Do revival à reconstrução: como o rock voltou a crescer no Brasil nos últimos anos

Budang na Audio
Foto por Lin Uehara

Por Lincoln Uehara

Nos últimos anos, o rock voltou a ocupar espaço relevante no Brasil. O movimento, que começou ainda durante a pandemia como um resgate nostálgico, especialmente do emo e do pop punk dos anos 2000, evoluiu para um cenário mais amplo de retomada, crescimento e reestruturação da cena.

Mais do que um simples revival, o que se observa é uma combinação de fatores que reposicionam o gênero no consumo contemporâneo, da volta dos shows à reorganização do circuito independente, passando por festivais, dados de streaming e uma nova geração de comunicadores.

Entre 2020 e 2022, durante o período de isolamento social, o consumo digital impulsionou o resgate de sonoridades e estéticas ligadas ao rock dos anos 2000. O emo e o pop punk voltaram a circular com força nas redes sociais, impulsionados por algoritmos, playlists e conteúdos voltados à memória afetiva.

Esse movimento não se restringiu a fãs antigos. Uma nova geração passou a consumir e reinterpretar esse repertório, criando uma ponte entre passado e presente.

A retomada dos shows e a reativação do underground

Com o avanço da vacinação e a liberação dos eventos ao vivo, 2022 marcou o retorno efetivo dos shows no Brasil. Bandas voltaram à estrada, casas reabriram e o público retomou a presença nos eventos.

Esse processo também impulsionou a reativação do circuito underground. Espaços históricos como o Hangar 110, fechado desde 2017, voltaram a operar, simbolizando a reconstrução de uma base essencial para a cena independente.

Gritando HC no Hangar 110
Gritando HC se apresentando no Hangar 110. Foto por Lin Uehara

A retomada também se refletiu no retorno de eventos que marcaram gerações anteriores. Um exemplo é o ABC Pro HC, que voltou a acontecer em julho de 2022 após anos de hiato. Mais do que uma volta pontual, esses eventos indicam a reorganização da base da cena, com bandas em circulação, público presente e espaços novamente ativos.

Dos grandes festivais aos eventos de médio porte

O movimento não ficou restrito ao circuito independente. Grandes festivais também passaram a refletir esse momento. O Rock in Rio 2022 reuniu nomes históricos como Iron Maiden, Guns N’ Roses e Green Day, ao mesmo tempo em que abriu espaço para artistas do underground nacional, como Surra, Dead Fish, Ratos de Porão e Crypta. A coexistência entre diferentes camadas da cena aponta para um cenário mais integrado e ativo.

Eventos de médio porte também passaram a sinalizar a consolidação desse crescimento. O Oxigênio Festival retornou em novembro de 2022 com três dias de programação, reunindo bandas nacionais e internacionais dentro do punk, emo e hardcore.

Anberlin no Polifonia EMOVIVE
Anberlin se apresentando no Polifonia EMOVIVE. Foto por Lin Uehara

Ao mesmo tempo, festivais temáticos baseados na nostalgia ganharam força. A I Wanna Be Tour e o Polifonia Emo Vive consolidam um modelo de evento focado na memória afetiva, agora transformada em produto de grande alcance.

A força desse movimento também se manifesta na escala. Bandas que já não estavam em atividade voltaram aos palcos mobilizando grandes públicos em todo o país. Casos como NX Zero e Forfun mostram que o apelo nostálgico se traduz em demanda real, com turnês de grande porte e alta procura por ingressos.

NX Zero no Allianz Parque
NX Zero no Allianz Parque. Foto por Lin Uehara

Um crescimento que ultrapassa o emo

Embora o emo tenha sido um dos gatilhos mais visíveis, a retomada não se limita a uma única vertente. O crescimento se espalha por diferentes cenas do rock. Bandas internacionais voltaram a incluir o Brasil em suas rotas de turnê, enquanto grandes eventos passaram a ocupar novamente o calendário nacional.

No metal, festivais como o Summer Breeze Brasil, posteriormente rebatizado como Bangers Open Air, reforçam o país como um dos principais polos do gênero. Mesmo com line-ups recheados de atrações internacionais, um dos pontos de maior expectativa de público foi a reunião do Angra, indicando também uma valorização crescente do metal nacional dentro desse novo cenário.

Korzus em nova formação
Korzus em 2026. Foto por @eromera

Para Marcello Pompeu, vocalista do Korzus, o crescimento recente da cena também passa por mudanças de comportamento provocadas pela pandemia.

