Luíza Boê transforma sonhos e saberes indígenas em matéria-prima de seu terceiro álbum

A cantora e compositora mineira Luíza Boê lançou Sonhos em outubro de 2025, seu terceiro álbum de estúdio. Entre os oito nomes que dividem a produção, estão Gustavo Ruiz, Marcelo Jeneci, Fernando Catatau e Pedro Carboni.
O disco traz uma sonoridade dreampop, MPB e uma participação do Coral Guarani Tape Retxakã, gravada dentro de uma casa de reza em Aracruz, no Espírito Santo. É também o primeiro trabalho em que Luíza assina os próprios arranjos. Em conversa com o TMDQA!, a artista falou sobre o processo criativo do álbum que envolve a cosmovisão indígena, a relação com os sonhos e os planos para o futuro.
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Materialização de Sonhos
De fato, Sonhos não é um título metafórico, mas literal. Parte das músicas surgiu enquanto a artista dormia — em sonhos lúcidos, meditações, nesse estado entre o sono e o despertar que a ciência investiga há décadas e que, em diferentes culturas indígenas, é entendido como fonte de orientação. Entre povos como os Yanomami, sonhos são considerados experiências reais, capazes de influenciar decisões e a vida coletiva.
A experiência de compor a partir dos sonhos não é isolada. Ao longo da história da música, artistas já relataram processos semelhantes. Paul McCartney acordou com a melodia de “Yesterday” pronta e passou dias tentando confirmar se não a havia escutado antes. Ainda, Keith Richards já contou que mantém um violão ao lado da cama e que sonhou com o riff de “(I Can’t Get No) Satisfaction”, gravando a ideia assim que acordou. Mais recentemente, Sammy Hagar contou que compôs um trecho de sua música “Encore, Thank You, Goodnight” após sonhar com Eddie Van Halen, como descrito pela jornalista Lara Teixeira aqui, que teria lhe mostrado um lick de guitarra durante o sonho.
Ao falar sobre o tema, Luíza recorre a uma ideia do neurocientista Sidarta Ribeiro que a marcou. Segundo ela, o pesquisador aponta que sonhar ativa áreas do cérebro ligadas à empatia. “Se a gente vive numa sociedade onde as pessoas não sonham, elas perdem o poder de empatia”, diz.
Um desses sonhos envolveu a também cantora e compositora Julia Mestre. Luíza se via na Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, assistindo a companheira de ofício cantar uma música que ela própria tinha acabado de criar dentro do sonho. Ao perceber que sonhava, acordou e registrou a composição.
“Eu falei: calma, isso aqui é um sonho. Essa música não existe, essa música é minha. Aí eu acordei e já gravei a música inteira no áudio do celular.”
Luíza recorre a uma leitura do psicanalista Carl Jung para interpretar esse tipo de experiência. Segundo ela, a ideia de que personagens nos sonhos podem refletir aspectos de nós mesmos ajuda a entender a presença de outras figuras em suas composições. Assim, a música sonhada é bem direta: “Ouvi Num Sonho”, faixa sete do álbum, em que repete a frase “tem gente que não quer crescer, que tem medo do que pode encontrar”, construída sobre uma base minimalista de percussão, com sons de caixinha de fósforos, piso e tambor grave.
Entre deslocamentos e aprendizado
Sonhos é o primeiro álbum em que Luíza Boê assina os próprios arranjos, de cordas e vocais. São treze faixas em pouco mais de 49 minutos, com produção dividida entre a própria artista, Charles Tixier, Fábio Carvalho, Fernando Catatau, Gustavo Ruiz, Lucas Martins, Marcelo Jeneci e Pedro Carboni. Nas participações, Jeneci aparece em “Saudade Não Envelhece”, Jaques Morelenbaum em “Meu Mar”, Joaquim em “Limbo” e o Coral Guarani Tape Retxakã em “Sonhar Floresta”.
O disco também traz uma diferente nuance em relação aos trabalhos anteriores. Depois de Luíza Boê (2018), do EP Terramar (2019) e de Amanheci (2021), a compositora diz ter chegado a uma compreensão mais clara dos próprios processos de gravação, o que a levou a trabalhar com diferentes produtores em cada faixa, guiada por afinidade estética e intuição.
A trajetória de Luíza passa por diferentes cidades e formações. Nascida em Minas, criada em Vitória, já viveu no Rio, em Paris, no Canadá e na Alemanha, e hoje está em São Paulo. Poliglota, dá aula de canto para mulheres e também de idiomas. Está na segunda graduação, agora em música. Entre suas referências, cita a Rosalía, que estudou flamenco numa escola técnica em Barcelona antes de se tornar um dos nomes mais relevantes da música espanhola contemporânea. Motomami não existiria sem os anos de conservatório. Sonhos carrega algo dessa mesma lógica.
“Quanto mais repertório você tem, mais legais essas ideias podem ser, porque você tem conhecimento para materializar as coisas. Quanto mais repertório a gente tem, mais aberto a gente tá às ideias que chegam. Eu acho que a parte da ideia da criação, ela é muito mágica. Não é uma coisa tão racional. Nesse disco, eu pude fazer uma coisa que eu sempre tinha feito intuitivamente, mas nunca de forma estruturada, que é escrever arranjos. Poder escrever isso numa partitura, pensar essas camadas de uma forma mais robusta foi uma autonomia muito incrível de se ter.”
