Jota Quest revisita Tim Maia em disco que celebra 30 anos de carreira: “a gente quis voltar às nossas raízes”

Entrevista por Mayse Bertani
Trinta anos depois de gravar sua primeira versão de Tim Maia, o Jota Quest lançou nesta quinta-feira (27/08) o álbum Jota Quest & Tim Maia – Dance Enquanto é Tempo, projeto que reúne 16 faixas do repertório do cantor carioca reinterpretadas pela banda mineira.
O disco, produzido pelo baixista PJ em parceria com a Universal Music, chega em formato digital e também ganhará edição em vinil duplo, e conta com a participação de nomes como Negra Li, Thiaguinho, Mãeana, Os Garotin, Carlinhos Brown e Tony Tornado, este último ao lado do filho, Lincoln Tornado.
A homenagem tem raízes na própria origem da banda: em 1996, antes mesmo do lançamento de seu álbum de estreia, o Jota Quest já havia regravado “Dance Enquanto é Tempo” e entrado em contato diretamente com Tim Maia para apresentar a versão, um episódio que os integrantes carregam como uma espécie de bênção simbólica do artista logo no início da carreira.
Continua após o vídeo
Não por acaso, o disco de homenagem chega justamente no ano em que a banda celebra os 30 anos de seu primeiro álbum, J.Quest (1996), que também será relançado remasterizado, em formato físico e digital, em novembro.
Além do disco, a homenagem ganha vida no formato do show “Jota Quest Toca Tim Maia”, que estreia no dia 6 de setembro no Palco Sunset do Rock in Rio antes de seguir por outras cidades do país.
O TMDQA! conversou com PJ, baixista e produtor musical do projeto, e Rogério Flausino, vocalista da banda, sobre o processo de seleção das 16 faixas, os convidados especiais, a preocupação em não descaracterizar a obra de Tim Maia e o que essa “volta às raízes” representa nos 30 anos de trajetória do Jota Quest.
TMDQA! Entrevista Jota Quest
TMDQA!: Queria começar perguntando sobre a seleção das faixas. Foram 16 faixas da carreira do Tim. Qual foi o desafio de escolher essas faixas cuidadosamente? E mudou alguma coisa no meio do caminho?
PJ: Esse projeto é interessante porque, apesar de já estar no radar do Jota havia tempo, a gente não tinha uma data oficial para começar. Talvez, para mim, que produzi o álbum, tudo começou em Salvador, em 2024, na piscina do meu sogro, no bairro Caminho das Árvores. Comecei brincando, experimentando. Quando fui ver, pensei: “esse negócio está ficando bom”. Sou muito crítico, então, se algo não está bom, eu já paro de fazer — mas percebi que estava saindo fácil, que tudo estava dando certo.
Hoje, com o computador, a gente consegue fazer muita coisa em casa, tem várias ferramentas disponíveis para trabalhar sozinho. Então decidi mostrar primeiro para o Rogério, porque, se o vocalista não topasse cantar, não adiantaria nada.
Flausino (rindo): Se o vocalista não quisesse, realmente não sairia. Mas assim que ouvi, já peguei o microfone e falei: “vou gravar isso agora, me dá aí!”
PJ: Uma coisa que me deixou preocupado foi com o tom da voz dele. A gente produz tudo em um tom específico, e se for preciso mudar depois, dá um trabalho enorme — e muitas vezes a música perde o brilho. Mas deu tudo certo, e assim que vimos que ia funcionar, seguimos naturalmente.
O Tim Maia tem muitos hits. Você começa a se aprofundar, percebe que conhece a música, mas não lembra na hora. Quando soma tudo, chega a uns 25 hits que todo mundo canta. E aí, como fazer uma homenagem a ele sem os grandes sucessos? Fica meio sem sentido. Mas também tem os lados B, os lados C, músicas que influenciaram o próprio Jota Quest.
