Interpol reencontra sua melhor forma em “This Mirror Weighs a Ton”

Interpol - This Mirror Weighs a Ton

Existe uma armadilha esperando toda banda que fez um disco de estreia grande demais: passar o resto da carreira tentando reescrevê-lo ou fugir dele com tanta força que o resultado soa apenas defensivo.

O Interpol conviveu com essa sombra desde 2002, quando Turn On the Bright Lights definiu o som de uma geração. Na época, a pressão pareceu significar pouco, já que os sucessores Antics (2004) e Our Love to Admire (2007) foram quase que igualmente aclamados e se tornaram clássicos.

Vinte e quatro anos depois, no entanto, esse problema parecia se fazer mais presente na carreira de uma banda que encontrou uma resposta pra lá de elegante em This Mirror Weighs a Ton, o melhor trabalho do grupo desde El Pintor (2014).

Lançado nesta sexta-feira (28) pela Partisan Records, o oitavo álbum de estúdio da banda é o primeiro de inéditas desde The Other Side of Make-Believe, de 2022, e também o primeiro gravado em Nova York em mais de uma década.

A produção ficou a cargo de Andrew Wyatt, do Miike Snow, com mixagem de Dave Fridmann, dupla que ajuda a explicar boa parte da amplitude sonora do disco. Outra novidade importante aparece nos créditos: Brad Truax, baixista de turnê do grupo desde a saída de Carlos Dengler, finalmente participa do processo de composição e é um dos pontos altos do disco.

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Um álbum que olha para trás sem andar para trás

Não é que Marauder (2018) e The Other Side of Make-Believe tenham sido ruins. Os dois têm ótimos momentos, e o segundo em especial trouxe um Interpol mais suave e introspectivo, um aspecto bastante atraente para uma banda que aposta fortemente na melancolia como fonte de inspiração.

O novo álbum, entretanto, parece se reconectar mais com as raízes ao mesmo tempo em que expande sonoridades, e faz isso sem que uma coisa atrapalhe a outra. O exemplo mais claro disso vem logo na segunda faixa, “See Out Loud”, que parece ter saído direto de Turn On the Bright Lights ou Antics, com destaque para os vocais de Daniel Kessler no segundo verso.

O guitarrista, aliás, está em plena forma no novo álbum. Kessler nos presenteia com algumas de suas linhas mais criativas da carreira, com destaque especial para a interação com o baixo de Truax em “Darling Thoughts”, outro ponto alto do disco que remete bastante aos primórdios do quarteto.

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Retratando o outro lado da moeda – ou seja, a busca pela expansão sonora – está “Wake Up”. A faixa aposta em bongôs e uma percussão que ninguém colocaria em um bingo de previsões sobre o Interpol, e ainda assim tudo soa profundamente característico da banda.

É o momento em que Sam Fogarino mais brilha, mas Kessler também aparece com forte protagonismo em uma música que soa totalmente diferente de qualquer coisa que poderíamos esperar do Interpol e, ao mesmo tempo, se encaixa perfeitamente nessa estética de resgate às origens. Essa contradição é, justamente, o que embleza This Mirror Weighs a Ton.

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This Mirror Weighs a Ton traz Interpol em sua melhor forma dos últimos 20 anos

Outro ponto alto do álbum é a forma como ele trabalha a melancolia, já citada anteriormente como um ponto fundamental da sonoridade do Interpol. Com uma pegada meio futurista retratada perfeitamente no visualizer, “Iron City” traduz o sentimento de se perder uma selva de pedra que conversa com quem se vê constantemente engolido pela cidade grande enquanto aborda temas como inteligência artificial, relacionando-os com essa sensação tão peculiar.

Ao mesmo tempo, “Enemy” coloca Kessler no piano e caminha para um território com sombras de Nick Cave e do Radiohead, mas deixa de lado a frieza e encarna uma perspectiva mais pessoal e escancarada dessas dores, remetendo até à sonoridade de outros colegas de cena como o The National.

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É difícil olhar para This Mirror Weighs a Ton e não pensar em como a presença de Brad Truax faz diferença. O baixista parece completar perfeitamente os espaços dos arranjos e, talvez, era realmente a peça que faltou para que os antecessores fizessem jus às expectativas que sempre tivemos do Interpol.

O novo disco também parece ser um momento de reflexão da banda sobre o próprio passado, usando-o como grande trunfo. Fugindo de repetições e tentativas de recriar o sucesso antigo, o Interpol encontra uma sintonia fina ao se recusar, também, a tentar fingir que seus primeiros discos nunca existiram.

Um último ponto importante é a constância do álbum. Em tempos de excessos de singles, This Mirror Weighs a Ton funciona muito melhor como um disco completo e até as prévias, compreensivelmente divulgas antes do lançamento como a estratégia comercial pede, ganham novo significado ao serem inseridas no contexto completo.

Depois de duas décadas administrando o próprio mito, o Interpol entrega neste trabalho o retrato de uma banda que parou de disputar com o próprio passado e voltou a compor como se ainda tivesse algo a provar. Ouça This Mirror Weighs a Ton clicando aqui!

★★★★★ (5/5)

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Felipe Ernani

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