Hamilton de Holanda leva a essência da música instrumental ao Rock in Rio

Hamilton de Holanda se apresenta no Rock in Rio
Foto: Nando Chagas

Hamilton de Holanda chega ao Rock in Rio no dia 12 de setembro, numa programação que ajuda a entender o tamanho da mistura proposta pelo festival este ano. Enquanto Maroon 5, Demi Lovato, J Balvin e Pedro Sampaio passam pelo Palco Mundo e o Sunset reúne nomes como Mumford & Sons, João Gomes, Gilsons, Daniela Mercury, Olodum, Criolo, Amaro Freitas e Dino D’Santiago, o palco Global Village fica por conta de Badi Assad, Hamilton e Mestrinho.

Hamilton sobe ao palco às 16h50 acompanhado por Salomão Soares, nos teclados e sintetizadores, e Thiago “Big” Rabello, na bateria. É a formação que está no centro de NOVA, seu trabalho mais recente, e que dá ao bandolim de dez cordas espaço para circular entre o choro, o jazz, a improvisação e outras possibilidades que ele vem explorando há anos.

Antes da apresentação na Cidade do Rock, Hamilton conversou com o TMDQA! sobre esse encontro entre uma música construída no detalhe, na escuta e no improviso e um festival feito para algumas das maiores plateias do país.

O lema de ‘um mundo melhor’ tem muito a ver com a minha música. Eu faço a minha música ter muita esperança na raiz dela. Poder colocar isso dentro de um universo amplo e de um festival que é um dos maiores do mundo é uma alegria muito grande.”

A raiz brasileira

Hamilton toca com uma facilidade que quase esconde o tamanho da dificuldade do que está fazendo. Aos 50 anos, já passou por 44 países com o bandolim nas mãos — Croácia e República Tcheca estão entre os destinos mais recentes — e foi acumulando referências pelo caminho.

Só que, quanto mais a música dele circula, mais Hamilton volta ao mesmo ponto: a formação brasileira. Carioca criado em Brasília, ele coloca o choro, o samba e a música nordestina no centro de tudo o que consegue fazer depois. Essa curiosidade também apareceu na seleção de cinco discos fundamentais para expandir os horizontes musicais que ele montou para o TMDQA!.

Eu só faço isso porque a minha base é muito forte. Aprendi no choro, no samba, na música nordestina. Essa raiz brasileira forte me permite tocar qualquer coisa do mundo, que sempre vai soar brasileira.”

Durante o nosso papo, ele relembrou a experiência de conhecer o Órgão de Zadar, na Croácia — uma intervenção arquitetônica de degraus e tubos submersos na orla onde a própria força das ondas produz som.

As ondas do mar batem ali e formam uma música da natureza. Por mim, eu ficaria o dia inteiro sentado ali, só ouvindo. Cada viagem que faço, eu aprendo. E isso enriquece a minha música, porque a música brasileira tem essa coisa de se misturar e ampliar horizontes.”

Um feito histórico

Falar sobre o espaço da música instrumental brasileira passa também por entender até onde artistas como Hamilton de Holanda conseguiram levá-la. Em 2025, ele venceu o Grammy Latino de Melhor Álbum de Jazz Latino/Jazz com Hamilton de Holanda Trio – Live in NYC, gravado no Dizzy’s Club, no Jazz at Lincoln Center, em Nova York. O prêmio foi dividido com o pianista cubano Chucho Valdés, vencedor com Cuba and Beyond.

Na época se comentou mais sobre outros brasileiros que não levaram o gramofone para casa do que sobre Hamilton, que havia ganhado. A conquista tem um peso particular porque a categoria não é restrita à música em língua portuguesa, e coloca Hamilton lado a lado com alguns dos principais nomes do jazz latino internacional.

O currículo já é considerável: são cinco Latin Grammys e 16 indicações à premiação, além de uma indicação ao Grammy americano, em 2025, por Collab, álbum feito com o pianista cubano Gonzalo Rubalcaba.

Hamilton, porém, fala desse reconhecimento olhando menos para a coleção de troféus e mais para o espaço que a música instrumental ainda precisa conquistar no Brasil:

Muita gente comentou comigo sobre isso. Eu não tenho muito o que falar… eu produzo, faço as minhas coisas e deixo para as pessoas avaliarem. Fico feliz do meu trabalho ser reconhecido. A verdade é que quem gosta, gosta. E fico feliz do Rock in Rio abrir um palco como o Global Village, para o público conhecer outras riquezas que o Brasil produz.”

NOVA: O espetáculo e o mistério da capa

Para o show no Rock in Rio, a ideia do repertório é conectar a voltagem de Live in NYC ao conceito do seu trabalho mais recente: o álbum NOVA. O espetáculo ganha ainda mais camadas com projeções visuais desenvolvidas especialmente para traduzir a narrativa das composições.

Uma das curiosidades mais bacanas do projeto está logo na capa: a imagem enigmática de um ovo repousando sobre uma superfície branca. Hamilton nos contou a lógica por trás da escolha desse conceito visual:

O nome ‘NOVA’ vem de ‘Nova Alvorada’, a faixa que abre o disco. A intenção não era falar só de novidade, mas do presente momento. ‘Nova’ significa viver o agora. E o ovo surgiu porque a gente queria uma imagem forte. Uma folha em branco, um símbolo de fim e recomeço. Todo mundo olha para o ovo e quer entender o porquê. Isso cria uma curiosidade que a gente achou bonita.”

O disco é uma verdadeira aula de trocas sonoras sem fronteiras, trazendo encontros com a sitarista Anoushka Shankar em “Pras Crianças”, a percussão do mestre Paulinho da Costa e a voz do cubano Pedrito Martinez.

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Liz Sacramento

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