Somos uma banda pop, mas com uma essência black, um DNA, uma raiz na black music — assim como o Skank tem raiz no reggae, o Charlie Brown Jr. no skate rock, o Barão Vermelho no blues. Foi surgindo assim, sem um papo muito sério sobre quais músicas entrariam. Foi uma coisa natural. A gente sentia a vibe, ia por ali, e dava certo.
Flausino: “Ó, tá ficando bom aí, tá ficando bom.” E assim, uma coisa curiosa é que, nesses dias em que a gente estava lançando o terceiro bundle, que veio com “Que Beleza” e outras faixas, fizemos aquela pergunta nas redes sociais: “qual música não pode faltar?” E foi impressionante a quantidade de música que a galera comentou que não estava no disco — que já estava pronto, mixado, fechado. Pensei: “vamos ter que fazer o volume 2”, porque tinha muita música boa, lado A e lado B. E foi acontecendo assim, naturalmente, como o PJ falou.
Ele fazia uma parte e falava “nossa, ficou incrível”. Fazia outra, “nossa, ficou incrível” de novo. “Tem que ter uma balada, né?” “Faz aquela, faz aquela outra.” “Já tem três baladas.” E foi indo, foi indo, até que, quando percebemos, já eram 16 músicas.
PJ: Mas teve umas duas que só apareceram na última semana.
Flausino: Isso, na última semana! “Descobridor dos Sete Mares” não estava incluída. Aí, um dia, falei pra ele: “não dá pra não ter Descobridor dos Sete Mares.” Como você vai fazer um disco do Tim Maia, e depois um show, sem essa música? Não pode faltar. Só que é uma faixa que já foi muito regravada, então precisava ter alguma coisa diferente: “vamos chamar alguém do rap, mandar um verso lá no meio.” “Quem?” “Negra Li, porque ela também canta.” “Bora, pronto.” Foi a última decisão, mas o resultado ficou tão bom que virou o single de estreia. Foi tudo muito orgânico. Sinceramente, nem sei bem qual número de disco é esse — o décimo álbum que a gente faz, contando só os de inéditas, mas nunca tínhamos feito um disco inteiro regravando outro artista.
De qualquer forma, é o nosso décimo álbum de estúdio, e foi o processo mais tranquilo, mais suave e mais divertido que já tivemos — sem confusão, sem briga, sem discussão. Também porque, quando você está interpretando a obra de outra pessoa, se não gosta de uma letra, o problema é com o próprio Tim Maia, não é? Não teve muita discussão: “essa música é ótima, vamos gravar.” E pronto.
TMDQA!: Deve lembrar aquele tempo de se reunir só para brincar, né?
Flausino: É, só para fazer jam, ficar tocando.
TMDQA!: Qual foi o maior desafio? Porque é uma responsabilidade grande, né? Como vocês fizeram para manter a identidade e, como o PJ falou, preservar o brilho das músicas, misturando Jota Quest com Tim Maia?
PJ: A gente quis, de uma maneira geral, não desconstruir a obra de Tim Maia. É um projeto de homenagem a um artista que influenciou a banda e até ajudou a batizá-la, de certa forma. Apesar de ele ter falecido logo no início da nossa trajetória, criou-se um vínculo. Naquela época, em 96, a gente era todo moleque, e a black music, principalmente a brasileira, estava completamente esquecida — não tinha quase nada. O cenário era dominado por bandas como Raimundos, Skank. As referências de bandas brasileiras com influência de black music sempre foram muito pontuais: começa com a Brylho, depois a Black Rio, mais instrumental, depois vem o Gueto, de São Paulo, que começou a misturar rap, aí vem o rap paulista. Hoje, essa presença é muito maior. Naquela época, a gente era meio patinho feio, e por isso não quisemos, de jeito nenhum, desconstruir nada — nada de versão reggae, versão trance, versão piseiro.