Hoje os eventos acontecem mais cedo, o que estimula principalmente o público mais jovem. Outro fator importante são os valores humanos dentro de um mundo cada vez mais ditado pela internet. Durante a pandemia, muita gente viveu a solidão e passou a valorizar mais o encontro presencial, algo que se reflete diretamente nos eventos de rock.”

O vocalista do Korzus também aponta que o período de isolamento acabou estimulando o surgimento de novos projetos musicais.

Surgiram bandas novas, artistas novos e até pessoas que, naquele isolamento, criaram projetos musicais e ganharam coragem para apresentar isso ao público. Com tudo isso funcionando como uma grande engrenagem inconsciente, tivemos uma estilingada brutal na cena brasileira e mundial também.”

O avanço do rock também aparece nas plataformas digitais. Segundo a Luminate, o gênero foi o que mais cresceu globalmente em 2025, com aumento de 6,4% e 260,5 bilhões de reproduções.

No Brasil, dados do Spotify indicam que o rock chegou ao Top 3 dos gêneros mais ouvidos em 2023. Mais de 6 milhões de playlists com termos relacionados ao gênero foram criadas por usuários, com destaque para públicos entre 18 e 24 anos e 35 a 44 anos. O cenário aponta para uma combinação entre nostalgia e renovação de audiência.

Os novos agentes da cena

Outro elemento central desse crescimento é o surgimento de novos agentes de divulgação. Criadores de conteúdo, páginas e mídias independentes passaram a atuar diretamente na construção e circulação da cena. Plataformas como New Faces Rock, Musicult, Downstage, Rock For e The Rods Show ajudam a conectar público e artistas fora dos meios tradicionais, divulgando bandas, cobrindo festivais e aproximando novas gerações.

Na visão de Harry Delfino, criador da página Rock For, o crescimento do rock também pode ser percebido pela movimentação dos festivais independentes, pelo fortalecimento das bandas autorais e pela renovação do público.

Particularmente, acredito que a cena está muito efervescente em vários sentidos. No hardcore pesado surgem bandas que vêm se destacando, enquanto no emo um grande catalisador é o Banda de Casinha, onde conheci muitos artistas novos. A expansão do festival para outras cidades mostra que a cena não está fechada em um único estilo, existe espaço para todos os gostos. E quando você participa desses eventos, percebe uma coisa muito importante: a presença de uma galera mais nova e uma diversidade que antes a gente não via com tanta força.”

Para Harry, embora o movimento ainda esteja distante das grandes mídias, alguns sinais mostram que o mercado começa a olhar para essa nova geração de artistas.

A cena está viva. Ela não chegou ao mainstream, mas quando bandas consolidadas passam a abrir espaço para grupos novos em seus shows, isso mostra que esse olhar já está começando a acontecer. Acho que esse é um passo muito importante para ampliar o alcance de quem está chegando agora.”

Criadores como Bia Vaccari ampliam esse papel ao atuar também na produção cultural, com iniciativas como o Banda de Casinha e o selo Crocante Records, fortalecendo não apenas a divulgação, mas também a estrutura da cena independente.

Um padrão que se repete na história do rock

A dinâmica observada nos últimos anos não é inédita. Segundo a socióloga Valéria Brandini, autora do livro Cenários do Rock, o gênero historicamente se desenvolve a partir de cenas locais e circuitos independentes, sendo posteriormente absorvido pelo mainstream.

Essa leitura ajuda a compreender o momento atual no Brasil. O crescimento recente do rock parte justamente do underground, impulsionado por nichos como hardcore, punk, metal e indie, que se organizam de forma autônoma, fortalecem suas próprias redes e, a partir disso, ganham visibilidade mais ampla.

O que se observa hoje não é um fenômeno isolado, mas a repetição de um padrão histórico, agora mediado por novas formas de circulação, plataformas digitais e uma nova geração de agentes culturais.

O que começou como um movimento nostálgico durante a pandemia evoluiu, ao longo dos anos seguintes, para uma rearticulação completa da cena de rock no Brasil. Do underground aos grandes festivais, passando por dados de consumo, retorno de bandas e novos agentes de comunicação, o gênero volta a operar em múltiplas frentes.

Mais do que revisitar o passado, o rock brasileiro parece viver um novo ciclo, sustentado pela memória, mas impulsionado por uma estrutura que voltou a se movimentar.

O post Do revival à reconstrução: como o rock voltou a crescer no Brasil nos últimos anos apareceu primeiro em TMDQA!.

Tenho Mais Discos Que Amigos

Do revival à reconstrução: como o rock voltou a crescer no Brasil nos últimos anos


Translate »