” um instrumento clássico da Orquestra Maré do Amanhã ou da Chiquinha Gonzaga para virar um membro fixo da turnê de vocês, qual seria e por quê?

Tomás Wallenstein: No nosso caso, se pudéssemos, roubávamos todos! [risos] Nós temos feito alguns concertos em Portugal com orquestras locais que nos têm desafiado – fizemos no Norte, em Aveiro, e fizemos aqui em Lisboa também – portanto, já estamos habituados a ver as nossas músicas com uma orquestra a tocar à volta, e é sempre um fascínio diferente; a música ganha uma força enorme. Mas, ao mesmo tempo, fico tão contente de tocar no nosso modo mais reduzido, apenas nós os quatro. Acho que a variedade enriquece muito. Sair um bocadinho da rotina é sempre muito saudável.

Ale Sater: Eu diria a mesma coisa. Gosto muito do modelo reduzido de uma banda de rock normal, mas já fizemos algumas apresentações com metais e sopros, e foi uma experiência muito legal. Muitas músicas do Terno Rei têm arranjos com quarteto de cordas, então há várias faixas que ficariam lindas ao vivo com essa roupagem.
Sendo assim, eu levaria o quarteto de cordas da orquestra! Na parte de percussão e bateria acho que não precisamos de muita coisa, então iria por esse caminho.

Bernardo Pasquali: Para a Jovem Dionisio, sempre que eu pensava em orquestra, imaginava a seção de sopros, os metais também seriam massa. Já temos violino aqui na banda, então seria incrível ter mais gente somando nas cordas.
Mas eu sou muito encantado pelo clarinete e por esses instrumentos que dão um tom que a gente não consegue acessar normalmente na Jovem Dionisio, às vezes fico querendo pegar isso emprestado para o nosso som.

TMDQA!: Espetacular. Agora, uma pergunta específica para o Tomás: vocês do Capitão Fausto têm uma relação umbilical com o Brasil, inclusive tendo gravado o álbum A Invenção do Dia Claro por aqui em 2019. Se o Brasil daquela época tinha uma cor clara e ensolarada, qual é a cor e a temperatura do Brasil de hoje, em 2026, dividindo o palco com a Jovem Dionisio e o Terno Rei?

Tomás Wallenstein: É difícil de responder porque temos uma ligação emocional muito forte com o Brasil, mas não conseguimos ir até aí tanto quanto desejaríamos – a distância, apesar de tudo, ainda nos afasta um bocado. Estivemos aí no ano passado, no Rio e em São Paulo, em novembro, e decidimos voltar agora porque sentimos que havia pessoas que não puderam nos ouvir na altura e poderão ouvir-nos agora.

No geral, as cores com que vemos o Brasil são sempre de muita alegria e muita festa. Temos feito muitas amizades, conhecido pessoas novas, e por isso essa vontade de regressar permanece sempre.

Eu gostaria de poder falar com mais sabedoria sobre a atualidade do país e o meio cultural de agora, mas não me sinto à vontade por não estar aí há tempo suficiente. Talvez o Bernardo ou o Ale possam contextualizar como têm visto o Brasil nestes últimos tempos.

Ale Sater: Bom, nesta semana São Paulo está bem fria, então eu diria que a cor de agora é azul e branco. Cor de gelo! [risos]

Bernardo Pasquali: Se fosse falar de Curitiba, pior ainda! Provavelmente ia ter mais branco porque está um pouco mais frio ainda e o céu está menos azulado do que em São Paulo [risos] aqui é quase cinza.

Tomás Wallenstein: Então a conversa inverte-se do normal! Nós aqui em Lisboa estamos com 32 graus, eu estou suando [risos] mas o bom é que no Rio nunca está frio. O dia mais frio do Rio de Janeiro deve ser uns 21 graus. Vai ser maravilhoso.

TMDQA!: Ale e Ber, o Capitão Fausto tem essa identidade lírica e irônica muito própria de Lisboa. O que vocês acham que essa nova cena brasileira tem a aprender com o jeito português de fazer música, e vice-versa?

Ale Sater: Com certeza cada artista tem o seu traço, mas hoje, na nossa cena indie, acho que existem projetos com essa mesma irreverência e uma dose de ironia fina. Eu tenho um projeto solo em que a Helena toca baixo – ela é uma grande amiga e tem uma banda chamada Pelados, que é muito boa! Tocamos juntos algumas vezes no ano passado e as músicas deles têm essa pegada: são capciosas, inteligentes e têm uma ironia excelente.

Ao mesmo tempo em que são universais, trazem uma característica muito local da cidade de São Paulo. Acho um exemplo legal de som que conversa com o que o Capitão Fausto faz.