A pergunta que guiou tudo foi: “como seria se o Tim Maia estivesse vivo hoje, tocando essas músicas?” Obviamente, como a banda tem uma identidade muito forte, essa identidade aparece automaticamente quando fazemos um cover ou uma versão de outro artista, no caso o Tim Maia. E é interessante lembrar que discos de homenagem e regravações não são novidade — existem aos milhões. O Rolling Stones tem o Blue & Lonesome, de 2016, com regravações de clássicos do blues. O David Bowie tem o Pin Ups, de 1973, com covers de bandas inglesas dos anos 60. Tem o Eric Clapton em homenagem a Robert Johnson. Os próprios Beatles, em 1963, no álbum With the Beatles, tinham metade do repertório em versões. Johnny Cash, Willie Nelson, e por aí vai. Então não é uma novidade nesse formato.
Acho que, quando uma banda já tem uma carreira consolidada como a nossa, isso não nasce de uma necessidade — não é sinal de estagnação, é realmente uma homenagem. E essa identidade veio fácil porque a conexão do Jota com o Tim Maia é muito grande. Ele era um artista pop, um artista soul, que conseguiu unir o soul funk com a música brasileira — mas, no fundo, um artista pop. Se não fosse, não teria feito tanto sucesso, ainda mais numa época sem nichos: ou você fazia sucesso, ou não fazia. Por isso, foi natural fazer esse projeto.
Flausino: Só para complementar: o tempo todo, talvez pelo amor e respeito que a gente tem pela obra do Tim, eu ouço ele direto, não paro. Quando chego em casa aos domingos, depois de um fim de semana de shows, às vezes vou lá para baixo antes mesmo de dar um beijo nos meus filhos, já coloco o Tim Maia no vinil, boto um chinelo e vou fazer minhas coisas ouvindo ele. Escuto demais. O respeito pela linha melódica dele, pelo jeito de cantar, pela construção das músicas, pelos metais, pelas cordas — a gente regravou tudo respeitando cada detalhe, para agradar ele mesmo: “não, tá faltando um negócio aqui.” Isso faz parte da música inteira. Então quisemos seguir a cartilha dele, sabendo que somos uma banda de cinco pessoas: o Márcio tem a mão dele, o PJ tem a dele, o baterista e o Marco Túlio na guitarra têm as deles, e eu tenho minha voz, que está longe de ser a voz do Tim Maia. Mas a gente se arriscou nessa homenagem mesmo assim.
TMDQA!: Dá pra ver que foi feito com muito carinho! E tem um time de peso participando, né? Vocês falaram da Negra Li, mas como vocês foram pensando e conectando cada faixa com os convidados?
Flausino: Foi acontecendo aos poucos também. A da Mãeana é curiosa: “mas por que a Mãeana?” Porque a faixa “I Don’t Know What to Do With Myself” tem um backing vocal feminino, meio bossa nova, dentro de uma levada bem funkeira. Eu estava ouvindo a Mãeana, e o PJ já tinha visto um show dela. Ele sugeriu o nome, ela topou e veio.
Os Garotin eu já tinha em mente antes: são moleques muito bons, novos, fazendo soul, então pensamos que precisávamos chamá-los para “Que Beleza”. Eles toparam na hora. E o Carlinhos Brown na percussão dispensa comentários.
PJ: Tem também o Mauro Refosco, que foi percussionista do Red Hot Chili Peppers naquela turnê do “I’m With You”, e também tocou no Forró in the Dark, que fez sucesso no underground de Nova York, no Brooklyn. Hoje ele toca com o David Byrne, é um super percussionista, adoro ele — já fizemos várias coisas juntos.
Teve também o Milton Guedes, que fez o solo de “Racional Culture”, um músico super versátil.
Flausino: Fez gaita, fez flauta.
PJ: E a Jamah, cantora de São Paulo, uma cantora excelente.
Flausino: As meninas do backing vocal, cara! As três arrasaram, foi uma loucura.
