Os 10 melhores momentos do Favela Sounds segundo seus idealizadores

Celebrando uma década de história, o festival Favela Sounds transforma, mais uma vez, o Museu Nacional da República, em Brasília, em ponto de encontro para a música que movimenta e conecta as periferias brasileiras às culturas urbanas mundo afora.
Nos dias 31 de julho e 01 de agosto de 2026, o público do maior festival de cultura de favela do Brasil acompanha 19 shows na programação do Palco Petrobras, que é gratuita e marcada por artistas do rap, trap, tecnobrega, afrobeats, samba e funk brasileiro.
Sobem ao palco nomes como Gaby Amarantos (PA), Valesca Popozuda (RJ), Faizal Mostrixx (Uganda), DJ Cia (SP), Stefanie (SP), ENME (MA), Bia Soull (PR) e mais. Os ingressos podem ser retirados através do Sympla.
Desde 2016, o Favela Sounds reuniu um público de cerca de 197 mil pessoas e apresentou, muitas vezes de forma inédita, 184 artistas do Brasil e de outros 13 países.
Muitos se apresentaram por lá antes de estourar nacionalmente, como Baco Exu do Blues, N.I.N.A. e BaianaSystem. Nomes consagrados também já passaram pelo palco do evento, como Criolo, Jorge Aragão, Black Alien e Xande de Pilares.
No campo da formação e capacitação, com a conferência Favela Talks, foram realizadas 52 oficinas, 68 debates e diferentes laboratórios e residências artísticas em todo o DF. A programação é sempre gratuita.
Em celebração a uma década de Favela Sounds, seus criadores e idealizadores Amanda Bittar e Guilherme Tavares listaram (com exclusividade) os 10 melhores momentos para o TMDQA!. Confira abaixo!
Os 10 melhores momentos do Favela Sounds segundo seus idealizadores
10. A estreia de Baco Exu do Blues no circuito de festivais
“A gente já curtia o som. Quem fez a ponte foi Rogério Big Bross, lendário produtor do rock da Bahia, que nos passou o email que ele tinha decorado de cabeça. Foi um cachê super modesto. Baco quase bota o festival abaixo. Ficamos chocados! Foi em 2017, o álbum de estreia dele só tinha dois meses e, como assim, tanta gente pra ver? Era Esú, entidade e orixá fundamental em nossa trajetória”.

9. Um caso de amor com Deize Tigrona
“Deize é nossa referência do funk! ‘Injeção’ está na nossa lista de funks favoritos desde a infância. Não sabíamos o que esperar de uma contratação dela. Ela não estava tocando muito na época e tinha tempo que a gente queria essa Deusa com a gente. Pedimos a uma amiga em comum para acompanhá-la, na garantia de que ela viria! Ela veio em 2017 pela primeira vez e foi um dos shows mais lindos que já fizemos – ela não queria ir embora de jeito nenhum. Começava ali um namoro que dura até hoje. Deize voltou pro Favela Sounds em 2023, gigantesca, num show inesquecível com direito a calcinha atirada no palco. Ela passou mal de rir com esse momento Wando! Talvez o primeiro da carreira. No ano seguinte, fomos gravar nossa série na casa dela, na Cidade de Deus. Hoje, ela vive na Europa, onde tem tido um merecido reconhecimento, no momento em que o funk se torna uma febre global. Tava escrito: Deize é uma das maiores do nosso tempo, artista genial!”

8. Criolo
“Em 2022, a gente fez o maior show da história do Favela Sounds até hoje. Era o pós-pandemia, o público estava muito eufórico, e aquele foi o nosso recorde de público, com 55 mil pessoas. Quando o show estava prestes a começar, a fila do evento (no Museu Nacional) chegava até a rodoviária. Era muito mais do que a gente esperava e a tensão na produção só aumentava. Eu corri para a entrada porque a polícia tinha chegado. Para meu alívio, era um sargento que já conhecia o festival e sabia que era feito com muita responsabilidade. Confiava na nossa produção. Ele perguntou se todo aquele povo cabia lá dentro e se a gente tinha segurança para dar conta. Eu dizia que sim, enquanto trocava olhares com a equipe pensando: ‘A gente vai ter que sustentar isso.’ O público que aguardava a entrada estava ansioso, se queixando da espera. De repente o sargento falou ‘vou resolver’ e eu entrei em pânico. Minutos depois, várias viaturas vieram pela contramão do Eixo Monumental, com as sirenes ligadas. Achei que alguma coisa muito grave ia acontecer, mas elas só estacionaram em frente ao evento, desligaram as sirenes, a fila inteira se acalmou e a entrada voltou a fluir. No fim, deu tudo certo e todo mundo conseguiu entrar pra assistir esse show histórico. São as imagens de drone mais lindas que temos do Favela Sounds”- Amanda Bittar.