Bernardo Pasquali: Eu percebo que, conforme fui descobrindo os projetos de Portugal, deu para sacar o quanto a herança histórica deles traz referências diferentes das nossas, traçando construções melódicas e harmônicas muito particulares. É muito curioso de ouvir e sempre há o que aprender.

As derivações que eles fazem partindo de ritmos como o fado, por exemplo, que é algo que não temos aqui… Você vê que a música não é um fado, mas deriva de lá, puxa um “gostinho” daquilo que deixa a canção em um formato que no Brasil a gente não faria, porque nossa carga histórica e nossos caminhos são outros. Essa troca é muito benéfica para os dois lados, sempre tem uma figurinha para trocar, estou sempre prestando atenção no que vem de Portugal!

TMDQA!: Gente, eu não faço a mínima ideia de como vai ser o cronograma de vocês no Rio ou se vão ter muito tempo juntos, mas imaginem que vocês ganharam um passe livre para gravar um single inédito nos intervalos dos ensaios. Como vocês acham que seria essa fusão perfeita entre o “taco” de Curitiba, de São Paulo e de Lisboa em uma mesma estrofe? Quem cantaria o quê?

Bernardo Pasquali: Essa é uma pergunta difícil! Mas partindo disso que acabei de falar, acho que a graça estaria justamente em conseguir colocar em uma mesma “kombucha” todas essas cargas que cada um carrega – seria um desafio incluir tudo e fazer as escolhas certas. Eu vejo elementos muito próprios de Curitiba, e consigo captar em São Paulo e em Lisboa uma certa melancolia irônica em comum; esse lugar de ter uma sagacidade por trás, mas uma sagacidade que te deixa exposto, em vez de te colocar em uma posição soberana. Acho que esse seria o ponto de inflexão entre os três mundos.

Agora, quem começaria cantando, quem faria o refrão ou quem solaria na guitarra… aí teríamos que decidir no pedra, papel ou tesoura na hora! [risos]

Tomás Wallenstein: Acho que das vezes que fizemos trabalhos de colaboração com outros artistas, a parte mais interessante foi mesmo nos primeiros ensaios. Juntarmo-nos todos, começar a planejar, ter a ideia… Às vezes podemos ir com conceitos pré-concebidos, mas quando pomos a mão na massa, as coisas se transformam e as ideias reais começam a surgir. Se tivéssemos mais tempo e um estúdio por lá, com certeza iríamos nos divertir muito fazendo música juntos.

Ale Sater: Essa parte de dividir vocais e composição é sempre muito interessante. Na experiência que tive com o Ber na música que gravamos juntos, deu para ver isso: cada um canta uma frase com os seus trejeitos e com a sua própria ideia melódica. Se fizéssemos uma música entre as três bandas, teríamos várias opções e pegaríamos a melhor solução melódica de cada parte. A melodia final ficaria linda, com certeza!

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TMDQA!: Agora umas perguntinhas mais específicas para cada um de vocês. Começando pelo Ber: cara, o Ontem Eu Tinha Certeza (Hoje Eu Tenho Mais) parecia ser o disco das convicções estéticas da Jovem Dionisio, enquanto o Migalhas parece ser um trabalho mais artístico focado nas sobras, no que fica pelo caminho. Ao mesmo tempo, vocês estão planejando rodar o país em um ônibus Scania dos anos 2000. O que tem mais a ver com a Jovem Dionisio em 2026: a grandiosidade de um Vivo Rio lotado ou a poeira da estrada cantando as “migalhas” de histórias pelo Brasil? Ou seriam os dois?

Bernardo Pasquali: Acho que esse nosso terceiro disco contempla muito melhor a nossa entrega tanto para os instrumentos quanto para a nossa relação interna, o nosso próprio círculo. Nos primeiros discos, a gente levantava as ideias e ia alimentando cada uma com o input individual; cada um estudava em casa e chegava com a sua visão: “Olha, descobri isso para essa música, o que vocês acham?”.

Já neste terceiro disco, trabalhamos muito mais na construção conjunta. Estávamos sentados juntos no estúdio, criando e apresentando tudo ao mesmo tempo. Então, eu acho que o Migalhas fala muito melhor sobre a confiança e sobre a lucidez do corpo da banda pulsando junto, do que simplesmente sobre o brilho dos detalhes isolados. Essa turnê e o nosso modo de dizer nesse álbum dizem respeito a quem nós somos hoje, estamos sempre lançando discos justamente para comportar a nossa vontade atual.

TMDQA!: Ale, o Nenhuma Estrela está completando um ano de estrada, o que chega a ser impressionante. Eu entrevistei vocês no lançamento do álbum e, de lá para cá, já nos trombamos em várias idas e vindas. Onde você sente que o Terno Rei está mais confortável hoje: na melancolia de um céu sem estrelas ou na catarse de tocar para uma plateia lotada ao lado de amigos de fora?

