“EQUILIBRIVM” x “(des)EQUILIBRIVM”: um confronto entre fãs em aderir ao ‘novo’ que vai muito além da fase de Anitta

Enquanto Anitta avança com a era “EQUILIBRIVM” e lança a parte dois do álbum já na próxima quinta-feira (23), um movimento que vai na contramão é visto nas redes sociais… Vários fãs da cantora têm usado trechos de performances antigas dela e referenciado sobretudo a era “Funk Generation” (2024) para colocar pra fora um desejo em comum: querer desesperadamente que a Anitta ‘desequilibrada’ volte a dar as caras

Já tem uns anos que a cantora vem buscando pisar no freio e, como ela mesma canta na música “Deus Existe”, ter mais qualidade de vida para além do lado profissional. Lançado em abril, o “EQUILIBRIVM” é o projeto mais ‘Larissa’ da carreira de Anitta, que reforça sua veia artística e que se concentra em abordar questões correlatas à religião, principalmente a dela, o candomblé. Por essa junção de fatores, é o projeto mais diferente de sua discografia e, logo, é natural que nem todos os fãs abracem.

Um confronto que se evidencia na maneira como o público recebe e adere (ou não) a essa fase da carreira da artista vai muito além do álbum que inclui faixas-destaque como “Meia Noite” e “Desgraça”. Vai muito além, até mesmo, da própria Anitta. É uma dualidade que envolve maturidade para se abrir ao ‘novo’, uma certa obsessão por desempenho nos charts e números e, sobretudo, a experiência individual que cada pessoa tem com música. Nesse contexto, o POPline ouviu o público da cantora para entender melhor essa ânsia por uma retomada da Anitta ‘desequilibrada’

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Foto: Mar+Vin

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Uma Anitta desbocada, debochada, sem papas na língua, ‘inimiga do fim’, que gera entretenimento e, sobretudo, a Anitta do funk são as principais carências de uma parcela da base de fãs que fomentam essa movimentação nas redes.

Aos olhos de vários desses fãs, a era “Funk Generation” foi o auge da carreira da cantora, em que ela conseguiu entregar um álbum coeso e todo ‘redondinho’ dentro do gênero em que ela se fez e que conseguiu, em grande parte por seus esforços, colocar no mapa mundial. Já consolidada internacionalmente como uma funkstar, Anitta chegou a ser indicada ao Grammy Awards pelo compilado.

“Anitta veio ‘grandona’ com ‘Funk Generation’, só deixou a desejar um show da tour [no Brasil, que não teve] e logo após chegou com algo bem diferente de tudo que já tinha feito, apesar de ter incluso um ‘funk’ na música ‘Meia Noite’. Mas, na minha concepção, não só os fãs, mas uma galera bem grande amou o álbum, principalmente pelo fato da Anitta falar sobre sua religião, que é bem discriminada. Vi um receio de pessoas próximas a mim e que são fãs há anos. Pessoas que não curtem o álbum e torcem bastante para ser somente uma fase da cantora, mas têm medo de que esse estilo que se apresenta agora seja uma constante em seus futuros trabalhos”, opinou o fã Jayme Oliveira, que se diz “apegado” ao pop funk da cantora, à ousadia nas roupas e ao jeito irônico de se expressar e que defende que, quando ela se joga de cabeça no funk, “não tem pra ninguém”.

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Foto: Twitter/@Anitta

Fã da cantora que morava no Recife e que, agora, ao se mudar para o Rio, consegue acompanhar o trabalho da ‘ídola’ mais de perto, Thairine confessa estar “morrendo de saudade” da era funk que trouxe faixas como “Funk Rave”, “Savage Funk” e “Mil Veces”.

Ela conta que não é como se desgostasse do que está vendo em “EQUILIBRIVM”, mas carrega a sensação de que “parece que está faltando algo”. “E OLD que prefiro a Anitta bocuda e debochada né, ela ‘DESEQUILIBRADA’ gerava muito mais entretenimento, lamento”, completa Thai.

Parte do público faz a leitura de que Anitta está vivendo seu melhor momento artístico

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Foto: Divulgação

Apesar de ter construído sua identidade em cima do estilo do pop funk e de ter sido um dos principais braços na exportação do funk brasileiro para o mundo, Anitta sempre se mostrou uma artista versátil. Já o que a cantora nem sempre conseguiu fazer foi entregar um projeto que contasse uma história bem amarrada, que fosse transmitida não só através da música, mas também de uma narrativa visual que se conectasse de forma mais fluida.

Com o “EQUILIBRIVM”, de longe seu projeto mais pessoal, a artista se apropriou de uma virada de chave na maneira como mentaliza e conduz a própria vida, e transformou isso em arte. Com conceito, qualidade sonora, visuais e até turnê própria para a era. Aqui, Anitta superou a fase do “Tendi. Faz um”. Ela realmente arregaçou as mangas, foi lá e fez! E os fãs, mesmo aqueles que não tenham se identificado tanto com a sonoridade desse último álbum, compreendem esse movimento crucial na carreira da cantora.

