O começo, meio e (novo) começo de Emicida com a turnê Racional

Foram quase dois anos de um recolhimento que, longe de significar descanso, revelou-se um período de enfrentamento. Emicida atravessou batalhas pessoais silenciosas, cujas marcas tornaram-se visíveis na estreia da turnê “Emicida Racional MCMV”, que ocupou o Espaço Unimed na última quinta-feira (30).
Às 22h40, quando as luzes da Zona Oeste paulistana se apagaram para dar voz ao cronista da Zona Norte, o que se viu foi um espetáculo de atos bem definidos. De semblante rígido e olhar fixo, Emicida abriu a noite com “Essa É Pra Você Primo” — para quem acompanha seus passos há mais de 15 anos, ouvir essa homenagem ao eterno DJ Primo ao vivo foi um resgate histórico e emocional potente.
A narrativa da noite se propõe a traçar uma cronologia íntima. No entanto, a trajetória de Leandro não é solitária; ela se costura à de outros arquitetos da rima, mesmo nos momentos de maior introspecção. Essa conexão ficou evidente quando ele emendou “Sonho Meu”, clássico de Xis, com a densidade de “Ismália”. Ali, a dor deixou de ser individual para se tornar coletiva, culminando em um recado direto e urgente no telão: “Dedicado às 168 meninas assassinadas em uma escola do Irã pelos amigos de Epstein”.
O espetáculo não é denso apenas pelo repertório, mas pela carga política que carrega. Entre os atos, vídeos com personagens distintos questionavam como o sistema amarra e sufoca o potencial do povo brasileiro. A luta diária “pra vencer na vida” traz também outros tipos de derrota intangíveis, como a ausência na própria vida.“Quanto vale o nosso corpo?”, ecoava uma das provocações.

Celebração e lágrimas
Se a primeira metade foi um mergulho nas sombras, o que se seguiu foi uma celebração à fraternidade. Ao convocar Rashid e Projota, seus escudeiros de longa data, Emicida não apenas revisitou o passado, mas reafirmou o poder dos laços. A transição de “A Mema Praça” para “A Praça”, com a entrada triunfal de Edi Rock, mostrou que, no universo de Emicida, nenhum detalhe é aleatório: tudo é reverência.
A reunião dos Três Temores para cantar “Nova Ordem” (lançada há 14 anos) foi um deleite para os presentes. Ao ver as 8 mil pessoas em uníssono no Espaço Unimed, Projota não conteve as lágrimas. Para quem dividia o prêmio da Batalha da Santa Cruz, o choro era a prova definitiva de que eles venceram o sistema que os queria invisíveis.
O terceiro ato marcou o início de uma purificação. Sob o instrumental de “Vida Loka Pt. 1”, Emicida entoou “Papel, Caneta e Coração”, limpando qualquer energia densa que pairava no ar. A participação de Jotapê simbolizou esse bastão passado entre gerações, enquanto a oração de “Santo Amaro da Purificação” trouxe, enfim, a luz. As cores invadiram o palco e o semblante do MC suavizou, abraçando a esperança.
Contudo, o momento de maior catarse veio com “Mãe”. A recente perda de Dona Jacira conferiu à performance uma carga espiritual quase insuportável. Emicida não conteve as lágrimas — nem muitos na plateia. Ao mesmo tempo, o telão exibiu a expressão quéchua “Tupananchiskama” (“até que a vida volte a nos reencontrar”). O coro de 8 mil vozes gritando o nome de Jacira transformou o luto em um tributo para ficar na histórica. Ali, ficou provado que o que nos dilacera e o que nos dá esperança bebem da mesma fonte.
Começo, meio e começo
Caminhando para o final, Emicida costurou suas referências perfeitamentamente. Reverenciou a geração que pavimentou seu caminho — Quinto Andar, Kamau, Marechal, SP Funk — ao cantar “Moral Provisória”, de Parteum, e uniu “Homem na Estrada” (Racionais MC’s) e “Ela Partiu” (Tim Maia) ao seu hino “Levanta e Anda”. A lógica era impecável: a ancestralidade alimentando o presente.
O encerramento, banhado pelo samba dos Prettos em “Quem tem um amigo (tem tudo)” e “Preto Zica”, reforçou o pensamento de Nego Bispo: “Somos começo, meio e começo”. A responsabilidade de agir no agora, honrando quem veio antes para garantir o futuro, foi o fio condutor de três horas de um espetáculo visceral.
Antes de se despedir, às 01h40, Emicida declamou uma poesia que serviu como resposta final aos dilemas apresentados: “Todo esse trampo é feito por seres humanos e isso é inegociável”. Ao deixar o palco, estava provado que o Zica voltou… mais forte.
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Felipe Mascari
O começo, meio e (novo) começo de Emicida com a turnê Racional




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