Hate-watch: por que odiar séries e filmes virou entretenimento

Assistir a uma série ou um filme ruim pode parecer perda de tempo, mas e quando essa é justamente a ideia? Se você já deu play em algo esperando não gostar, só para comentar depois, você já participou de um comportamento cada vez mais comum: o hate-watch, ou o hábito de assistir só para criticar.
Esse fenômeno revela muito sobre como o consumo de séries e filmes mudou na era das redes sociais e do streaming, levando a curiosidade sobre a cultura pop para outro nível.
Guilty pleasure e hate-watch
Durante muito tempo, o chamado guilty pleasure (prazer com culpa, em tradução livre) explicava parte da relação do público com o entretenimento quando os sentimentos bons se misturavam com sensações negativas. Eram aquelas obras previsíveis, exageradas ou cheias de clichês que a gente consumia meio sem orgulho, mas com certo prazer.
O hate-watch, porém, opera em outra lógica. Não existe culpa, mas uma intenção de realmente não gostar da obra. A ideia não é curtir escondido, mas assistir com uma postura crítica, muitas vezes esperando pelo momento de reclamar – geralmente, nas redes sociais após a sessão.
Entretenimento como performance
Esse novo hábito tem relação direta com a forma como passamos a consumir audiovisual. Assistir a filmes e séries deixou de ser uma experiência individual para se tornar coletiva e, muitas vezes, performática.
Plataformas como o X (antigo Twitter), Instagram e TikTok transformaram cada lançamento em um evento compartilhado e a reação é quase tão importante quanto assistir à obra em si.
Dessa forma, a produção de conteúdo e a formação de opinião sobre as obras migrou: passou dos profissionais do setor e dos próprios artistas para o público. Assistir virou quase uma obrigação de gerar comentários posteriores, reviews no Letterboxd ou stories para os amigos.
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Nesse contexto, algumas produções passaram a existir quase como combustível para esse tipo de engajamento. Filmes como Jurassic World: Recomeço (2025), um bocado dos filmes de super-herói da última década ou uma sequência genérica de filme de ação com o Chris Hemsworth viralizaram antes mesmo de estrear com críticas pesadas, mas dão retorno em bilheteria e audiência, mostrando como o hate-watch funciona na prática.
Temporadas de séries famosas que estão se estendendo demais também já contam com a “divulgação” gerada pelo ódio, como aconteceu com Emily em Paris (Netflix) e está em andamento com Euphoria (HBO Max).
Independente da qualidade, essas obras movimentam discussões online intensas. São assistidas por quem gosta, mas também por quem quer ter o que dizer.
A culpa é do algoritmo
Streamings como as citadas Netflix e HBO Max não diferenciam engajamento positivo de negativo na hora de considerar a audiência.
O algoritmo responde a métricas como tempo de exibição e volume de interações. Já é suficiente se você assistiu, comentou e compartilhou, sendo pouco importante o teor do seu post.
Em outras palavras, assistir só para criticar ainda é assistir. Em muitos casos, isso ainda ajuda a manter filmes e séries em destaque dentro das plataformas por várias semanas.
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Existe também um elemento que muita gente não se dá conta: assistir a qualquer coisa tem um peso financeiro no bolso do espectador.
Com a facilidade de acesso às obras por meio do streaming, ficou muito mais fácil clicar em algo de pouca qualidade apenas para falar mal. Isso era bem difícil quando você tinha que se deslocar até um cinema ou locadora para fazer essa escolha.
Mas a sensação de que estamos fazendo isso “mais barato” é falsa, pois a mensalidade está sendo paga todo santo mês. Não se iludam: hate-watch em casa pode ser mais prático do que no cinema, mas não é de graça.
Sensação de pertencimento
Fique atento também a um componente psicológico importante. Reclamar pode ser prazeroso. Criticar algo reforça o senso de pertencimento quando isso acontece em grupo – é exatamente o que rola nas redes sociais.
No caso de séries, isso se intensifica quando os lançamentos são semanais, que alimentam ciclos prolongado de reações. Já nos filmes, especialmente estreias recentes, o impacto costuma ser mais concentrado, mas igualmente intenso.
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O hate-watch deixa de ser apenas uma escolha individual e passa a funcionar como uma opção de socialização. Ao mesmo tempo, esse comportamento levanta uma questão: até que ponto estamos escolhendo o que assistir?
Quando o consumo de filmes e séries passa a ser guiado pela expectativa de crítica, existe o risco de priorizar aquilo que irrita em vez daquilo que realmente interessa, e isso também impacta a própria indústria. Se conteúdos que geram indignação conseguem altos níveis de audiência, existe um incentivo indireto para que esse tipo de obra continue sendo produzida. O espectador, nesse caso, participa ativamente da lógica que sustenta aquilo que ele diz não gostar.
Em um cenário com tantas opções disponíveis, escolher filmes e séries apenas para falar mal também é uma forma válida de consumo, como qualquer outra, mas tem consequências. Será que estamos prontos para aceitar uma indústria que se baseia nisso para trazer novas obras?
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Filipe Rodrigues
Hate-watch: por que odiar séries e filmes virou entretenimento




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