“Eu vejo a era ‘EQUILIBRIVM’ como um ponto firmador da Anitta como artista. Acredito que além dela fazer algo que ela sempre quis, sempre sonhou, ela finalmente se colocou como dona da sua própria arte e isso refletiu no sucesso de críticas e afins. Sinceramente, adoro essa versão ‘equilibrada’, deixa claro que hoje ela não é feita somente de polêmicas e factoides”, refletiu o fã manauara Wesley Paiva, que acompanha assiduamente a cantora desde que ela ‘bombou’ a nível nacional com o hit “Show das Poderosas”.

O problema da não aderência à era pode esbarrar na religião?

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Foto: Mar+Vin

Anitta se mostrou disposta a abordar de forma mais aberta sua religião ainda na era “Funk Generation”, quando entregou um clipe sensível para a faixa “Aceita” que exibia suas vivências em um terreiro de candomblé. O vídeo, inclusive, fez com que a cantora perdesse um montante significativo de seguidores à época.

Foi no “EQUILIBRIVM”, porém, que ela fez da fé e da espiritualidade pontos norteadores de toda a história narrada. Os fãs entendem que isso pode gerar resistência entre parte do público.

“Eu acho que a Anitta sabia que esse projeto é MUITO específico, só quem é realmente muito apaixonado por ela ou está vibrando nessa mesma harmonia, ou tem as mesmas crenças vai abraçar. É difícil demais porque o Brasil é um país em que 56% das pessoas é católica, 26,9% das pessoas é evangélica e apenas 1,05% assume frequentar religiões de matriz africana, então estamos falando de uma minoria MUITO pequena na qual eu felizmente me enquadro, pra mim é a realização de um sonho encontrar no trabalho dela elementos que representam a minha fé. Mas entendo também quem não se identifica. Só acho que o propósito dela é maior que isso, acho que ela quer realmente derrubar as barreiras do preconceito e mostrar pras pessoas que a nossa fé é muito diferente do que querem que acreditem que somos”, pontua Rafael Godoi, fã que é conhecido por estar em todos os shows que a cantora faz e, a cada vez, entregar registros audiovisuais com qualidade de cinema pelos vídeos que grava das performances.

A própria Anitta, em entrevistas antigas, disse algumas vezes que tinha a noção de que o “EQUILIBRIVM” era um projeto que não iria agradar todo mundo. Reconhecendo ser o mais diferente de sua carreira, ela se demonstrou em paz com uma premeditada recepção mista do público e disse que, aos que não gostassem, era só aguardar o próximo álbum. O POPline procurou a cantora para comentar os pedidos dos fãs pela retomada de sua era ‘(des)EQUILIBRIVM’, mas não obteve resposta.

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Saudades da essência da cantora e do funk, ou dos números nos charts?

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Foto: Twitter/@Anitta

Com atuais 37,6 milhões de ouvintes mensais no Spotify, Anitta segue como a brasileira mais ouvida do Spotify no mundo, no entanto, é fato que nos últimos anos o nome dela perdeu a força nas paradas das mais tocadas do Brasil. A cantora, inclusive, já disse que, para ela, isso era reflexo também de ela apostar em diferentes mercados ao mesmo tempo, não só focando no brasileiro.

Embora 3 entre suas 10 músicas mais populares na plataforma atualmente sejam extraídas do “EQUILIBRIVM”, o álbum também não teve um desempenho tão expressivo nos charts. Novamente, é uma coisa que a artista já disse que era mesmo o que esperava, com a ciência de que não era um trabalho que agradaria todo mundo. Aos olhos da maioria de sua base de fãs, porém, ela está realizada e confortável em estar priorizando sua arte ao passo em que se preocupa cada vez menos com charts.

“Uma grande parte do fandom anitter cresceu em volta de grandes feitos e muitos números, independente de qualidade. ‘EQUILIBRIVM’ traz a qualidade que tanto pediam, trouxe a aclamação, mas não trouxe números astronômicos. Os fãs que ‘permaneceram’ apoiando o projeto são os que realmente entenderam a proposta, o enredo e, principalmente, a história que a Anitta queria contar. Esse contraste é perceptível nas discussões no X, fóruns, grupos de fãs. A galera sente falta dos números expressivos e é isso que grande parte quer de volta”, analisa Wesley.

Rafael concorda e relembra a tão temida aposentadoria da cantora, alegando que os fãs, apesar de reclamarem, estão todos no lucro já que ela segue em plena atividade: “Eu não acho que esteja nas mãos dos fãs decidir o rumo da carreira de uma artista e, sinceramente, me alegro que a Anitta esteja colocando tanta autenticidade na sua arte e que isso pese mais pra ela que a necessidade de alcançar números. Entendo que os fãs tenham se acostumado com o jeito dela, mas eu estou feliz que ela esteja procurando um propósito. Se pararmos pra pensar, ela havia prometido largar tudo aos trinta, estamos passando faz tempo a prorrogação. Ninguém pode reclamar de nada, sabe?”.

