O chumbo, o cromo e a carne: Como os The Rolling Stones chutaram o pedestal em “Foreign Tongues”

Arte de capa do álbum “Foreign Tongues”, dos The Rolling Stones
Arte de capa do álbum “Foreign Tongues”, dos The Rolling Stones

Aos 82 anos, os Rolling Stones preferiram usar o peso do próprio mito para quebrar a vidraça. Nesta sexta-feira (10), Foreign Tongues chega não como um testamento melancólico, mas como um manifesto de insubordinação estética. Se o elogiado Hackney Diamonds (2023) foi o cartão de visitas que provou que as engrenagens ainda giravam, este novo trabalho é a banda se recusando a limpar a graxa das mãos.

Musicalmente, o álbum foge da armadilha de tentar mimetizar os anos de ouro. Em vez de decalcar os riffs que os coroaram, a banda costura o calor primitivo do blues de Chicago com a crueza seca de um pop que parece ter sido gravado ao vivo em um galpão abandonado. Há uma urgência na produção que privilegia o erro, o trito das palhetas e o ronco dos amplificadores valvulados. É um disco guiado por guitarras que não duelam, mas conversam em uma linguagem secreta que só Keith Richards e Ronnie Wood dominam depois de tantas décadas dividindo o mesmo ar.

O grande trunfo de Foreign Tongues mora na sua recusa em soar inofensivo. Mick Jagger usa seu fôlego absurdo para morder o calcanhar do presente. Há uma fricção fascinante que move as faixas: o eterno apetite pelo ritmo e a percepção cínica de que o mundo lá fora está ficando cada vez mais estranho e polarizado.

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A Cartografia do Caos: do suor de garagem ao satélite

O álbum se desenrola como a crônica de um planeta em transe, alternando o hedonismo físico das pistas com a ressaca moral da era digital:

O Instinto: Em faixas como “Rough and Twisted” e a sinuosa “Jealous Lover” apostam no choque térmico. Enquanto a primeira sangra uma gaita visceral sobre uma base suja, a segunda arrisca flertes com baterias eletrônicas minimalistas dos anos 90, servindo de base para falsetes que mostram que a malícia do vocalista continua intacta. É o ritmo cru ditando as ordens no estúdio.

O Desgaste: A calmaria chega carregada de poeira em “Ringing Hollow”. Aqui, os Stones resgatam a veia do country melancólico para pintar um retrato desbotado do sonho americano. Usando imagens fortes como o bronze trincado da Estátua da Liberdade, a banda entrega uma balada madura sobre promessas que envelheceram mal.

O Alvo: O ponto de ebulição lírica explode em “Mr Charm” e “Covered in You”. Abandonando o purismo, Jagger adota uma cadência quase falada, um ataque direto e irônico contra os novos donos do mundo – os tecnocratas intocáveis e os líderes autoritários que se espalham pela geopolítica atual. É o rock apontando o dedo sem medo de parecer panfletário.

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The Rolling Stones, a cozinha fantasma e o veredito

Se o registro funciona como um diário de sobrevivência, o coração emocional do álbum pulsa em “Hit Me in the Head”. A faixa traz à superfície as batidas originais e milimetricamente precisas de Charlie Watts, capturadas antes de sua partida. Sentir a assinatura do eterno maestro conduzindo o grupo enquanto convidados de peso, como Paul McCartney e Robert Smith, operam discretamente nas sombras, é a prova de que os Stones continua a ter o mundo orbitando ao redor deles.

Longe de ser uma repetição burocrática para cumprir contrato, os Rolling Stones entregam um disco que respira, erra e pulsa. Foreign Tongues é fascinante justamente por suas arestas não lixadas e pelo flerte com releituras arriscadas como a de Amy Winehouse. É um trabalho essencialmente humano que prova uma tese simples: para continuar relevante, você não precisa se moldar ao formato do algoritmo. Às vezes, basta plugar a guitarra, cuspir a verdade e deixar o volume no máximo.

★★★★ (4/5)

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Eduardo Ferreira

O chumbo, o cromo e a carne: Como os The Rolling Stones chutaram o pedestal em “Foreign Tongues”


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