Emocionada, Stefanie fala ao TMDQA! sobre participação no WME: “uma celebração de toda essa resistência de anos”

Stefanie fala ao TMDQA! sobre participação no WME:
Crédito: @thalescortes

Refletir sobre a própria trajetória nem sempre é uma tarefa simples, ainda mais quando o percurso para alcançar uma sensação de vitória é construído enfrentando obstáculos que, por muito tempo, pareciam distantes de serem superados.

Com mais de duas décadas dedicadas ao rap, Stefanie acompanhou de perto as mudanças da cena, resistiu às dificuldades de se manter como mulher em um ambiente historicamente dominado por homens e nunca abandonou o sonho de viver da própria arte, apesar de ter pensado nessa possibilidade inúmeras vezes.

Em uma conversa franca com o TMDQA!, com direito a lágrimas nos olhos desde a sua primeira resposta, a talentosa artista, que ajudou a abrir portas fundamentais para as mulheres no rap nacional e é inspiração para muitas gerações, compartilhou como foi receber o convite para ser Madrinha da 10ª edição do WME, maior plataforma dedicada às mulheres da indústria musical no Brasil:

Ser madrinha é uma honra, mas também a gente sente o peso da responsabilidade de estar representando um movimento tão importante que é o WME. E tem uma frase no meu disco que eu uso muito, da Aza Njeri, que ela fala: ‘Se eu acender sóis como Aza Njeri já vou ser vitoriosa’. Eu acho que o meu papel é esse, assim como é o papel do WME – acender sóis, né? E é o que eu procuro sempre fazer quando alguma menina vem trocar uma ideia comigo, alguma mulher vem trocar uma ideia comigo. Sempre incentivar, incentivar profissionalmente falando, emocionalmente falando. E a gente sabe que não é fácil. O corre não é fácil.”

O convite especial do WME, que acontece entre os dias 18 e 21 de Junho em São Paulo, chega um ano após o lançamento de BUNMI, o primeiro disco de estúdio solo de Stefani, que trouxe à artista uma resposta muito positiva do público:

Saber que eu fiquei naquele processo de produção, escrevendo, refletindo, pensando, que era só meu, e depois isso foi para o mundo… Aí já virou do mundo. E chegou de uma maneira positiva, isso não tem preço. Eu acho que a arte tem esse poder. Assim como muitas obras, muitas músicas e muitas coisas já me curaram, saber que a minha música também foi cura para uma outra pessoa… não tem dinheiro que pague.”

Além de participar de um painel de perguntas e respostas durante a programação do evento, a rapper também será uma das atrações do encerramento da edição de 10 anos da conferência no domingo (21), gratuitamente na Praça Dom José Gaspar.

Ao comentar sobre a apresentação, que irá celebrar BUNMI e sua trajetória, Stefanie refletiu sobre o sentimento que carregará para o palco:

Eu gosto muito de estar no estúdio, eu gosto muito de escrever. Só que eu acho que, quando estou no palco, eu celebro todo esse corre que a gente faz. Então, para mim, me apresentar no WME vai ser uma celebração de toda essa resistência de anos. Minha, do WME. E eu espero que as pessoas também estejam nessa mesma vibração que eu estou, de celebrar todo o corre que a gente faz, todo o corre que a mulher faz.”

Leia a conversa com Stefanie na íntegra logo abaixo!

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TMDQA! Entrevista Stefanie

TMDQA!: Esse ano você foi escolhida como Madrinha da edição de 10 anos do WME. O que esse convite e essa homenagem representam para você?

Stefanie: [Lágrimas] Tem sentimentos que a gente não consegue nem descrever, né? Colocar em palavras. Em primeiro lugar, eu me sinto muito honrada pelo convite. É que a gente começa a pensar muito na nossa história, tudo que a gente já viveu, já passou e onde a gente conseguiu chegar, onde a gente está conseguindo chegar, unindo forças. O WME, pra mim, é um movimento de resistência, que faz a gente acreditar que é possível, unidas, todas juntas. Que é possível a gente fazer o nosso corre acontecer. Ser madrinha é uma honra, mas também a gente sente o peso da responsabilidade de estar representando um movimento tão importante que é o WME. E tem uma frase no meu disco, que eu uso da Aza Njeri, que ela fala: “Se eu acender sóis como Aza Njeri já vou ser vitoriosa”. Eu acho que o meu papel é esse, assim, como é o papel do WME, acender sóis, né? E é o que eu procuro sempre fazer quando alguma menina vem trocar uma ideia comigo, alguma mulher vem trocar uma ideia comigo. Sempre incentivar, incentivar profissionalmente falando, emocionalmente falando. E a gente sabe que não é fácil. O corre não é fácil. A gente paga um pedágio sendo mulher, né? A gente paga um pedágio ali da maternidade, a gente paga um pedágio do “ah, você já é muito velha pra fazer isso”. Então, sempre quando eu tô com essas mulheres, eu sempre procuro incentivar, que é o que o WME tá fazendo com tantas mulheres.