7. O literal calor causado pelo BaianaSystem
“Este foi o primeiro grande show do BaianaSystem (de muitos!) em Brasília. O show do álbum ‘Duas Cidades’ veio para o nosso palco em 2017, através de uma parceria com o festival Satélite 061 (na época, o mais importante festival independente de música do DF, da produtora Marta Carvalho). A tenda ainda era pequena e ficou muito quente lá embaixo, mas ninguém se importou. Ali, Russo Passapusso selou sua parceria eterna com a capital. Sempre que vêm, bombam!”

6. O encontro de MC Mari e Jup do Bairro
“Encontros sintetizam bem o Favela Sounds. A MC Mari estava bombada com o bregafunk ‘Senta Concentrada’. A gente amava. A Jup do Bairro sempre teve nossa admiração e estava divulgando seu primeiro álbum. A sonoridade disruptiva estava ilustrada por um figurino todo preto, fúnebre. MC Mari estava em cor neon, com um balé reboladeiro. Era 2021 e estávamos gravando lives para a edição virtual que rolou durante o triste período pandêmico. Esses shows foram capturados em São Paulo, em sequência. Lembro como se fosse agora: Jup em cena, performance a mil, sombras e silêncios que faziam parte do que ela queria dizer. E chega uma turma laranja e rosa, quicando no estúdio. Era o sol encontrando com a lua. MC Mari não conseguia conter o estranhamento que também tinha um lugar de encanto. Ficou ali o tempo todo vendo a Jup performar. Depois foi pra cena incendiar a live. Jup não foi embora. Quis ver o show todinho, rebolando a raba. No final as duas se falaram, se admiraram… Um dos encontros mais inusitados que eu vi no festival. E ele tem esse lugar importante, de misturar linguagens e provocar sensações, até nas artistas mais ousadas”. – Guilherme Tavares

5. Chico César deu o recado
“Em 2025, o Favela Talks ficou mais robusto e, pela primeira vez, teve três noites de showcases, cada uma encerrada por um artista de renome nacional. Quando surgiu o nome do Chico César nas conversas de programação, bateu muito certo. Eu estava escutando muito as músicas dele naquela época e a gente fez vários rearranjos financeiros para conseguir viabilizar essa contratação. Ao mesmo tempo, foi um ano muito duro para mim: foi quando recebi o diagnóstico de burnout. Então, toda aquela produção acabou sendo especialmente difícil e exaustiva.
No dia do show, sentei na primeira fileira do Teatro do SESI Taguatinga com o Gui, amigos e familiares. Quando o Chico César começou a cantar ‘Quando não tinha nada, eu quis. Quando tudo era ausência, esperei…’, eu fui às lágrimas. Foi um momento muito simbólico, porque ele é um artista que faz parte da minha memória afetiva, da minha relação com a música e com a minha família. Naquele instante, eu lembrei por que faço esse projeto e por que, mesmo atravessando um momento tão delicado da minha saúde mental, ainda fazia todo sentido estar ali. Até hoje, esse continua sendo um dos momentos mais especiais da minha trajetória com o festival.” – Amanda Bittar

4. As bailarinas do MC Tocha
“Temos um caso de amor com o bregafunk e o primeiro artista do estilo a pisar no nosso palco foi o MC Tocha. Ele é demais, mas quem me encantou nesse dia foram as bailarinas. Durante a passagem de som, elas não paravam de andar, nervosas, rindo. Eu cheguei perto para perguntar o que estava rolando… ‘É que a gente tá se sentindo muito artista!’. Eu respondi: ‘como assim, mias fias, vocês são artistas!’ A resposta: ‘Ah é, né?’ Demos risada. Talvez isso sintetize o que é o Favela Sounds. Esse palco de auto-reconhecimento. Muitos passam a ter convicção de suas carreiras e de suas importâncias quando pisam ali. Porque fazer música em favela quase nunca são flores… Muitos tem mil e um empregos, pedem licença para viajar e mostrar algo regional que acaba virando global”. – Guilherme Tavares

