Entre checkpoints e novos começos, Kamau refina sua busca no EP “4F”

Kamau

No último dia 8 abril de 2026, aniversário deste colunista, o rapper paulistano Kamau apresenta 4F, um projeto que transpõe para a música a vivência de um endereço específico em Bed-Stuy, no Brooklyn. O EP é o resultado de uma imersão do artista no apartamento que dá nome ao trabalho, onde a rotina de convivência com os produtores Zander Zel e Late 4 Dinner deu ritmo às composições.

Aos 50 anos, Kamau descreve esse impulso criativo como uma constante vital, algo que o move para além de planejamentos de carreira. “É a busca. Ninguém precisa do que eu faço, mas eu preciso fazer. Sinto essa vontade sempre. Não é racional, é tipo fome ou sede”, define o artista em entrevista exclusiva.

O ponto de partida do EP foi a própria estrutura do lugar onde se hospedou em Nova Iorque. Kamau conta que a inspiração surgiu logo no segundo dia da viagem, transformando o cotidiano do imóvel em conceito.

“O apartamento 4F se traduz pelo 4F e 4R, apartamento de frente e de trás. O F era de ‘front’, e pode ser quando você está à frente de algo. Forefront, 4 family, 4 foreigner — por eu ser estrangeiro —, 4 friends… mas não tem exatamente quatro palavras com F, de fato”, explica. Essa posição de vanguarda e de abertura para o novo guiou a colaboração com quem habitava o espaço, transformando o ambiente em um laboratório criativo.

O “intercâmbio” criativo

A sonoridade de 4F carrega a marca de um intercâmbio técnico fluido. Ao colaborar com produtores de diferentes vertentes, como Zander Zel — que transita pela música eletrônica —, Kamau se permitiu ser desafiado por beats que fugiam de sua cadência habitual.

O MC paulista descreve esse processo como uma forma de manter a renovação técnica sem perder a essência de sua identidade. “O meu controle é trazer essa peça para o meu mundo e tentar fazer o melhor que eu posso ali. Eu não perco o controle, mas abro mão um pouco para adaptar aquela peça no que eu faço”, analisa.

Essa abertura estética possibilitou que Kamau explorasse novos flows e incorporasse referências inusitadas ao seu texto. Um dos refrões do disco, por exemplo, nasceu de uma reflexão captada em uma entrevista casual.

“Eu estava ouvindo o Whindersson Nunes no podcast Mano a Mano e ele disse que ‘o mundo gira e a gente nem percebe’. Foi daí que veio a inspiração; eu não tinha o refrão e ele veio desse momento”, recorda. Para ele, a construção do disco é um reflexo direto de seu aprendizado atual, onde as vivências imediatas ditam a forma do que precisa ser dito.

Checkpoints

A longevidade de Kamau no rap nacional é frequentemente associada à consistência de sua discografia, marcada pelo peso histórico de álbuns como Non Ducor Duco (2008). No entanto, o artista encara sua trajetória a partir de uma filosofia de continuidade, evitando o aprisionamento em sucessos passados. “Sucesso é a caminhada e não a linha de chegada. Eu lido mais com checkpoints do que com uma linha de chegada definitiva. Cheguei nesse lugar, o jogo continua. Se tiver que voltar, eu volto desse lugar, não volto do começo”, afirma.

Essa maturidade permite que ele olhe para o passado com gratidão, mas com o distanciamento necessário para seguir evoluindo. Kamau relembra as dificuldades da era Non Ducor Duco como um combustível para valorizar a estabilidade e o conhecimento conquistados hoje.

“Cada trampo que lancei depois, eu estou pedindo esse resgate para não ser refém, para ser liberto. Não posso ficar preso no Kamau de 30 anos, eu tenho 50. Se eu ainda estiver lá, eu perdi esse tempo de lá até aqui”, reflete. Essa busca por “sequência sim, sequela nunca” é o que mantém sua caneta afiada para dialogar com diferentes gerações.

Legado de Kamau

A influência de Kamau sobre a cena contemporânea ultrapassa a técnica. É uma questão de DNA. Artistas de novas gerações frequentemente revisitam a obra do rapper para resgatar a essência do “lado MC”, um movimento que ele observa com consciência sobre o próprio rastro.

“Eu percebo isso e aumenta um pouco a responsabilidade. É aquele louco que não pode errar, que o Mano Brown fala. Não quero ser referência de uma coisa ruim”, pondera. Para ele, ocupar esse lugar de fundamento exige uma honestidade rigorosa com a própria arte, mantendo a independência que sustenta sua carreira desde o início.

Nesse cenário de respeito ao que foi construído, o aguardado álbum Mosaico surge como o próximo horizonte de uma construção que não aceita pressa. O projeto, desenvolvido desde 2018, é alimentado por cada pequena descoberta e por cada checkpoint como o 4F.

No estúdio Ateliê, em São Paulo, o trabalho de lapidação é diário e introspectivo. “Tô trabalhando no Mosaico desde que entrei no estúdio. Eu e meus ‘eus interiores’ estamos trabalhando unidos em reunião todo dia”, revela Kamau. Entre o asfalto do Brooklyn e as esquinas da capital paulista, o rapper reafirma que sua maior obra é a própria permanência. Uma caminhada onde o próximo passo é sempre o mais importante.

O post Entre checkpoints e novos começos, Kamau refina sua busca no EP “4F” apareceu primeiro em TMDQA!.

Felipe Mascari

Entre checkpoints e novos começos, Kamau refina sua busca no EP “4F”


Translate »