John Carpenter teve um pesadelo e devemos prestar atenção nele

John Carpenter

John Carpenter teve um pesadelo no qual havia uma igreja abandonada no centro de Los Angeles e, dentro dela, um elevador capaz de levar alguém diretamente para o inferno.

Para o homem que criou Halloween, The Thing, They Live e Escape from New York, transformar uma imagem dessas em filme pareceria o caminho natural. Carpenter passou boa parte da vida fazendo exatamente isso: pegando ideias estranhas e encontrando uma maneira de colocá-las diante de uma câmera.

Desta vez, chegou a uma conclusão pragmática… realizar cinematograficamente aquilo que estava em sua cabeça poderia exigir centenas de milhões de dólares. Em vez de reduzir a ideia até que ela coubesse no orçamento ou simplesmente engavetá-la, decidiu mudar o meio.

Foi assim que nasceu Cathedral, uma graphic novel de horror acompanhada por um álbum instrumental criado por Carpenter, seu filho Cody Carpenter e Daniel Davies.

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O projeto acompanha um policial que investiga um assassinato brutal dentro de uma igreja abandonada em Los Angeles e acaba encontrando catacumbas, criaturas e uma força maligna aprisionada há séculos. Mas Carpenter não quis apenas transformar seu filme impossível em quadrinhos. O projeto ganhou também um álbum com 14 faixas compostas para acompanhar diferentes momentos da narrativa, fazendo com que música, imagem e texto funcionem juntos.

É quase a trilha sonora de um filme que só existe na cabeça de quem está lendo.

A escolha fica ainda mais interessante quando observamos que Carpenter inverteu seu próprio processo criativo. Durante décadas, compôs músicas para imagens que já existiam, transformando sintetizadores minimalistas em parte fundamental da identidade de seus filmes.

Em Cathedral, sons, atmosferas e sensações participaram da construção do universo antes que ele estivesse completamente desenhado. Em vez de existir uma obra principal acompanhada por produtos derivados, diferentes linguagens passaram a construir juntas a mesma propriedade intelectual.

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Essa discussão me parece especialmente relevante em um momento no qual nunca tivemos tantos formatos disponíveis e, paradoxalmente, parecemos cada vez mais presos a eles.

Basta acompanhar algumas reuniões de marketing para perceber como frequentemente o processo criativo começa com alguém anunciando que a marca precisa fazer um podcast, estar no TikTok, ter um viralzinho (sim, ainda falam assim), criar uma série, lançar uma collab ou, inevitavelmente agora, fazer alguma coisa com inteligência artificial. Escolhemos o recipiente e depois tentamos descobrir o que colocar dentro dele.

Carpenter fez o movimento inverso: tinha algo que queria colocar na cabeça das pessoas e procurou as linguagens capazes de fazer isso.

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Gustavo Giglio

John Carpenter teve um pesadelo e devemos prestar atenção nele


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