Entrevista: Izzy Gordon fala sobre seu novo álbum de samba em homenagem a Jorge Aragão

Entre o Jazz que a projetou e o Samba que a atravessa, Izzy Gordon acaba de lançar o álbum Semente da Tamarineira, um mergulho na obra de Jorge Aragão em todas as dimensões: artística, espiritual, afetiva e política.
Primeiro capítulo de uma trilogia dedicada aos compositores do Cacique de Ramos, o disco costura repertório clássico, novas texturas e uma forte conexão com a ancestralidade para reafirmar o samba como linguagem viva e em permanente transformação.
Reconhecida como uma das grandes intérpretes de sua geração, Izzy construiu sua trajetória a partir do Jazz, sem nunca se limitar a ele. Ao longo dos anos, consolidou uma assinatura marcada pela versatilidade e pela centralidade da interpretação como ferramenta narrativa. Uma cantora que, antes de tudo, se dedica a contar histórias. Essa abordagem encontra no cancioneiro de Jorge Aragão um terreno fértil, permitindo que a artista explore novas camadas de sentido sem abrir mão da essência que a define.
Na entrevista a seguir, Izzy reflete sobre inquietação artística, espiritualidade como motor criativo, escolhas de repertório e os bastidores de um disco guiado por intuição e propósito. A cantora também comenta as participações especiais, o papel das mulheres na história do samba e os caminhos que pretende seguir na trilogia. Uma conversa que amplia o entendimento sobre o projeto e convida à escuta atenta.
TMDQA! entrevista: Izzy Gordon
TMDQA!: Você ficou conhecida como uma grande intérprete de jazz. O que esse novo mergulho no universo do samba do Jorge Aragão revela sobre a Izzy de hoje?
Izzy Gordon: Sou intérprete, aprendi a cantar ouvindo todas as mulheres incríveis do mundo, desde Ella Fitzgerald até Dona Ivone. Então, cantar Jorge Aragão revela a pessoa inquieta, que quer aprender, que não se satisfaz vivendo num lugar só que eu sou. Eu canto como quem canta histórias, e o repertório do Jorge me ajuda com essa faceta.
TMDQA!: Semente da Tamarineira vai além de um tributo e entra num campo quase espiritual. Em que momento você percebeu que esse projeto tinha essa dimensão?
Izzy: Eu só faço aquilo que sinto como um chamado. A história do Cacique de Ramos, a Tamarineira [árvore sob a qual Bira, membro fundador do Fundo de Quintal, compôs a canção que batiza o projeto], têm essa força espiritual, e a minha vida só faz sentido se eu conseguir colocar a espiritualidade no que faço. Esse projeto tem uma força ancestral, e preciso honrar essa ancestralidade.
TMDQA!: A escolha do repertório foi colaborativa. Teve alguma música do Aragão que você fez questão absoluta de incluir?
Izzy: Minta meu sonho faz parte da minha história com meu companheiro. A gente a ouvia muito na voz do Zeca Pagodinho, que é um dos autores. Mutirão de Amor também não poderia ficar de fora. Foi ela que me ajudou a decidir gravar Jorge Aragão, pois eu estava em dúvida e a ouvi em um centro espírita.
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TMDQA!: Como foi o processo de equilibrar respeito à tradição com a vontade de propor novos arranjos e texturas?
Izzy: A riqueza do samba é gigante, então manter os elementos seria fundamental, mas era importante trazer pro meu universo sem perder a essência.
TMDQA!: O projeto nasce muito conectado à religiosidade e à ancestralidade. Como isso se traduziu na prática dentro do estúdio?
Izzy: Na hora que entramos no estúdio para conhecê-lo, a gente sentiu a energia, sabia que seria lá . Fomos guiados o tempo todo. Era perceptível a influência ancestra. Era como se tivéssemos sendo abençoados e autorizados a fazer esse álbum.
TMDQA!: Você reúne participações como Bia Ferreira, Ellen Oléria e Carica. O que guiou essas escolhas e o que cada uma dessas vozes trouxe para o disco? E como foi a interação com cada uma delas?
Izzy: Sou fã da Ellen, já fizemos alguns shows juntas, então ela não poderia ficar de fora. Ellen me apresentou a Bia, e imediatamente nos conectamos. Fizemos um show juntas e pensei nela pra Malandro, que foi gravado pela Elza Soares, ou seja, ninguém melhor que ela pra essa homenagem. O Carica foi a ancestralidade que trouxe, pois precisávamos de alguém pra gravar banjo e ele surgiu lindamente no projeto.
TMDQA! A trilogia vai passar também por Arlindo Cruz e Luiz Carlos da Vila. Por que era importante começar justamente por Jorge Aragão?
Izzy: O Jorge saiu do [grupo] Fundo de Quintal e levou para seu lugar o Arlindo Cruz. A gente tinha dúvida em com quem começar, mas a espiritualidade nos mostrou o caminho ao me fazer ouvir Mutirão de Amor em um centro [espírita] .A trilogia com certeza vai virar uma série .
TMDQA! Existe também uma dimensão política no projeto, especialmente no que diz respeito à representatividade. Como isso atravessa suas decisões artísticas?
Izzy: Tudo que faço precisa dessa dimensão política e espiritual. Política porque precisamos exaltar as mulheres, pois foi a Elza Soares quem colocou o Jorge no mercado. Dona Ivone Lara levou o Fundo para uma turnê no Japão antes de todo mundo e Beth Carvalho simplesmente levou todos eles ao estrelato que eles tem hoje, ou seja: sem as mulheres, nada teria acontecido.
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Stephanie Hahne
Entrevista: Izzy Gordon fala sobre seu novo álbum de samba em homenagem a Jorge Aragão




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