“O Funeral de Tudo”: a saída niilista do Sangue de Bode em novo álbum 

Sangue de Bode
Foto por Gabriel Sinuê/Divulgação

O quarteto carioca Sangue de Bode não nasceu para agradar e isso define bem seu lugar na música extrema brasileira. Com sete anos de estrada, a banda se consolida como um dos nomes mais celebrados da nova geração underground e lança agora seu quarto álbum, O Funeral de Tudo.

Em um cenário de algoritmos ávidos por domar sons, o grupo segue na contramão: mais denso, áspero, cru e intransigente. A música não é de fácil assimilação, nem pretende ser. Não busca ampla adesão e é na identificação profunda que quem chega, fica. Como explica o vocalista e guitarrista Verme em entrevista ao TMDQA!, as letras confessionais, marcadas por tragédias e amarguras, são o principal elo com o público:

“O clima das composições e da temática da banda não aconteceram de forma consciente portanto não se trata de um culto ao sofrimento. Na verdade, é o resultado do acúmulo de experiências macabras e difíceis vividas na carne, no mundo real. O Sangue de Bode surgiu de muito sofrimento, e esse sofrimento acabou sendo expressado da forma como é de maneira muito natural.”

Verme, guitarrista e vocalista no Sangue de Bode

O Funeral de Tudo premia esse público com oito faixas que não oferecem respiro fácil nem sonoro, nem temático. Depressão, ansiedade, desamparo e colapso existencial aparecem como matéria viva que pulsa, pesa e incomoda um bocado.

A formação atual conta com Verme (vocal e guitarra), Sinuê (bateria), (baixo) e Nekrose (guitarra), trupe cujos nomes já deixam claro a proposta estética da banda.

Gravado em meio a perdas pessoais significativas, O Funeral de Tudo carrega um peso emocional que transborda nos detalhes. A sonoridade amplia o uso de duas guitarras, criando texturas mais densas e atmosferas sufocantes frente aos outros álbuns da discografia.

“Máxima Miséria” foi o single de apresentação do trabalho com clipe inteiramente realizado pela banda e disponível no YouTube via Scena Lab.

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Embora rejeitem, em certa medida, o rótulo de uma banda estritamente black metal, o Sangue de Bode bebe dessa fonte enquanto expande suas fronteiras, incorporando elementos de death, thrash, hardcore e groove.

Essa mistura não é apenas sonora, mas também um posicionamento dentro da cena. A alcunha “black metal”, em seu sentido mais literal, carrega um histórico problemático que a banda rejeita abertamente especialmente no que diz respeito a pautas segregacionistas, elitistas e, em alguns casos, associadas a discursos extremistas.

Na prática, eles se definem como metal extremo, um guarda-chuva mais amplo onde cabem diversas influências e, principalmente, onde não há obrigação de fidelidade a códigos de cena.

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Verme reforça que nunca houve cálculo estratégico na construção da identidade da banda. As composições surgem de forma instintiva, atravessadas por experiências pessoais intensas, sem mediação intelectual ou pretensão conceitual. O resultado é um lirismo cru, direto e, por vezes, brutalmente simples.

“Nós sempre fizemos nosso som em primeiro lugar para satisfazer as nossas vontades artísticas. A banda é, acima de tudo, sobre a nossa expressão, sobre o que nos representa e sobre fazer um som que gostaríamos de ouvir. Hoje podemos ter a felicidade de perceber que as pessoas que gostam do nosso trabalho se identificam com o que a gente faz genuinamente, pois nossa dinâmica de trabalho e produção nunca foram exclusivamente direcionadas a algum tipo de reconhecimento comercial, e sim ao nosso desejo autêntico de fazer música.”

Verme

O lançamento de O Funeral de Tudo também impulsionou uma extensa turnê. A banda está na estrada desde abril, rodando o Brasil, e só retorna para casa em agosto. Itinerário e datas podem ser conferidos no Instagram da banda.

O fim como esperança

No centro do novo álbum do Sangue de Bode, O Funeral de Tudo propõe uma reflexão que ultrapassa o colapso individual. O disco imagina um fim simultâneo de tudo — vidas, estruturas e memórias. Nesse apagamento total, desaparece também a própria experiência da perda: se tudo termina junto, não há quem fique para sofrer ou lembrar. O que soa como horror absoluto passa a carregar um traço de alívio.

Em O Funeral de Tudo, não há concessões para facilitar a escuta nem qualquer tentativa de suavizar o impacto. Paradoxalmente, é essa dureza que desperta o interesse do público. Não se trata de um disco confortável; ao contrário, ele evita facilidades a todo custo no som e na lírica. Nesse sentido, poucas obras se mostram tão fiéis à essência da música extrema quanto aquilo que O Funeral de Tudo propõe.

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Isis Correia

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