Emmercia e Juvi Chagas falam sobre saúde mental, rock e fugas da mesmice

Quando a música pesada decide descer do salto e abandonar os velhos clichês de estúdio escuro, o resultado pode surpreender. Em “Por Pouco Eu Não Estava Aqui”, novo single da banda paulistana Emmercia em parceria com a artista e criadora de conteúdo Juvi Chagas, o contraste é a regra do jogo: uma letra visceral sobre limites mentais e sobrevivência empacotada em um videoclipe onde uma festa tomada por máscaras de pombo foge completamente do controle.
Nos bastidores dessa narrativa visual e sonora está Marina Izaac, baixista da Emmercia que assumiu pela primeira vez a direção criativa de um videoclipe. Em um papo exclusivo com o TMDQA!, Marina e Juvi compartilham os percalços de gravar sob o calor do látex, a busca por uma identidade autêntica dentro do rock contemporâneo e o papel da amizade como resgate nos momentos mais sombrios.
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A estreia nas câmeras e o caos como estética
Acostumada a dar sustentação às frequências graves no palco, Marina Izaac decidiu dar um passo ousado ao assumir a direção visual do projeto. Para a baixista, a migração exigiu transformar delírios criativos em ação prática:
“Foi a minha primeira experiência em colocar uma ideia no papel e realmente executá-la. Foi tipo o dia mais divertido da vida. Não foi um clipe básico, né? Foi uma ideia maluca, um sonho doido que surgiu da minha cabeça e eu falei: ‘Tá, a gente precisa de amigos, de uma casa legal e de cem cabeças de pombo. Vamos fazer acontecer!’”
O maior cuidado foi fugir da armadilha em que muitos músicos caem ao dirigir os próprios vídeos: o foco excessivo na performance da banda. Marina revela que a dinâmica do set e as limitações de tempo moldaram a narrativa do clipe:
“A ideia inicial era ter uma historinha com um pombo flertando, que terminaria em uma briga generalizada no momento do break pesado da música. Mas tínhamos tantas mini-situações divertidas para gravar, tipo a cena do beer pong, o solo da Juvi e os shots, que falamos: ‘Vamos largar a mão da história principal e só deixar cenas aleatórias’. Acho que isso ajudou a não deixar o vídeo focado na banda tocando. Tinha muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.”
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Encontro de forças e a defesa dos solos de guitarra
A chegada de Juvi Chagas à faixa trouxe um tempero nostálgico e urgente. Com raízes no metalcore e post-hardcore, a convidada viu na pesada instrumentação da Emmercia a oportunidade ideal para resgatar os vocais rasgados. Além disso, fez questão de deixar sua marca nas seis cordas e defender o retorno dos solos ao gênero:
“Quando surgiu o convite para gritar e tocar guitarra, eu aceitei na hora porque fazia tempo que não fazia. A música veio uma pedrada absurda! Fiquei até pensando se ainda conseguiria, mas acabei mandando bem nos berros – e eu amei ter feito um solão. Sou a favor dos solos de guitarra, eles precisam voltar urgentemente para o rock e ainda vão conquistar muita gente.”
A construção da parceria ocorreu com total liberdade no estúdio. Enquanto a base da faixa já estava bem desenhada pela Emmercia, Juvi encontrou brechas para criar linhas de voz limpa e explorar dinâmicas sem cobranças engessadas:
“A graça da música é essa espontaneidade. A gente sai fazendo várias coisas, testa solos na hora e o pessoal sugere: ‘Tenta isso, dropa aí, faz um negócio com a distorção louca que você tem’. Muita coisa nasceu ali, na hora, e a gente se divertiu muito gravando.”
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O choque entre a densidade e o absurdo
Um dos pontos mais fascinantes de “Por Pouco Eu Não Estava Aqui” reside na colisão entre o peso da mensagem e a estética visual nonsense. A letra toca em feridas profundas sobre saúde mental e exaustão, enquanto o clipe aposta no humor para fugir da estética sombria tradicional do metal. Para Juvi, essa dualidade é uma libertação necessária:
“O rock se levou muito a sério por muito tempo, principalmente a música pesada. Eu acho que tem espaço para as duas coisas acontecerem ao mesmo tempo. O contraste desse clipe com pombos e a letra com uma parada existencial forte é perfeito. A gente tá falando sobre assuntos super pesados e ao mesmo tempo quem assiste pensa: ‘O que está acontecendo diante dos meus olhos?’ Chega de clipe em galpão escuro.”
Marina complementa refletindo sobre o significado central que dá nome ao single:
“Por Pouco Eu Não Estava Aqui é uma frase muito forte. Fala muito sobre você superar aquele momento em que quase desistiu, em que ficou desmotivado. É sobre dizer: por pouco eu não estava aqui, mas eu estou.”
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Bastidores e as escolhas que marcam uma vida
O clima de gravação envolveu percalços e risadas. Diante do calor extremo que as pessoas enfrentavam dentro das máscaras de látex, Marina precisou assumir o microfone no set para animar a equipe durante as filmagens: “para a galera não desmaiar ou desanimar, eu gritava orientações tipo ‘Vai gente, último refrão!’ ou ‘Agora é putaria!’”, relembra aos risos.
Como manda a tradição do TMDQA!, encerramos o papo pedindo para que as artistas compartilhassem os trabalhos que moldaram suas trajetórias musicais:
Os 5 discos que mudaram a vida de Marina Izaac:
- Thirty Seconds to Mars – A Beautiful Lie (2005)
- Paramore –Brand New Eyes (2009)
- Fresno – Ciano (2006)
- Mac Miller – The Divine Feminine (2016)
- Radiohead – In Rainbows (2007)
Os 5 discos que mudaram a vida de Juvi Chagas:
- Ethel Cain – Preacher’s Daughter (2022): “Foi o último disco que realmente explodiu minha cabeça recentemente.”
- Pink Floyd – Wish You Were Here (1975): “É o meu disco com o meu irmão, que mora na Irlanda, então traz toda essa memória de afeto e distância.”
- Lupe de Lupe –Quarup (2014): “Um álbum extremamente difícil e desafiador de se escutar do começo ao fim.”
- Copeland – You Are My Sunshine (2008): “É simplesmente o disco da minha vida.”
- Angra – Temple of Shadows (2004): “Um disco clássico que me fez abrir a cabeça para a música pesada.”
Abaixo, vocês conferem o videoclipe dirigido por Marina Izaac. É definitivamente Pra Ficar de Olho!
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Eduardo Ferreira
Emmercia e Juvi Chagas falam sobre saúde mental, rock e fugas da mesmice




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