Gipsy Kings volta ao Brasil com clássicos, novo álbum e a história do som que conquistou o mundo

Liderado pelo seu fundador, Tonino Baliardo, Gipsy Kings se apresenta em única data em São Paulo
Foto: Giupera/divulgação

Você provavelmente reconhece “Djobi Djoba” antes mesmo de lembrar o nome Gipsy Kings. Liderada pelo fundador e violonista Tonino Baliardo, a formação apresenta a turnê do novo álbum Historia em um show único em São Paulo no dia 26 de julho, domingo, no Espaço Unimed. O repertório reúne faixas recentes e sucessos como “Bamboleo”, “Djobi Djoba”, “Volare”, “Hotel California” e “A Mi Manera”.

Para parte do público mais jovem, essas canções são familiares, embora a história por trás delas nem sempre seja conhecida. O grupo surgiu do encontro entre os Reyes e os Baliardo, famílias ciganas radicadas no sul da França e ligadas às tradições espanhola e catalã. A música já fazia parte da vida familiar muito antes dos grandes palcos.

Antes da apresentação, o TMDQA! conversou com um dos guardiões das musicalidade da família, Tonino Baliardo, sobre o início do grupo, a música aprendida dentro de casa, a relação com o Brasil e o álbum recém lançado.

Antes dos sucessos, duas famílias

Na origem estavam os Reyes e os Baliardo. Antes da fama mundial, os irmãos Reyes tocavam com o pai, José Reyes. Mais tarde, integrantes da família Baliardo se juntaram ao núcleo que daria forma ao grupo, como explica Tonino ao TMDQA!

“Antes do Gipsy Kings, havia os Reyes, que eram irmãos, e nós, os Baliardo. Os irmãos Reyes tocavam com o pai deles, José Reyes. Depois, nós nos reunimos”.

A formação musical acontecia dentro de casa e a técnica passava dos mais velhos para os mais novos, como ainda acontece.

“É a família. É tradição. A gente fazia flamenco, música cigana, desde muito pequeno. Eu era muito pequeno, e toda a família tinha música dentro de casa.”

Como nas famílias do samba, em que um cavaquinho, um pandeiro ou uma melodia atravessam gerações, o Gipsy Kings preserva seu som dentro de casa. O processo está ligado a uma cultura na qual o repertório circulava entre gerações antes de ser registrado.

“É uma cultura. Antes, os mais velhos estavam com as caravanas, na terra, com uma fogueira e o violão. Eles tocavam muito, faziam festa nos acampamentos ciganos. E isso permaneceu. Está na música.”

O grupo foi capaz de organizar arranjos festivos e animados com os diversos violões que compõem as canções.

Santana colocou a guitarra latina dentro do rock; o Buena Vista Social Club apresentou parte da tradição cubana a ouvintes que talvez nunca tivessem procurado aqueles ritmos por conta própria. No final dos anos 1980, o grupo encontrou um ponto particular entre rumba catalã, flamenco, canção popular e produção contemporânea.

Na década anterior, outro grande nome da música flamenca ajudava a impulsionar o ritmo pelo mundo: o virtuoso violonista Paco de Lúcia. O espanhol fundiu o flamenco clássico e jazz fusion. No final dos anos 90, em contextos diferentes, ambos transformaram a música de raiz cigana/espanhola em um fenômeno comercial global.

“A música cigana já existia. Era entre o flamenco e o catalão. Mas nós olhamos um pouco para a música que estava acontecendo no mundo. Havia coisas mais modernas. Acho que isso trouxe a cor do Gipsy Kings, mais moderna que o antigo flamenco.”

Foi desse encontro que surgiram “Bamboléo”, “A Mi Manera” e outros sucessos que levaram a rumba flamenca a públicos muito distantes de sua origem. Ao longo da carreira, o grupo vendeu mais de 20 milhões de discos, recebeu certificações de ouro, platina e diamante e venceu o Grammy de Melhor Álbum de World Music de 2014 com o disco Savor Flamenco.

O segredo de “Djobi Djoba”

Para o ouvido brasileiro, o repertório do Gipsy Kings mistura palavras familiares com outras difíceis de localizar. Isso acontece porque as canções não vêm de uma única língua ou tradição.

“Volare”, por exemplo, é uma versão de “Nel blu dipinto di blu”, clássico italiano de Domenico Modugno. Já “Bamboléo” combina versos inspirados em “Caballo Viejo”, do venezuelano Simón Díaz, com um refrão ligado a “Bamboleô”, samba de André Filho lançado por Carmen Miranda na década de 30.

Outros mistérios são mais simples do que parecem. Para surpresa desta jornalista, “Djobi Djoba” não é uma expressão de um dialeto.