3. O rasante de Milton Cunha, um uirapuru que sobrevoou o Favela Sounds
“No Favela Sounds de 2023, eu andava ali aparvalhado, com milhões de coisas para resolver, e a Carol Borges me chama: ‘Guilherme, tem uma pessoa que quer muito te conhecer’. Vou pro lounge e lá estavam o presidente da Portela, sua esposa e o divo Milton Cunha. Eu pisquei três vezes para entender se era verdade. Aquela entidade do carnaval dentro do nosso carnaval? Era loucura. Mas era verdade. É claro que o Milton Cunha tinha que conhecer o Favela Sounds. Ele me fez brotar uma memória que está para sempre na minha cabeça. Olhou para a plateia, olhou para o palco. De longe estávamos, mas ele viu tudo como se fosse um drone. Botou uma mão e a outra no alto, foi abrindo os braços e encenando, num tom que eu posso reproduzir fielmente: ‘Favela Sounds, uma revolução. Adorei, querido.’ Deu um abraço e ficou por ali, curtindo. Teve Toninho Geraes em uma noite que era a cara dele. Vi que ele gostou muito. Pra mim, foi um reconhecimento do astral, um presente. Milton Cunha hoje é, talvez, uma das maiores sumidades não só do carnaval, mas do pensamento brasileiro. E eu fico muito feliz de esse uirapuru ter dado um rasante dentro do nosso evento.” – Guilherme Tavares.
2. Jorge Aragão no meio dos 9vin
“Jorge Aragão dispensa qualquer comentário, certo? Ele é um deus na poesia e no samba. O show foi épico. Primeiro porque Jorge flexibilizou tudo para poder estar conosco. E depois porque o cara veio com tudo. Aquela fofura de vovozinho. Talvez o mais velho da plateia tivesse uns 35 anos. Jorge estava ali, com mais de 70. Ele foi cantando, cantando e, de repente, reparou que estava cantando para uma molecada. Vira e fala: ‘Acho que é a plateia mais jovem para quem eu já cantei em muito tempo. E eu estou muito feliz de ver que vocês têm tudo isso na boca, na ponta da língua.’ Assim terminou o show, numa emoção e numa energia inexplicáveis. A relação do Jorge Aragão com Brasília é muito natural, ele tem composições que homenageiam a cidade. Acho que esse foi um dos shows mais importantes que já fizemos. Ele une os amores musicais meus e da minha sócia, Amanda. Queremos, um dia, repetir Jorge Aragão no Favela Sounds.” – Guilherme Tavares.

1. Xande de Pilares se firmando em carreira solo
“Xande estava super mal com a saída do Revelação, achava que seria o fim de sua carreira, que não tinha mais caminho. Nós sempre fomos pagodeiros e o temos como uma grande referência. O ano era 2017. Lembro que quando acabou o show, me chamaram no rádio para avisar que Xande queria conhecer os responsáveis pelo festival. Cheguei ao camarim e, quando entrei, ele me deu um abraço forte. Disse que estava muito emocionado, que tinha sido um show inesquecível. Que a troca com o público tinha sido tão calorosa que ele levaria aqueles momentos como dos mais marcantes da sua carreira. Lembro de dizer: ‘Sei que você já tocou em palcos muito maiores que este, então fico muito feliz que o Favela Sounds tenha te marcado tanto’. E ele me respondeu: ‘Aqui não tem isso não. Para um público desses, a gente toca até em cima de engradado de cerveja’. Agradeci, disse o quanto era fã, perguntei se minha mãe (carioca e pagodeira) poderia tirar uma foto com ele. Ele a recebeu com um sorriso no rosto.
Anos depois, em 2023, estivemos com Xande para uma entrevista feita para um programa especial sobre o Favela Sounds na Globo. Ele nos contou, muito emocionado, que aquela apresentação foi fundamental para que voltasse a acreditar que seria possível trilhar outros caminhos na vida. Que após a saída do Revelação estava desesperançoso e triste e que naquele momento, no nosso palco, ele saiu revitalizado. Ele chorou algumas vezes, agradeceu muito. Até hoje temos esse show na memória, mas só seis anos depois fomos entender que aquele momento realmente tinha sido inesquecível para ele.” – Amanda Bittar

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