Levitation: conheça o festival que virou referência da psicodelia no mundo e chega ao Brasil em 2027

Na noite de 8 de março de 2008, um espaço chamado The Red Barn, no norte de Austin, no Texas, recebeu um evento que mudaria a história do Rock psicodélico no mundo. O nome era apropriado: Austin Psych Fest.
Quase 20 anos depois, aquele encontro que reuniu The Black Angels, Ringo Deathstarr e mais algumas bandas locais eventualmente deu origem ao Levitation, um dos festivais mais respeitados da música alternativa no mundo que chegará ao Brasil em 2027.
A edição de estreia por aqui acontecerá em 23 de Janeiro, no Komplexo Tempo, em São Paulo, e fecha uma passagem inédita pelo continente que começa em Buenos Aires, no dia 20, e segue para Santiago, no dia 21.
A escalação, anunciada em Agosto, reúne Melvins, Osees, Boris e Frankie and the Witch Fingers, ao lado dos brasileiros Test, Bike, Ema Stoned e Bufo Borealis. Para entender por que esses nomes fazem sentido juntos, e por que a chegada do festival mexe com a cena alternativa e experimental daqui, vale voltar a Austin.
Austin Psych Fest: como uma banda elevou a tradição psicodélica do Texas
O Levitation nasceu dentro da Reverberation Appreciation Society, coletivo formado por Christian Bland e Alex Maas, do The Black Angels, ao lado do produtor Rob Fitzpatrick e de Oswald James.
Inspirados pela explosão criativa dos anos 1960 e por festivais de curadoria autoral como o All Tomorrow’s Parties e o Primavera Sound, eles montaram o evento à imagem do que gostariam de ver como público, e o crescimento foi rápido. Em 2009, o Austin Psych Fest já durava três dias e trazia bandas importantes, como os veteranos locais do Golden Dawn tocando na íntegra o disco Power Plant, de 1968.
O espírito, segundo os próprios organizadores, nunca mudou muito. Ao retomar o nome antigo para uma edição comemorativa de 15 anos em 2023, Fitzpatrick definiu o festival como uma espécie de festa esquisita do underground, feita para quem gosta de procurar, mesmo depois de ter crescido ano a ano.
O espírito é compartilhado por André Barcinski, produtor da Maraty, que traz o evento ao Brasil pela primeira vez. Em comunicado à imprensa, ele relatou que conheceu o evento no Texas e, a partir daquela experiência de conhecer novas bandas através do festival, passou a trabalhar para viabilizar a edição brasileira:
Em 2014, fui pela primeira vez ao festival Levitation (que ainda se chamava Austin Psych Fest), no Texas. Fiquei impressionado com a qualidade das bandas, a organização e o clima de camaradagem entre o público e os artistas. Eu não conhecia 70% das bandas do line-up e saí de lá zonzo de tanta música boa. Desde então, sonho em poder replicar esse festival no Brasil. Foram vários anos de tentativas, e agora deu certo!”
Do Austin Psych Fest ao Levitation
A virada de nome veio no fim de 2014. O festival passou a se chamar Levitation em referência a uma faixa do 13th Floor Elevators, banda que é praticamente o marco zero da psicodelia de Austin, e a escolha ganhou peso simbólico logo na primeira edição com o novo batismo: em maio de 2015, o próprio Elevators subiu ao palco do Carson Creek Ranch para seu primeiro show em 45 anos, momento registrado depois no documentário I’ve Got Levitation.
O cartaz daquele ano tinha ainda The Flaming Lips, The Jesus and Mary Chain, Primal Scream, Spiritualized e Tame Impala, e o jornal britânico The Guardian tratou o evento como um retrato do passado, do presente e do futuro da música psicodélica.
A marca, a essa altura, já tinha começado a viajar. Em 2013 surgiu o Levitation France, no Le Chabada, em Angers, e em 2015 vieram edições em Vancouver e Chicago. O coletivo também passou a assinar programações no SXSW, no holandês Le Guess Who? e no NRMAL, na Cidade do México, e mantém desde 2010 um selo próprio, que lança discos de nomes do Psych e do Garage Rock e uma série de álbuns ao vivo gravados no festival.
A fatídica edição de 2016 mudou tudo
Com tudo parecendo encaminhando, veio a edição de 2016, que teria Brian Wilson tocando Pet Sounds, Animal Collective, Sleep, Sunn O))) e Courtney Barnett, mas acabou cancelada às vésperas por causa de uma tempestade que danificou a estrutura do Carson Creek Ranch.
A organização improvisou mais de 20 shows em casas do centro de Austin para não deixar o público e as bandas na mão, e o festival acabou tirando 2017 de folga. O retorno em 2018 já foi com outro formato, espalhado por várias casas da cidade, que acabou se tornando sua cara mais conhecida.
A pandemia impôs um novo hiato em 2020 e 2021, preenchido pelas Levitation Sessions, uma série de shows filmados e transmitidos online que depois viraram discos. Desde 2024, os organizadores mantêm os dois nomes vivos: o Austin Psych Fest acontece na primavera, num único espaço, e o Levitation, no outono, ocupa os clubes da cidade.