Essa autonomia também passa pela relação com a própria voz. Ao estudar canto em São Paulo, Luíza percebeu que durante anos cantou compensando uma assimetria nas pregas vocais, sem ter consciência disso. O processo de reaprendizado, com acompanhamento técnico, mudou sua forma de cantar.
“Todo mundo deveria ver a própria prega vocal, entender que ela é um músculo, que é o que possibilita a gente falar e cantar. Esse processo me trouxe uma possibilidade de usar a minha voz de um jeito que eu nunca tinha usado antes. Hoje eu sinto que tenho um domínio muito mais profundo.”
Matéria-prima do sonho mais urgente
Quanto mais Luíza mergulhava no tema dos sonhos, mais esbarrava num incômodo. Dois livros mudaram a forma como ela entendia os sonhos: O Desejo dos Outros, da antropóloga Hanna Limunja, sobre os sonhos Yanomami, e A Queda do Céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert. Os dois mostravam que o sonho, para povos originários, é uma decisão coletiva, que orienta a colheita, a guerra, a paz. E que a gente, em algum momento, perdeu isso completamente.
“O Davi Kopenawa fala que as pessoas brancas não sabem sonhar a floresta, elas só sonham com as próprias questões. Uma ideia de que a gente é tão autocentrado que os nossos sonhos têm a ver com as nossas questões, e não com o planeta como um todo, não com esse entendimento de que a gente é natureza. E isso me tocou profundamente. Se eu estou escrevendo um disco sobre sonhos, eu quero falar desse sonho que deve ser o mais urgente de todos nós, que é o de manter as florestas de pé.”
A resposta foi buscar o Coral Guarani Tape Retxakã, da aldeia Ka’agwy Porã, de Aracruz, no Espírito Santo, onde Luíza cresceu. Antes de gravar qualquer coisa, ela foi à aldeia com o violão, cantou a música para eles e fez o convite pessoalmente. Meses depois, montaram o estúdio dentro da casa de reza. O coral criou uma composição em Guarani que dialoga com o que Luíza canta em português.
Entre caminhos possíveis
A cantora tinha só 11 anos quando o pai cometeu suicídio. Ela mesma diz que isso atravessa sua vida e suas decisões até hoje, incluindo a demora em se permitir fazer música. Por isso, foi cursar relações internacionais no Rio. Estagiava de manhã, estudava à tarde, ia ao estúdio à noite, chegava ofegante. Em 2016, fez um semestre na Sciences Po, em Paris. Foi lá, num quarto de dez metros quadrados, que compôs o que viraria seu primeiro disco, lançado em 2018. A virada veio depois, com tempo e terapia.
“Eu achava que eu só poderia ter uma vida digna se a minha missão fosse salvar o mundo. Eu achava muito egoísta querer ser música porque é uma coisa muito prazerosa, sabe? Tinha uma autoexigência de: ‘querida, não pode, você tem que salvar o mundo, você não pode querer fazer música, isso não existe’. Então foi muito tempo de terapia, muitas coisas, para eu entender que eu precisava me salvar primeiro. Que a minha música era a minha ferramenta de cura, a minha forma de elaborar o que acontece comigo. Foi muito tempo até eu entender que eu mereço, eu posso, isso é meu propósito, está alinhado com a minha alma.”
A decisão de seguir pela música não veio como ruptura, mas como um processo gradual de reconstrução. Entre a formação acadêmica, o trabalho e as primeiras gravações, Luíza foi, aos poucos, reorganizando o lugar da música na própria vida.
Música mágica brasileira
Se você perguntar o que ela faz, Luíza vai dizer MPB. No entanto, ela mesma prefere outro termo, emprestado de Lully, compositora dos anos 1970 parceira de Ney Matogrosso em canções como “Fala”, “Coração Aprisionado” e “Bandoleiro”, escritas ao lado de sua companheira Lucina. Música mágica brasileira: a que flerta com o invisível, traz o espiritual para o canto e conversa com o mistério sem precisar nomeá-lo.
E por falar em sonhos… Luíza quer viajar o Brasil levando sua música. Além disso, conta que tem o desejo de viajar o mundo com sua banda e, num show, poder traduzir a letra da música e contar para as pessoas em alemão o que a música quer dizer.
“Por mais que eu cante e componha a partir de um lugar de investigação da minha própria vida, acho que o lugar é sentir que o meu trabalho é um espelhamento para a pessoa enxergar as próprias vivências e as próprias descobertas. […] Minha mensagem é que as pessoas acreditem na força do sonho. Tanto na força do sonho em vigília, o que a gente deseja, mas também na força do que a gente sonha à noite, porque eu acho que o sonho é um oráculo.”
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Liz Sacramento
Luíza Boê transforma sonhos e saberes indígenas em matéria-prima de seu terceiro álbum




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