O trap além do gênero

Kaire Jorge
Foto por @h.agst

Por Kaire Jorge, empresário, diretor executivo da Boogie Naipe e CEO e fundador da Labbel Rec, selo voltado ao desenvolvimento de artistas do trap e da música urbana

Durante muito tempo, o trap foi organizado como um território de limites bem definidos. Existia um som esperado, uma estética reconhecível e uma entrega quase padronizada. O público sabia o que ia encontrar, a indústria sabia o que vender e os artistas entendiam o que era considerado “seguro”. Esse modelo foi importante para estruturar a cena e dar escala ao gênero, mas começa a se esgotar à medida que a própria música exige outros caminhos.

O que vemos hoje não é um afastamento do trap, mas um aprofundamento. Artistas que cresceram dentro do gênero estão buscando expandir referências, tensionar estruturas e experimentar novas formas de construção sonora. O trap deixa de ser apenas uma forma fechada e passa a operar como algo mais fluido, permeável e conectado ao tempo em que é produzido.

Esse movimento acontece em paralelo a uma mudança mais ampla na forma como consumimos música, profundamente atravessada por recortes geracionais. O streaming dissolve fronteiras entre cenas e coloca diferentes sonoridades lado a lado, mas cada geração se relaciona com esse fluxo de maneira distinta. Millennials e young millennials tendem a consumir música de forma mais expandida: escutam álbuns completos, acompanham trajetórias e se interessam pelo artista como narrativa: sua vida, seus posicionamentos, sua estética e seu processo criativo.

A Geração Z, por outro lado, se aproxima da música de forma mais fragmentada. A descoberta muitas vezes acontece por um recorte específico – um trecho, uma atmosfera, um visual – antes mesmo do entendimento do projeto como um todo. Ainda assim, é uma geração altamente aberta à mistura, ao híbrido e ao deslocamento de gêneros. Já a Gen Alpha cresce em um ambiente em que a música não existe isolada: ela nasce integrada ao audiovisual, ao jogo, ao meme e ao fluxo contínuo das plataformas. O som deixa de ser apenas um produto e passa a ser parte de um ecossistema de linguagem.

Essa transformação não acontece apenas no campo artístico. Ela acompanha uma mudança estrutural da própria indústria musical. Segundo o Global Music Report 2026, da IFPI, o mercado global de música gravada movimentou US$ 31,7 bilhões em 2025, registrando crescimento de 6,4% e alcançando o décimo primeiro ano consecutivo de expansão. O streaming segue como principal motor desse crescimento, respondendo por quase 70% de toda a receita global da indústria e gerando mais de US$ 22 bilhões no último ano. Mais do que um dado econômico, esse cenário ajuda a explicar por que os artistas se sentem cada vez mais autorizados a explorar novos caminhos criativos. O acesso ampliado e a redução das barreiras de descoberta permitem que nichos encontrem audiência em escala global, criando espaço para propostas menos previsíveis e mais autorais.

Esse cenário impacta diretamente o trap. Um gênero que sempre teve a mistura como origem, mas que por muito tempo foi empurrado para uma leitura mais engessada. No Brasil, porém, essa transformação acontece em um ecossistema urbano que nunca foi completamente compartimentado. Trap, rap e funk se atravessam, artistas circulam entre diferentes cenas e o público transita por essas linguagens com cada vez menos preocupação em classificá-las. A fronteira entre os gêneros passa a importar menos do que a identidade construída por cada artista.

Essa força também já ultrapassa as fronteiras do país. O Brasil avançou 14,1% nas receitas de música gravada em 2025 e subiu para a oitava posição entre os maiores mercados fonográficos do mundo. No Spotify, artistas brasileiros geraram cerca de R$ 2 bilhões em royalties ao longo do ano, crescimento de 24% em relação a 2024. O português também foi o idioma que mais cresceu entre aqueles que geraram mais de US$ 100 milhões em royalties na plataforma, enquanto o funk brasileiro registrou crescimento de 36% – o maior entre os gêneros que ultrapassaram US$ 50 milhões em royalties. Esses números apontam para uma mudança importante: a música urbana brasileira não está apenas absorvendo referências internacionais. Ela também começa a exportar suas próprias linguagens.

Quando artistas começam a se mover para além da fórmula, o choque é inevitável. Parte do público espera X e recebe Y. O estranhamento surge rápido, acompanhado de discursos sobre “perda de identidade” ou “descaracterização”. Mas existe uma contradição evidente: quando o artista repete demais a mesma lógica, a crítica também vem. Reclama-se do cansaço, da previsibilidade e da sensação de produto pronto. O problema nunca foi a mudança. É a expectativa de imobilidade.