A edição de 2025 testou um formato de festival tradicional no Palmer Events Center, com um dia inteiro dedicado ao Metal que terminou com Mastodon e um encerramento a cargo do Pavement. Em setembro de 2026, o evento voltou às casas de Austin com Bikini Kill, American Football, Molchat Doma e o Sleep fechando o último dia, o que mostra o quanto o cardápio se alargou do Psych original para incluir também o Punk, o Metal, o Darkwave e a eletrônica.
Escalação brasileira reforça proposta plural do Levitation
Com esse histórico em mente, a escalação brasileira funciona quase como um resumo da família Levitation. O Osees, de John Dwyer, já esteva no cartaz do Austin Psych Fest tantas vezes que, em 2024, fez um show por noite durante todo o festival, cada um com uma banda de abertura diferente. Também gravou duas edições das Levitation Sessions, lançadas em disco pelo selo do coletivo.
O Boris passou pelo festival em 2013, estava escalado para a edição cancelada de 2016 e voltou em 2024. A ligação do trio japonês com o Melvins é ainda mais antiga: o nome da banda vem de uma faixa de Bullhead, disco do Melvins de 1991, e as duas bandas dividiram uma turnê pelos Estados Unidos em 2023, nas comemorações dos 40 anos do grupo de Buzz Osborne e Dale Crover.
O Frankie and the Witch Fingers, por sua vez, tocou no Levitation em 2025 e tem um álbum ao vivo gravado no festival lançado pelo mesmo selo. O Melvins completa o quadro como uma espécie de patriarca de boa parte do Rock pesado e experimental que o Levitation abraçou nos últimos anos, e volta ao Brasil 19 anos depois de sua única passagem pelo país.
Além disso, a música brasileira não é estranha ao festival. Os Mutantes estiveram no Austin Psych Fest de 2013 e voltaram ao Levitation em 2022. O Boogarins apareceu no cartaz de 2014, estava escalado para 2016 e, em 2024, dividiu a noite de abertura no Stubb’s com o próprio Black Angels e com Mdou Moctar.
A parte brasileira da escalação reforça a leitura. O Test, duo de grindcore experimental formado por João Kombi e Barata, está na estrada desde 2011 e virou referência do underground nacional; a Bike leva sua psicodelia com tropicália e Rock progressivo, já testada em palcos fora do país; a Ema Stoned chega com uma sonoridade construída a partir de improvisação que tem tudo a ver com o festival e o Bufo Borealis mistura Jazz, Funk e groove psicodélico.
Fundador do Levitation falou sobre chegada do festival ao Brasil
Para Rob Fitzpatrick, proprietário e fundador do Levitation, a chegada ao Brasil representa a realização de um projeto que vinha sendo desejado há anos:
Estamos incrivelmente ansiosos em trazer esse artistas e o Levitation para o Brasil. Esse tem sido um sonho há muitos anos, e não poderíamos estar mais felizes em desfrutar desse line-up em São Paulo ao lado de nossas irmãs e nossos irmãos na América do Sul.”
A principal novidade da chegada do Levitation à América do Sul, inclusive, é essa ideia de montar um circuito regional, com datas próximas em Buenos Aires, Santiago e São Paulo, que torne viável trazer bandas que dificilmente encaixariam uma passagem pelo continente em turnês convencionais.
Leandro Carbonato, produtor da Powerline e sócio da Maraty, afirma que a intenção é estabelecer o Levitation como um evento permanente no calendário sul-americano:
Estamos muito felizes com a possibilidade de realizar o Levitation e queremos construir um projeto duradouro, com muitas edições. Por isso, o festival também chegará ao Chile e à Argentina. A proposta é formar uma espécie de circuito sul-americano, que permita trazer as bandas para uma turnê pela região e manter o Levitation no continente por muitos anos.”
Ao anunciar o evento, inclusive, a Maraty definiu o Levitation como um festival sem gigantismo, em que os artistas são escolhidos pela música e não pelo número de seguidores, e o desenho da edição paulistana vai nessa direção.
A edição brasileira terá ainda feira de discos, camisetas, merchandise, livros e pôsteres. O espaço será dedicado principalmente a marcas, selos e editoras independentes e alternativas, levando para além dos palcos o mesmo princípio de curadoria que orienta a programação musical.
O tamanho do impacto, claro, só vai aparecer com o tempo, mas é difícil segurar a empolgação com a chegada de um evento tão importante como o Levitation à nossa cena. Quem a gente encontra por lá?
Serviço – Levitation Brasil
Data: 23 de janeiro de 2027 (sábado)
Local: Komplexo Tempo, Avenida Henry Ford, 511, Parque da Mooca, São Paulo (SP)
Atrações: Melvins, Osees, Boris, Frankie and the Witch Fingers, Test, Bike, Ema Stoned e Bufo Borealis
Ingressos: Fastix; venda física sem taxa na Loja 255 da Galeria do Rock (Rua 24 de Maio, 62, Centro)
Produção: Maraty
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Felipe Ernani
Levitation: conheça o festival que virou referência da psicodelia no mundo e chega ao Brasil em 2027



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