Às vezes, o interesse de um ouvinte é muito maior pelo que a música evoca a sua própria história do que pelo trabalho do artista em si

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Foto: Mar+Vin

À essa altura, é mais que redundante dizer que Anitta é dona de uma legião de fãs, concentrados no Brasil, mas também mundo afora. Fãs que, em sua maioria, apoiam e consomem muito todos os seus trabalhos, vivem intensamente cada era e que, em muitos casos, a acompanham sem soltar sua mão desde “Show das Poderosas” (ou até antes disso).

Mas fato é que, assim como cada um tem sua maneira própria de ser fã, o mesmo vale para a experiência e o significado que cada ouvinte dá a uma música: é algo um tanto particular.

Independente de ser muito fã ou não de um artista, tem gente que simplesmente o deixa ali, um pouco mais quietinho, quando não há uma identificação tão grande com um novo álbum, uma nova era. Aquele interesse que costumava ser mais latente e expansivo se torna algo mais contido. E isso pode ir muito além de simplesmente não curtir o som, ir além de “não curto MPB” ou “não ouço reggae”.

Por vezes, o ouvinte tem acesso à obra de um artista e, de forma instantânea, aquela música ou até mesmo aquele álbum como um todo se conecta diretamente a algo que a pessoa esteja vivendo em sua própria história, a uma memória, ao início de um relacionamento, ou, quem sabe, a um término. Como se aquilo virasse a própria trilha daquela fase da vida da pessoa, como se aquela música se transformasse em uma extensão de sua própria narrativa. Às vezes rola até um sentimento de “Caramba! Daria tudo pra EU ter escrito essa música! Como que não foi?!”.

Já uma vez em que a pessoa vá consumir um novo trabalho e aquilo não lhe despertar nenhuma associação a algo de sua própria vida, pode acontecer de o ouvinte acabar “abrindo mão” do vínculo forte com o artista, mesmo que momentaneamente. É que, às vezes, o interesse diz mais sobre os sentimentos evocados no ouvinte do que as diretrizes que o artista decidiu dar a sua carreira.

“Algo interessante a se comentar sobre a relação artista-fã é que o artista aterrissa no universo da pessoa. Isso faz com que o fã dê os seus significados para quem ouve e isso afeta as expectativas que sente sobre quem produz as obras que consome. Por muitas vezes, no momento em que certo cantor ou cantora chega aos ouvidos de um ouvinte, esta pessoa pode tender a nichar o que escuta e esperar trabalhos sempre semelhantes ou que os façam reviver sentimentos de nostalgia. Talvez essa seja a razão pelas quais muitas baladas e DJs não abrem mão de tocar uma mesma música mesmo após anos de lançamento. Porque sabem que vão tocar nesse apego dos fãs”, analisa o psicólogo especialista em sexualidade, gênero e DH Cássio Péres que, nas redes sociais, costuma fazer análises de assuntos quentes de cultura pop sob o ponto de vista psicológico.

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Foto: Instagram/@psicassioperes

Ele complementa, fazendo uma ode à conscientização não só para fandoms de artistas, mas para fãs de música como um todo: “Para artistas que andam de mãos dadas com a expectativa da maioria dos fãs, pode ser uma faca de dois gumes porque da mesma forma que cantores podem encontrar algum tipo de fórmula para agradar a grande maioria dos seus ouvintes, também podem se tornar reféns de seu público e acabar se limitando artisticamente. Por isso considero importante que haja um trabalho da mídia e da comunidade musical de conscientização para que estejamos abertos ao novo e permitamos que nossos cantores preferidos tenham a chance de explorar novas direções. Passos como esses revelam e produzem trabalhos mais autênticos porque refletem a expressão genuína dos sentimentos da equipe por trás de uma obra”.

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Foto: Twitter/@Anitta

A convite do POPline, Cássio analisou especificamente o caso da nova era de Anitta e a recepção mista por parte do público: “Anitta certamente sabia que seguir um rumo diferente seria um risco e ainda assim optou por seguir. Isso nos rendeu um trabalho rico e bem diverso das direções que tomou anteriormente. O essencial para nós, fãs e ouvintes, seria aprendermos a lidar com nossas expectativas e entendermos que não possuímos nossos ídolos e devemos estar preparados para entender que a liberdade é um fator fundamental para que tantos cantores se sintam bem fazendo o que fazem. Nem tudo irá ressoar em nós da mesma maneira. A frustração também é um exercício necessário para que não transformemos uma insatisfação nossa em ataque à arte de quem se esforçou para gerá-la. O novo também pode trazer experiências inéditas e permanecer somente no conhecido também é uma maneira de limitarmos nossas experiências com a música. Estejamos mais abertos a possíveis surpresas que têm tudo para ampliar a nossa percepção de mundo”.

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Matheus de Carvalho

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