Então, eu me sinto muito honrada. Eu lembro que quando a Monique [Dardenne] entrou em contato comigo pra fazer o convite, eu fiquei muito feliz e eu fiquei surpresa também. E isso faz a gente lembrar da nossa história. Eu lembro dela falando no telefone. Ela falou assim: “Não tinha como eu não convidar, a gente convidar uma outra pessoa, porque quando teve a premiação em 2025, você foi a mulher mais citada no palco. Então, eu acho que tinha que ser você”. Aí a gente começa a lembrar de toda a nossa caminhada, tanta coisa que a gente passou, quantas vezes a gente já pensou em desistir. Eu lembro que quando eu era pequena, muito pequena, eu fiz uma pergunta pra mim mesma. Eu falei assim: “Meu, por que eu gosto de fazer coisas que só homens fazem?”. Eu me questionei, porque eu gostava de jogar futebol. Eu lembro que meu irmão era DJ e eu queria ser DJ, só que era só homens que tocavam. Aí depois eu comecei a escrever, fazer minhas letras, escrever minhas letras de rap. E, no finalzinho dos anos 90, o que a gente via era aquilo, eram os homens na linha de frente de tudo. E eu ficava me questionando. E, com o tempo, essas perguntas foram sendo respondidas. E, infelizmente, o que fizeram foi tirar esse sonho da gente. E eu penso também em quantas mulheres, de lá pra cá, que eu conheci, também desistiram, que infelizmente não conseguiram seguir adiante.

Eu tenho mais de 20 anos de caminhada cantando rap, tenho 42 anos. Não foi fácil chegar até aqui. Graças a Deus, o amor que pulsou no meu peito me trouxe até aqui, e pessoas também que sempre me estenderam as mãos. Então, o WME faz isso. E eu acho que, sendo madrinha, eu tenho que também seguir nessa missão, incentivando e mostrando que, independente dos obstáculos, quando estamos todas juntas ali, só nós sabemos quais são as nossas dificuldades.

TMDQA!: O WME está completando 10 anos de história e eu queria ouvir de você qual é a importância de iniciativas como essa para a construção de uma indústria musical mais diversa e para ampliar esse debate sobre a presença feminina não só nos palcos, mas nos bastidores e na gestão?

Stefanie: Uma vez eu escutei uma história que em 1983 mandaram uma astronauta [Sally Ride] para o espaço, e perguntaram para ela, porque ela ia ficar acho que seis ou sete dias lá, se 100 absorventes seriam suficientes. Então, é sobre isso, entendeu? Tem coisas que só a gente sabe. Quais são os cuidados, quais são as necessidades. A gente sabe qual é o acolhimento certo que a gente precisa receber e que a gente precisa dar. Então, isso fortalece. Eu converso com várias meninas. Inclusive, esses dias veio uma MC aqui de Curitiba, que vira e mexe, quando vem alguém pra cá, tem alguém que mora em outro estado e, de repente, não tem lugar pra ficar. “Não, pode vir aqui”. Então, a gente acaba fazendo muito essa troca. Para mim, é muito gratificante. A partir da minha história, eu consegui levar esse acolhimento, esse apoio.

TMDQA!: No painel do ano passado sobre “o peso pesado do rap feminino” você comentou que conseguir cuidar dos seus filhos através da sua arte era uma vitória. E a gente sabe que muitas artistas acabam deixando a música por falta de oportunidades ou estrutura para manter uma carreira. O que te deu forças para permanecer no rap e nessa carreira musical durante todos esses anos?