PJ: A gente quis um backing vocal black e feminino, porque você não ouve mais isso no Brasil — aquele backing quase gospel, mas não exatamente gospel, com aquela coisa da black music. Se você reparar em “Você”, por exemplo, fizemos questão de colocar aquilo bem alto no final, assim como em “Racional Culture” e em “I Don’t Know What to Do With Myself” — sempre tem as meninas cantando. Acho que trouxemos de volta esse tipo de arranjo, que é um arranjo zero algoritmo.
Flausino: E tudo isso a gente gravou de verdade!
PJ: Não nos preocupamos com a estrutura pensando em algoritmo — se a introdução precisava ser curta, se o final não podia ser longo. Pelo contrário: vai ter final grande, sim. Na black music, na disco, no funk, o final é grande, porque o público quer o balanço. Então é um disco zero algoritmo.
Flausino: E não posso deixar de falar do Thiaguinho, que canta “Réu Confesso”. Ele é próximo da banda, já nos encontramos em várias situações, é um cara muito querido e talentoso. Quando encontrei com ele e contei que estávamos fazendo um disco de black music, ele disse que também estava trabalhando num projeto parecido. Falei que ia chamar ele para cantar uma faixa, mandei “Réu Confesso” e ficou muito legal — ele trouxe um elemento eletrônico que deu uma modernizada na música.
E, claro, um destaque especial para o Tony Tornado, com o filho. Ele já participou do nosso primeiro disco, em 96, quando tinha 66 anos; hoje, 30 anos depois, ele tem 96. E está lá com o Lincoln, filho dele, de 40 anos, que canta muito bem. Gravaram juntos no Rio, e foi incrível.
Aliás, ficaram até músicas de fora, viu?
PJ: Você já ouviu o disco inteiro, né? Qual você mais gostou?
TMDQA!: Eu ouvi tudo. Gostei muito da introdução, e a música que eu mais gosto é “Eu Gostava Tanto de Você” — é a minha favorita, porque amo a letra.
PJ: Essa música tem uma coisa engraçada: já regravaram ela de todas as formas possíveis — axé, reggae, até heavy metal. Mas ninguém tinha regravado com uma batida samba funk.
Flausino: Do jeito que ficou, né? Samba soul.
PJ: E dá aquela sensação boa, o ritmo também faz parte disso. Essa música ficou famosa com o Paralamas do Sucesso, né?
Flausino: Não, o Paralamas gravou “Você”. E essa, aliás, me deu um nó na cabeça. Eu amo o Paralamas, a gente ama o Paralamas. Quando eles lançaram o Selvagem?, “Você” foi um dos singles, saiu depois de “Alagados”, já em versão reggae. Eu já conhecia a música original do Tim Maia, mas, a partir daquele momento, o jeito de cantar que ficou na minha cabeça foi o do Paralamas — a gente cantava aquela versão no boteco.
Na hora de gravar a nossa própria versão, pensei: “não, tem que cantar igual ao Tim Maia.” Só que, quando fui ouvir com atenção, percebi que as frases estavam invertidas em relação à versão que todo mundo conhece. E aí pensei: e agora? Porque, quando a gente testou ao vivo, 90% da plateia canta a versão do Paralamas, com as frases na ordem que eles fizeram.
PJ: Com “Você”, por exemplo, é raro ver alguma regravação que mantenha aquela introdução original.
Flausino: Essa música, sem aquela introdução, eu nem gravo.
TMDQA!: E vocês estão celebrando 30 anos do lançamento do primeiro álbum. Olhando para o começo do Jota Quest até hoje, o que vocês conseguem enxergar de amadurecimento, tanto artístico quanto musical? E se pudessem falar alguma coisa para o Jota Quest de 30 anos atrás, o que diriam?