Ale Sater: O fato de termos tocado bastante no ano passado fez com que o show soasse cada vez melhor – a banda está muito afiada. Nós gostamos de mudar o repertório e temos feito isso a cada apresentação. Tocamos bastante do Nenhuma Estrela, mas voltamos a tocar músicas que estavam fora, como “Vento na Cara“, além de “Mercado” (um b-side do Gêmeos) e faixas do Essa Noite Bateu Com Um Sonho, nosso segundo disco, que completa 10 anos este ano.

Em relação ao lugar onde nos sentimos mais confortáveis, eu diria que em todos. Hoje em dia fico muito tranquilo fazendo um show. Sempre fico feliz de poder mostrar as minhas músicas e tocar, ainda mais em um dia como esse, com duas bandas que a gente gosta tanto, pelas quais temos um super carinho e admiração. É só alegria [risos].

TMDQA!: Tomás, meu querido, vocês estão rodando com a turnê do Subida Infinita. Tocar no Rio de Janeiro, uma cidade cercada por montanhas e subidas literais – e onde vocês já brilharam no festival Rock the Mountain -, faz com que o conceito desse disco pareça algo mais físico?

Tomás Wallenstein: Sim! Mas a verdade é que já não sentimos que estamos tanto a apresentar o Subida Infinita. O disco saiu em 2024 e tocamos muito o repertório em 2024 e 2025, sobretudo em Portugal. Nesses anos, ainda estávamos muito imersos naquele universo, que é um bocado triste, melancólico e fala de despedida.

Sinto que a banda agora está em outro momento, já na mentalidade de um disco novo que há de aparecer – que ainda não existe e não sabemos o que é -, mas o nosso sentimento de grupo já está lá.. É um lugar mais festivo, de união, estamos bastante sincronizados. Temos tocado tanto em shows muito grandes quanto em salas muito pequenas fora de Portugal, na Europa.

A maneira como vemos o mundo agora se transformou desde a altura do Subida Infinita. Em janeiro, fizemos talvez o maior concerto da nossa carreira inteira na maior arena de Lisboa, mas logo depois fizemos salas em Bruxelas para 190 pessoas, uma escala muito pequenina, estamos sempre a aprender. Todos os shows acumulam bagagem e são importantes.

Há um músico muito conhecido em Portugal, o Kalú, baterista de uma banda histórica chamada Xutos & Pontapés. Quando começamos a tocar, ele teve uma conversa conosco e o único conselho que nos deu foi: “toquem todos os concertos como se fosse o último, porque nunca sabem o que vai acontecer amanhã”. Nós interiorizamos muito esse sentimento. Todos os shows são cruciais, seja para pouca ou muita gente, em uma cidade que gostamos mais ou menos – pode ser sempre o último, e acho que estamos a transpirar essa atitude.

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TMDQA!: Pessoal, o projeto “Mostra de Portugal Contemporâneo no Brasil” funciona como um manifesto de ligação cultural, mas também apoia a transformação social pela música, o protagonismo feminino nas orquestras e a educação. Esse encontro de vocês no dia 31 de maio vai muito além do peso histórico; ele carrega muito significado. Se esse show pudesse deixar uma única mensagem cravada na parede do Rio e no futuro da música na nossa língua, qual seria essa frase e por quê?

Bernardo Pasquali: Pergunta difícil! Mas eu gosto de pensar que esse show vai mostrar que a distância física diz muito pouco quando existe uma proximidade de energia e de vontade. Quando as expectativas e as vontades se equivalem e a gente consegue equilibrá-las, a distância diminui e passa a ter muito menos importância no dia a dia. Olha nós aqui, por exemplo: estamos conversando por essa ligação a muitos quilômetros de distância uns dos outros, mas eu sinto como se fosse uma conversa de amigos de longa data. Sinto que no dia 31 isso vai se concretizar não apenas em uma conversa, mas na execução sonora, que é o que a música é, afinal de contas. Isso vai ser elucidado no palco de uma forma muito bonita.

TMDQA!: Espetacular, gente! Participar de uma conversa com vocês três, a gente se sente de fato em um papo entre amigos, é um privilégio. Respostas maravilhosas. Muito obrigado mesmo pela oportunidade, estamos juntos!

Tomás Wallenstein: Muito obrigado, estou muito espectante para a próxima semana!

Ale Sater e Bernardo Pasquali: Valeu, obrigado a vocês! Nos vemos nos shows!

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Jovem Dionisio, Terno Rei e Capitão Fausto no Vivo Rio

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Eduardo Ferreira

Conexão Brasil x Portugal: o encontro entre Jovem Dionisio, Terno Rei e Capitão Fausto


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