Stefanie: Eu vou falar pra você que chega a ser até algo espiritual, sabe? Missão de vida. Porque várias vezes eu já tentei seguir outro caminho. Porque sempre foi um sonho pra mim. Porém, quando eu comecei, era um sonho distante. Eu achava que eu não ia conseguir me sustentar com a minha arte. Então, eu acredito que é o amor. Tem coisas que vão sempre pulsar no nosso coração. Inclusive, na primeira faixa do meu álbum, eu falo: “Fugir não adianta. Não adianta fugir”. Porque os seus sonhos vão te perseguir. E você vai sentir aquele buraco no seu peito, aquele vazio. Então, a gente precisa encarar de frente. E eu acho que é o amor. E, com certeza, pessoas me apoiando, segurando a minha mão e falando: “Não, você tem que fazer”. Eu acho que isso foi fundamental pra eu conseguir chegar até aqui.

TMDQA!: Com certeza, uma rede que faça diferença.

Stefanie: Uma rede de apoio, de pessoas que acreditam. Porque não adianta alguém jogar um balde de água fria, porque balde de água fria a gente sempre recebeu, principalmente sendo mulher e cantando rap. Mas, graças a Deus, eu também tive pessoas que seguraram minha mão e me puxaram.

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TMDQA!: Falando sobre a cena atual do rap feminino a gente tem visto nesses últimos anos, muitas artistas talentosas lançando obras de destaque, sendo convocadas para os festivais, mas a gente sabe que ainda não tem um equilíbrio com a presença dos homens. Quais barreiras você acredita que ainda precisam ser quebradas para que as mulheres ocupem mais espaços dentro da indústria?

Stefanie: Hoje em dia, a gente tem a quantidade, porém a gente não tem a qualidade. A qualidade que eu digo no respaldo financeiro, de conseguir construir uma estrutura digna para a gente ter uma equipe. Eu acho que essa estrutura financeira, para a gente conseguir bancar, pagar essa equipe que trabalha com a gente. Porque o artista precisa estar na linha de frente, sendo criativo. E, quando a gente tem esses braços, tudo funciona de uma maneira diferente. Graças a Deus, hoje eu consigo ter essa estrutura. Mas eu já passei por um momento em que eu não tinha. Era só eu e eu tentando resolver as coisas, tendo que ter mil braços e, muitas vezes, também não entendendo o que eu tinha que fazer. Os line-ups, a gente vê um número tão pequeno de mulheres que se apresentam também. Tem uma pesquisa que… Também eu não vou lembrar o nome agora, mas tem uma pesquisa que aponta que existem mais de 10 mil mulheres que são artistas de rap e cantam rap. Se a gente for pegar essa lista de 10 mil mulheres e comparar com o que a gente consegue ver, é pouquíssimo. É muito pouco.

Muita coisa linda está acontecendo. Muita coisa linda mesmo. Mas eu acredito que a gente ainda precisa quebrar essas barreiras, com mulheres atuando ali na produção, para a gente conseguir criar mais espaço para nós. O meu sonho é um dia ter um festival só de mulheres. Só de mulheres da música. Porque ainda é muito escasso. Então, a gente precisa trabalhar muito. Mas eu acredito muito. Vendo de lá, de 20 anos atrás, quanta coisa bonita aconteceu e quanta coisa bonita ainda está para acontecer. Vou dar um exemplo. Eu tenho a minha filha. Ela tem uma veia bem artística. Não sei se ela quer ser artista um dia, se ela vai ser artista. Mas, para outras meninas também, eu acho que é isso. Esse terreno está sendo preparado com mulheres super talentosas e competentes, para que, no futuro… a gente esteja aqui, sendo exemplo, inspiração para essas mulheres chegarem e já terem esse terreno preparado, já saberem o que está acontecendo, entendendo de tudo. Para, cada vez mais, a gente conseguir ter uma indústria, um mercado com igualdade.

Um tempo atrás, eu participei de um camping só com mulheres e quando eu me encontro nesses lugares assim eu fico tão emocionada. Mulheres na produção ali, organizando tudo o que tinha que acontecer, as meninas produzindo as batidas, as músicas, as compositoras no estúdio escrevendo, gravando e fazendo acontecer, eu fiquei assim: “Meu Deus do céu, olha que coisa louca, olha quanta coisa”. Não tem como eu não lembrar do passado. Então, isso faz eu acreditar que tem muita coisa para acontecer.

TMDQA!: Eu vou até resgatar algo que você também falou no debate ano passado enquanto você falava sobre as mensagens que as mulheres apresentam em suas letras, você falou uma frase muito forte, apontando que o futuro do rap feminino vai ser muito potente. O que te faz acreditar nisso hoje e o que te deixa mais otimista com a cena atual?