Flausino: Vou responder a primeira parte, e a segunda deixo para o final, vou pensando. Esse disco do Tim Maia foi muito especial justamente por isso: estamos celebrando 30 anos do primeiro álbum, e a pergunta era “o que vamos fazer? Relançar o disco? Regravar?” Cheguei a pensar: “mas regravar o disco inteiro?” Só que esse projeto com o Tim Maia acabou sendo uma volta às nossas raízes, e o processo foi tão suave, tão gostoso, que lembrou o início da banda, quando éramos só nós cinco fazendo aquilo junto. E dá para ver o quanto amadurecemos, o quanto evoluímos. Hoje sabemos como chegar ao resultado que queremos — antes, achávamos que não sabíamos, mas sabíamos, só que sempre com aquela preocupação, aquela confusão toda com o produtor. Dessa vez, fizemos o processo só nós cinco, e foi incrível.
E o resultado sonoro ficou muito satisfatório. Para mim, é uma evolução clara: éramos uma banda que queria ser uma banda de black soul, e agora fizemos um discaço de black soul, como nos velhos tempos, só que muito melhor do que fazíamos naquela época. Foi uma grata surpresa, nos reencontramos como se fôssemos irmãos. Estamos ensaiando para o show agora, e toda hora eu olho para o pessoal tocando e sorrindo, feliz da vida, se divertindo com aquele som.
Acho que evoluímos demais — inclusive nos bastidores da vida de cada um, não só na parte artística, mas também no lado profissional. A gente está sempre aprendendo, porque não dá para ser só artista nessa carreira maluca, você precisa ser um pouco de tudo.
PJ: Você já falou tudo, né? Tem uma coisa que gosto de contar: um dia me peguei pensando naquelas festas da MTV, chegava lá e via a quantidade de artista e pensava “minha banda nunca vai dar certo.”
Flausino: “Será que a gente volta aqui ano que vem?”
PJ: E hoje, 30 anos depois, é uma pena que quase todo mundo parou, aquelas bandas acabaram, e todo aquele movimento do pop rock nacional, que refletia como o Brasil reúne tantos estilos, etnias e costumes — o Raimundos trouxe o Nordeste, o Skank trouxe o reggae, o Jota trouxe a black music, o Barão trouxe o blues, o Pato Fu trouxe o experimentalismo. Dá para ver como o Brasil é rico, e, se é rico em cultura e diversidade, também é rico na música. O rock brasileiro daquela época representava isso.
Acho que a gente descobriu uma vocação pop. Eu sou fã de música pop, adoro Elton John, adoro balada, adoro Bon Jovi, mas também gosto de punk, de soul, de funk de raiz — sou um cara muito eclético musicalmente. E acho que o Jota Quest conseguiu sintetizar tudo isso ao longo desses 30 anos. Hoje a gente tem uma marca registrada e uma sinceridade naquilo que faz. Fico muito feliz quando toco as músicas do Jota, as novas e as antigas, e esse projeto com o Tim Maia é exatamente isso: é a gente, não tem jeito.
Flausino: O que eu falaria para o Rogério de 30 anos atrás? Diria: calma, filho, não precisa ficar tão ansioso, vai dar tudo certo.
PJ: Eu sou ansioso, tenho TOC, tenho claustrofobia, depressão, excesso de alegria — tenho tudo isso. Acho normal, a vida é assim, você só precisa saber administrar. Porque também não dá para ser um cara relaxado demais, não tem jeito. Mas acho que essa ansiedade da qual falamos é mais sobre querer que as coisas fiquem bem-feitas, não uma ansiedade de “quero que fique pronto logo” — é querer que fique sincero, o que, de certa forma, é até saudável. Qualquer show que a gente faz, eu me divirto até hoje: tem show bom, tem show ruim, tem show difícil de encarar, mas eu procuro sempre me divertir. O Gilberto Gil dizia: “eu não ganho para fazer show, eu ganho para viajar.” Então acho que ganhei para viajar, e o show sai de graça.
Mas a gente não sabia se ia dar certo, e ainda não sabe se vai continuar dando — a vida é uma incógnita. Só dá para ficar tranquilo.