Como explica Franklin Valverde, jornalista, criador do canal Onda Latina e autor de uma entrevista com um dos integrantes do grupo durante uma passagem pelo Brasil, “Djobi Djoba” nasceu mais do som das palavras do que de um significado literal. O título soaria como “yo vi, yo va”, construção que, com certa licença poética, corresponderia a “eu vi, eu vai”. Em espanhol correto, a frase seria “yo vi, yo voy”, ou “eu vi, eu vou” em português.

Na entrevista para o TMDQA!, perguntei a Baliardo sobre essa mistura e quis saber qual é, afinal, o idioma cantado pelo Gipsy Kings: “Misturamos catalão e espanhol. É diferente”, ele afirmou.

Nem sempre é preciso entender cada palavra para se conectar com uma música, porque a voz também comunica pelo ritmo, pela melodia e pela emoção. A sonoridade do Gipsy Kings parece cheia, mas não depende de arranjos congestionados. O desenho é sustentado por elementos que trabalham o tempo inteiro: violões, palmas, vozes, baixo e percussão.

“Nós sempre mantivemos a cor, com os violões, as vozes, as palmas e o flamenco. Não usamos muitos instrumentos. Temos um pouco de baixo, um pouco de percussão e os violões. A receita é essa.”

O verdadeiro Gipsy Kings

Há atualmente duas formações oficiais que podem usar o nome Gipsy Kings. A divulgação brasileira apresenta a formação de Tonino como “o verdadeiro Gipsy Kings”. A história atual, porém, não cabe inteiramente nessa frase.

Nicolas Reyes, voz histórica e também fundador, lidera outro projeto ligado ao nome. Diferentes integrantes e parentes mantêm formações próprias, mas não oficiais. Na entrevista, Tonino reconhece Nicolas como um dos guardiões da linguagem original, mesmo ao falar da separação:

“Fizemos muita coisa com Nicolas e os irmãos. Foram mais de 35 anos de carreira. Há sete ou oito anos, o grupo se separou um pouco. Eu tenho meus filhos e meu grupo. Nicolas tem a música dele. Os únicos que ainda sabem fazer a música como sempre fizemos somos Nicolas e eu.”

A formação que chega ao Brasil reúne Baliardo e músicos mais jovens ligados à cultura do da família:

“Continuo o Gipsy Kings com jovens catalães. Tenho vontade de fazer música e amo isso. Sou muito feliz em tocar com pessoas assim, que têm muito talento.”

Historia

É nesse contexto que surge Historia. O álbum de 12 faixas de rumba flamenca pop tem faixas gostosas e divertidas de ouvir. O disco expande os horizontes de quem conhece os refrães, mas ainda não explorou os ritmos, as influências e as combinações que existem ao redor deles.

Tonino também conta que as melodias surgem pela intuição; são repetidas, modificadas e organizadas até encontrarem uma forma definitiva:

“Eu não sei escrever música, mas tenho muitas ideias. Trabalho durante vários dias e consigo fazer álbuns em dois meses. Não sei como isso acontece.”

Nos primeiros dias, o disco ultrapassou 2,5 milhões de reproduções, com Brasil, Estados Unidos, Espanha, França e México entre os principais mercados. Os violões continuam na frente, os ritmos mantêm a vocação coletiva e ganham novas vozes…

“Desde pequeno, eu gostava de compor e fazer músicas novas. Trabalhei dois anos no álbum. Queria fazer esse trabalho com meus novos cantores, que são formidáveis. Estou muito feliz com o disco. Há belas canções nele.”

Recomendo: “Señorita” e “Caballero”.

Uma longa história com o Brasil

Tonino afirma que a relação com o país começou há cerca de três décadas. O público brasileiro reconhece no Gipsy Kings o ritmo:

“É uma longa história com o Brasil. Viemos há 25, 30 anos, fazíamos grandes shows com o Gipsy Kings. Agora me dá prazer voltar e fazer o público ouvir a continuidade que fiz com essa música.”

O fundador também cita Baden Powell e a bossa nova entre suas referências brasileiras. A conexão faz sentido. Baden tratava o violão como estrutura rítmica, harmônica e narrativa ao mesmo tempo. As tradições são diferentes, mas existe uma afinidade na forma de pensar o instrumento como centro da experiência musical.

“Gosto muito do Brasil porque é um pouco como nós. Gostamos do ritmo, da dança, do calor da música. É quente, é convivência, parece um pouco com o Brasil. No último show que fiz, muitas pessoas vieram me ver depois. Elas choravam, me abraçavam, estavam felizes de me ver.”

Serviço – Gipsy Kings no Brasil

Data: 26 de julho (Domingo)
Local: Espaço Unimed
Horário do espetáculo: 20h
Abertura das portas: 18h
Endereço: Rua Tagipuru, 795 – Barra Funda – São Paulo, SP
Ingressos: a partir de R$110,00 (meia entrada)

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Liz Sacramento

Gipsy Kings volta ao Brasil com clássicos, novo álbum e a história do som que conquistou o mundo


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