Stefanie: Acho que a mulher tem um dom, que é o de pensar nos detalhes. Então, eu acho que os detalhes fazem algo simples se tornar grandioso, bonito. Quando a gente cuida da nossa casa, a casa pode ser simples. De repente, a gente coloca um quadro, uma almofada, uma flor na mesa. Então, são esses detalhes que fazem… Eu consigo enxergar um futuro grandioso porque, com certeza, nós mulheres sempre vamos pensar em coisas que vão agregar para tornar a arte, o espetáculo, mais bonito e mais atrativo.

Acho que, nesse mundo em que a gente está recebendo tanta informação, que muitas vezes acaba até drenando um pouco a nossa energia, mas se a gente for buscar, eu acho que hoje a gente vive num momento em que também existe a informação para a gente acessar. A gente tem acesso à informação. No passado isso não existia. Hoje isso existe. Então, isso vai agregar cada vez mais para potencializar o nosso trabalho.

TMDQA!: E “BUNMI” completou um ano de lançamento em Abril, o nome BUNMI significa “meu presente” em iorubá. Um ano depois, qual foi o maior presente que esse disco te trouxe?

Stefanie: Eu acho que é o que eu falei lá no começo, “Se eu acender sóis como Aza Njeri, já vou ser vitoriosa”. Com certeza, foi a resposta do público, falando que “‘BUNMI’ não saiu do meu fone”. Esses dias mesmo eu estava com um amigo e ele apresentou o disco para a sobrinha dele, que estava se curando de um câncer. Ele falou assim: “Eu preciso colocar um disco aqui para você escutar”. E ela escutou, se emocionou, chorou e falou para ele: “Esse disco falou muito comigo”. Então, para mim, é muito gratificante. É algo que não tem preço. Saber que eu fiquei naquele processo de produção, escrevendo, refletindo, pensando, que era só meu, e depois isso foi para o mundo. Aí já virou do mundo. E que chegou de uma maneira positiva. Isso não tem preço. Eu acho que a arte tem esse poder. Assim como muitas obras, muitas músicas e muitas coisas já me curaram, saber que a minha música também foi cura para uma outra pessoa não tem dinheiro que pague.

TMDQA!: Você vai ser uma das atrações de encerramento do WME, e ao revisitar esse disco agora no palco desse evento que tem um papel muito importante, o que muda emocionalmente?

Stefanie: Eu vou estar com as minhas. Eu acho que vai ser diferente nesse sentido. Eu acredito que, para mim, cada show que eu venho fazendo eu sinto uma emoção diferente. Em cada lugar eu sinto um sentimento. Eu acho que, nessa posição em que eu me encontro, de ser madrinha e estar levando a minha mensagem para esse público, para todas essas mulheres, vai ser… Vou ser bem sincera, eu não tenho palavras aqui para dizer como vai ser. Eu só sei que vai ser lindo. Vai ser incrível. O palco, para mim… Eu gosto muito de estar no estúdio, eu gosto muito de escrever. Só que eu acho que, quando estou no palco, eu celebro todo esse corre que a gente faz. Então, para mim, me apresentar no WME vai ser uma celebração de toda essa resistência de anos. Minha, do WME. E eu espero que as pessoas também estejam nessa mesma vibração que eu estou, de celebrar todo o corre que a gente faz, todo o corre que a mulher faz.

TMDQA!: Com certeza! Estou ansiosa por esse show.

Stefanie: Ah, eu também!

TMDQA!: Pra gente encerrar, eu quero saber o que a Stefanie que vai subir no palco do WME, como madrinha do evento, diria para a Stefanie de 2004, que estava começando sua carreira na música?

Stefanie: [Lágrimas e silêncio] Ai, desculpa. Ainda bem que você não desistiu. Independente de tantos obstáculos, ainda bem que você não desistiu. Acho que é isso.

TMDQA!: Com certeza. Parabéns por essa carreira linda. Estou muito ansiosa. Vamos nos encontrar lá no WME.

Stefanie: Ai, vamos. Vai ser lindo. Desculpa o chororô, mas é que, para mim, é uma honra mesmo. São vitórias que a gente vai conquistando no decorrer e isso mostra para a gente, até hoje, que a gente está no caminho certo.

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Lara Teixeira

Emocionada, Stefanie fala ao TMDQA! sobre participação no WME: “uma celebração de toda essa resistência de anos”


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