Flausino: Muitas coisas que aconteceram com a gente — quase todas, na verdade — foram assim, porque isso aqui não é uma ciência exata. Você está fazendo um refrão, um disco novo, sentindo aquilo, vivendo aquilo. Aí você compõe trinta músicas, vira doze, vira um disco, e ainda precisa escolher uma faixa para tocar no rádio: será que vai dar certo? Você nunca sabe. Depois vem a chance de fazer o segundo disco, o terceiro, o quarto — parece que a oportunidade não está mais lá, você tem que correr atrás, insistir: “vamos fazer o quarto, sim.” E assim sucessivamente. Já acertamos, já erramos, e vai continuar assim.
PJ: Não ter medo do novo, das coisas que vão surgindo. Sempre vai ter algo novo. Às vezes um artista me diz: “a música virou outro estilo, não é mais o meu estilo.” E eu penso: continua no seu estilo. Se você ainda está aí até hoje, é porque você existe, e seu estilo existe também. Não precisa se preocupar com “agora é o algoritmo”, “tem que postar tal hora” — sou bem contra essas receitas de sucesso. Não é porque você não postou às seis da tarde que não fez sucesso.
Flausino: “Não, você postou no horário errado.” Eu penso: não basta postar, ainda tem que ser na hora certa? Não basta aprender a fazer o vídeo, ainda tem que postar direito?
TMDQA!: Para fechar, a última pergunta: qual foi o disco do Tim Maia que mudou a vida de vocês?
PJ: Para mim foi o Disco Club. Meu pai tinha esse disco, e eu ouvia, mesmo sem saber muito bem o que estava ouvindo naquela época — era mais de tabela, ouvindo o que meu pai colocava, e ele ouvia muita coisa. Lembro que, quando era moleque, gostava da capa, achava ela muito legal. E sempre soou bem para mim, mesmo antes de eu tocar profissionalmente — gostava do balanço. Todas as fases dele têm balanço, mas naquele momento em que a disco music chegou, que depois transcendeu até para o rock e o metal, esse disco em especial me marcou.
Flausino: A capa do Disco Club é mesmo a mais bacana. Para mim, o disco do Tim Maia em vinil que eu mais ouvi foi um que tinha em casa. Mas, naquela época, a coleção que meu pai tinha era mesmo do Roberto Carlos — eu conhecia os discos dele pelo ano, pela capa, porque era o que tinha em casa, e eu praticamente era o DJ dele: “bota o de 71”, “bota o de 69”. O consultório dele era em casa, e eu ficava tocando os discos.
Mas fui somando as músicas do Tim Maia na cabeça aos poucos. Quando entrei no Jota Quest, comecei de fato a mergulhar na discografia dele. Já tinha alguns, comprei outros, fui atrás. O Racional, em vinil, comprei há pouco tempo. Então, entre os quatro primeiros discos dele, a essência está toda ali. O Disco Club nem faz parte desse grupo para mim — fico com esses quatro, vou de um a quatro e volto. O terceiro eu comprei em vinil recentemente, porque só tinha um exemplar muito arranhado, e estou gostando bastante de ouvir de novo: 70, 71, 72, 73. Ele lançou um disco por ano naquele período. É difícil escolher só um.
PJ: O Racional, volumes um e dois, também é muito bom, né?
Flausino: O Racional 2 é muito forte, tem muitos hits ali.
PJ: Depois eu soube, o próprio Carmelo Maia me explicou, que o Racional 3 era formado por sobras do que não tinha sido lançado na época — só saiu já nos anos 2000, não lembro o ano exato. Tecnicamente, não faz parte da trilogia original, foi lançado bem depois. Tem até “Estrela do Meu Show” nele, que eu nem sabia.
Flausino: É, “Estrela do Meu Show” é uma faixa super lado B, com aquela cara de música dos anos 80. O PJ chegou com ela e eu achei incrível — demos uma acelerada na levada dela.
PJ: O LP dela nem chegou a sair, é lado B de um compacto.
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