Vejo esse processo de forma muito concreta nos projetos que acompanho. A Duquesa, ao lançar o EP SIX, escolheu a experimentação como discurso a partir de um diálogo mais aberto com referências do pop e do rock, deslocando expectativas tanto sonoras quanto estéticas. Não se trata de ruptura, mas de afirmação da autonomia artística. O trap permanece como base, mas passa a conviver com novas camadas de arranjos, interpretação e presença vocal. O gênero segue ali, mas expandido.

No caso do Danzo, em seu lançamento mais recente, DOISMILEVINTEHOJE, esse movimento aparece de forma ainda mais explícita na faixa foco, que conta com a participação de Yuri Redicopa. É ali que referências marroquinas se materializam como pesquisa sonora integrada à narrativa do projeto. Esse gesto aponta para um deslocamento importante: a necessidade de globalizar o repertório de forma real, e não automática. O trap brasileiro ainda carrega uma dependência simbólica das referências norte-americanas como eixo principal. Quando um artista busca outras matrizes culturais e sonoras, ele passa a dialogar com o mundo de forma mais ampla e complexa.

Já o Yunk Vino talvez seja o exemplo mais evidente de como a diferença pode se tornar identidade. Seu som nunca operou dentro dos padrões mais óbvios da cena e, justamente por isso, construiu uma assinatura própria. Não à toa, ele tem um público de mais de 2 milhões de ouvintes mensais. Quando existe coerência estética e verdade artística, o público aprende a escutar de outro lugar. A estranheza inicial vira reconhecimento.

Esses movimentos revelam algo essencial: o trap brasileiro entrou em uma fase em que a técnica já foi dominada. O próximo passo acontece quando o artista passa a se perguntar não apenas “como soar”, mas “o que dizer”, “de onde vêm minhas referências” e “que mundo minha música constrói”. Esse tipo de inquietação não indica crise. Indica amadurecimento.

Ao olhar para o mercado norte-americano, essa leitura fica ainda mais clara. Nos Estados Unidos, esse ecossistema existe há muito mais tempo. O hip hop já passou pela fase da consolidação, da explosão comercial, da saturação de fórmulas e hoje opera em um estágio em que a fragmentação não é vista como problema, mas como consequência natural de um gênero que cresceu demais. Lá, o mainstream deixou de ser o único centro de validação e passou a ser apenas um dos possíveis desdobramentos.

Essa maturidade também se reflete nas formas de consumo que vão além do streaming. Nos Estados Unidos, o hip hop construiu uma relação mais ampla com o público, que não se limita à escuta digital. A venda de vinil ocupa um lugar relevante como extensão da experiência artística. Álbuns são pensados como obras completas, com conceito, identidade visual e valor simbólico capazes de circular também no formato físico. Segundo a IFPI, as receitas provenientes de formatos físicos cresceram 8% em 2025, enquanto o vinil registrou alta de 13,7%, alcançando o décimo nono ano consecutivo de crescimento global.

O dado ajuda a entender uma mudança importante no comportamento do consumidor. Em um cenário onde a música está disponível em abundância, o valor passa a estar cada vez mais na experiência. O álbum deixa de ser apenas um conjunto de faixas e volta a ser percebido como objeto cultural, peça de coleção e extensão da identidade artística.

O ouvinte não consome apenas música, mas o artista como obra e trajetória. Shows, produtos físicos, edições especiais e experiências presenciais fazem parte da lógica de sustentação da carreira. O streaming continua central, mas não é o único pilar. Essa diversidade de formatos cria espaço para risco, tempo e desenvolvimento.

No Brasil, essa relação ainda está em construção. O streaming concentra grande parte da validação e da receita, o que torna o mercado mais sensível a números imediatos e menos tolerante ao processo artístico. Quando um projeto não performa rapidamente, tende a ser lido como fracasso, e não como etapa de desenvolvimento. A dependência de uma única métrica estreita o espaço para experimentação.

Esse crescimento também muda a natureza da disputa. Em um cenário de crescimento acelerado, a disputa deixa de acontecer apenas por audiência e passa a envolver diferenciação. Quanto mais a cena amadurece, menos espaço existe para a simples reprodução de fórmulas. A vantagem competitiva passa a estar na capacidade de construir repertório, identidade e linguagem própria.

Talvez o maior sinal de maturidade do trap brasileiro não seja sua capacidade de produzir sucessos, mas sua disposição para correr riscos. Em uma indústria que já reúne mais de 837 milhões de assinantes pagos de streaming ao redor do mundo, a abundância de oferta torna a originalidade um ativo cada vez mais valioso.

Talvez o ponto central seja entender que o trap não precisa caber em uma definição única. Assim como os artistas que o constroem, ele é múltiplo, atravessado por referências, experiências e contextos distintos. Quando a música ganha fluidez, ela não perde identidade. Pelo contrário: encontra novas formas de existir. E é justamente nesse espaço, menos previsível e mais honesto, que o trap brasileiro começa a desenhar seu próximo capítulo.

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