Indústria da música propõe padrão de identificação para uso de IA generativa

Inteligência Artificial na música
Foto gerada com Meta AI

O avanço da inteligência artificial generativa (GenAI) tem transformado a indústria da música, ampliando as possibilidades de criação, produção e distribuição de conteúdo. Ao mesmo tempo em que artistas e produtores incorporam tais ferramentas para apoiar seus processos criativos, cresce a preocupação com a transparência sobre a origem das obras e com a preservação da autoria humana.

Pensando nisso, organizações representativas da indústria musical anunciaram uma iniciativa conjunta para estabelecer um padrão global de identificação do uso de IA em gravações sonoras. A IFPI, a RIAA, a A2IM, a WIN, a IMPALA, a Recording Academy (Grammy), o SAG-AFTRA e a Human Artistry Campaign, entidades que representam gravadoras, artistas, produtores e empresas da música gravada em diferentes regiões do mundo, anunciaram uma abordagem unificada para a rotulagem voluntária de faixas musicais.

O objetivo é fornecer aos ouvintes informações claras sobre como a inteligência artificial generativa foi utilizada em cada gravação, fortalecendo a transparência e a confiança entre artistas, plataformas e público.

A proposta estabelece duas categorias principais de identificação:“Gerado por IA” e “Assistido por IA”. Desenvolvido para ampla adoção internacional, o sistema poderá ser implementado por serviços de música digital, distribuidores, agregadores e demais parceiros do setor. Além disso, sua estrutura foi concebida para evoluir à medida que novas tecnologias e necessidades regulatórias surgirem.

Em comunicado, Vikki Oakley, CEO da IFPI, e Mitch Glazier, presidente e CEO da RIAA, afirmaram que os consumidores desejam compreender se, e em que medida, a inteligência artificial foi utilizada na música que escutam (via Blabbermouth):

Os fãs querem saber se e como a IA generativa foi utilizada na música que ouvem. Dada a importância da criatividade humana e da autenticidade para os amantes da música em todo o mundo, esses rótulos oferecerão uma abordagem de transparência imediatamente compreensível e facilmente escalável. Reconhecemos as diversas formas criativas como a IA está sendo utilizada e, portanto, esperamos oferecer aos fãs informações adicionais à medida que a adoção da rotulagem de IA generativa cresce e a tecnologia evolui.”

A iniciativa surge em um momento em que o uso da inteligência artificial na música cresce de forma acelerada. Em abril, o serviço de streaming Deezer informou que faixas geradas por IA já representavam 44% de todas as novas músicas enviadas diariamente à plataforma. Paralelamente, a Apple Music declarou que mais de um terço das faixas carregadas em seu serviço são produzidas integralmente com inteligência artificial.

Ao mesmo tempo, um número crescente de artistas utiliza essas tecnologias como ferramentas de apoio à composição, produção e experimentação criativa, sem substituir a participação humana. Nesse cenário, a nova rotulagem pretende ajudar os ouvintes a distinguir obras totalmente produzidas por IA daquelas em que a tecnologia apenas auxiliou o processo criativo.

Especialistas discutem o futuro das inteligências artificiais na música

Os novos padrões também representam um esforço de harmonização internacional entre diferentes segmentos da indústria musical. Para Ian Harrison, CEO da A2IM (American Association of Independent Music), a autenticidade continua sendo o principal elo entre artistas e fãs:

A comunidade independente sabe que a magia da música reside em uma conexão autêntica entre artistas e fãs. A tecnologia continuará oferecendo novas formas de criar e consumir música, mas esse vínculo ainda se baseia na confiança. À medida que questões sobre integridade, autenticidade e procedência ganham relevância, essa confiança depende das pessoas saberem o que é real. É por isso que a A2IM apoia a união de toda a indústria em torno de um padrão claro e compartilhado para a identificação de conteúdos gerados por IA.”

No mesmo sentido, Noemí Planas, CEO da Worldwide Independent Network (WIN), declarou:

Para artistas e fãs de todo o mundo, conexões verdadeiras e confiança são fundamentais. A identificação clara de conteúdo gerado por IA é essencial para isso: ela oferece aos fãs a transparência que merecem e apoia a abordagem centrada no ser humano e na segurança, defendida pela comunidade independente global por meio dos Princípios da WIN para IA Generativa. A implementação dos padrões compartilhados que a indústria musical está desenvolvendo coletivamente é a chave para lidar com a IA de forma responsável e manter a criatividade no centro desse processo.”

Enquanto isso, Helen Smith, presidente executiva da IMPALA, ressaltou que a criação de definições padronizadas para conteúdos gerados por IA constitui uma etapa essencial:

Conforme estabelecido no Plano de Música Digital da IMPALA, o estabelecimento de uma estrutura abrangente para toda a indústria, com definições padronizadas sobre material gerado por IA e sua identificação, é crucial e urgente para o setor independente. Vemos isso como um passo inicial importante rumo a um sistema de procedência que toda a indústria possa adotar com orgulho, como um selo de qualidade. Mais do que um simples exercício de rotulagem, trata-se de uma oportunidade fundamental para todo o setor.”

Representando a Recording Academy, organizadora do Grammy, Harvey Mason Jr. destacou que artistas e fãs precisam compreender de forma clara quando a inteligência artificial participa do processo criativo:

À medida que a IA continua a ser integrada ao processo criativo, tanto artistas quanto fãs merecem uma forma clara de saber como e quando ela está sendo utilizada. Essa iniciativa garante que a criatividade, a autoria e a intenção artística permaneçam no centro de cada música. Permitir que os artistas contem essa história fortalece a confiança e apoia um futuro mais sustentável para a música.”

Duncan Crabtree-Ireland, diretor executivo nacional e negociador-chefe do SAG-AFTRA, afirmou que a transparência constitui apenas o primeiro passo:

A transparência é essencial, mas é apenas o começo. Os fãs merecem saber quando a música que ouvem é gerada ou assistida por IA, e os artistas merecem um mercado que reconheça, valorize e proteja a criatividade humana. Essa estrutura é um passo importante para fornecer informações claras aos ouvintes. O SAG-AFTRA continua a reforçar o princípio de que a IA não deve ser usada para substituir, imitar ou explorar artistas sem consentimento e remuneração justa.”

A Human Artistry Campaign classificou a proposta como um marco importante para a transparência na utilização da inteligência artificial. Segundo a Dra. Moiya McTier, consultora sênior da organização, os fãs têm o direito de saber se e como a IA foi empregada nas gravações que consomem:

A transparência é um princípio fundamental da Human Artistry, e esta proposta cumpre essa promessa. A honestidade sempre foi a melhor política, e os fãs merecem saber se e como a IA foi utilizada nas gravações que ouvem. A Human Artistry Campaign agradece a colaboração, o trabalho e o compromisso com a transparência demonstrados pelas organizações que elaboraram essa proposta histórica. Esperamos uma ampla adoção dessa abordagem favorável aos humanos e aos artistas em todo o ecossistema musical.”

O debate é muito amplo, né?

Organizações querem criar categorias para identificar gravações em IA generativa na música

Vale lembrar que as categorias propostas seguem critérios gerais. A classificação “Gerado por IA” será aplicada quando a inteligência artificial generativa for responsável pela totalidade ou pela maior parte dos elementos criativos da gravação, incluindo, por exemplo, vocais principais gerados por IA, performances instrumentais de destaque produzidas artificialmente ou músicas criadas integralmente a partir de comandos (prompts).

Do outro lado, a categoria “Assistido por IA” será utilizada quando a gravação permanecer predominantemente fruto da criatividade humana, mas recorrer à inteligência artificial para apoiar determinados elementos expressivos ou etapas da produção, mantendo vocais principais e instrumentos executados por artistas humanos.

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Gabriel von Borell

Indústria da música propõe padrão de identificação para uso de IA generativa


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