Poeta Visual e Willy Hajli transformaram os 10 anos de “Castelos & Ruínas”, de BK’, em linguagem audiovisual e premiação

Há dez anos, Castelos & Ruínas se consolidava como um dos álbuns mais marcantes do rap brasileiro. Para marcar essa década, BK’ encontrou em Poeta Visual (Arthur Lopes) e Willy Hajli os diretores certos para transformar essa trajetória em imagem não como uma simples celebração de aniversário, mas como um ensaio visual construído a partir de memória, identidade e da dualidade entre sombra e luz.
O projeto, produzido pela Moonheist, acaba de conquistar Ouro no Young Director Award (YDA), premiação internacional criada em 1998 pela CFP-E (Commercial Film Producers of Europe) para reconhecer novos talentos da direção audiovisual. O anúncio aconteceu em Cannes, durante a programação do Cannes Lions 2026, colocando um projeto nascido da relação pessoal de um fã com a obra de seu artista favorito ao lado de produções de diferentes mercados do mundo.
Mais do que um reconhecimento técnico, o prêmio carrega um significado simbólico para os diretores: o de abrir espaço para uma nova geração de realizadores brasileiros, formada fora dos caminhos tradicionais do audiovisual. Poeta, por exemplo, começou fotografando com o celular antes de se consolidar como uma das vozes mais autorais do cenário atual, uma trajetória que ele próprio reconhece como parte estruturante da linguagem que hoje assina.
Entrevistamos Poeta Visual e Willy Hajli, que falam sobre o processo de recriar uma obra já consolidada há uma década. Confira abaixo!
TMDQA! Entrevista Poeta Visual e Willy Hajli
TMDQA!: Castelos & Ruínas já é uma obra consolidada há uma década. Qual foi o maior desafio de propor uma versão audiovisual de algo que já tem um significado tão forte para o público?
Poeta: Acredito que o fato dessa obra já ser consolidada, com todo esse processo de dez anos, foi justamente o que potencializou nossa narrativa visual. Decidimos nos nutrir desse contexto e dessa história, em vez de buscar referências externas a própria obra já nos alimentava. As referências vieram do próprio BK’. Foi essa consolidação que tornou a narrativa tão potente.
Willy: Criar um trabalho audiovisual de Castelos & Ruínas foi, acima de tudo, um mergulho na própria trajetória do BK’ como artista e ser humano. Compreender seu universo e, a partir dele, conceber algo próprio. É um trabalho de dentro para fora: estar circunscrito ao material original, mas permitir que nosso olhar ofereça uma perspectiva única, vinda de nossas próprias experiências, sensações e desejos.
TMDQA!: Poeta, em que momento você sentiu que a história do BK também virou, de alguma forma, a sua própria história?
Poeta: Isso é engraçado, porque, como comentei com amigos durante esse processo, esse filme faz parte de uma pesquisa da minha vida inteira. Desde que me entendo por gente, inclusive politicamente e socialmente, eu ouço Castelos & Ruínas. Tinha 13 anos quando o álbum foi lançado, então ele fez parte da minha construção de caráter e de ser humano. Quando veio o convite, pensei: essa é uma pesquisa que eu já faço há dez anos, tenho muito o que falar e para onde olhar. Foi nesse momento que percebi que a obra do BK reflete na minha história desde muito novo.
TMDQA!: Willy, você comenta que o “Castelo” é como o registro do feminino e a “Ruína” é como o masculino, com BK entre os dois pontos. Como vocês chegaram nessa chave de leitura para estruturar o filme?
Willy: O álbum é permeado de dualidades, de conflito, de ideias que se chocam em movimento constante. Sabíamos que o filme deveria oferecer uma perspectiva sobre o passado, mas também uma projeção de futuro, do que está por vir. Nesse ponto, entendemos que deveríamos contar uma trajetória. Partimos primeiro da figura da mãe: é ela quem narra ao filho em seu ventre tudo aquilo que ele viverá. A partir disso, entendemos que o filme precisava demonstrar visualmente tudo o que se passou, uma espécie de diálogo metafísico em que BK’ surge como interlocutor. Nesse ponto, a figura da mãe passou a ser a chave do passado, a redoma, e a rua, o externo, passou a significar os caminhos que ele deveria percorrer.
TMDQA!: Sobre a esperança de abrir espaço para outros talentos que ainda esperam a chance. Na visão de vocês, o que falta hoje pro mercado brasileiro dar mais essas oportunidades?
Poeta: Pode soar um pouco duro, mas acredito que falta ao mercado quebrar o ego e entender que o novo também tem potencial e valor. Principalmente no cinema, existe uma tendência a valorizar um profissional pela quantidade de filmes que já fez ou pelos anos de carreira. Mas essa oportunidade foi justamente a prova de que a união entre experiência e o novo pode levar a caminhos potentes. Quebrar esse ego significa permitir que a gente enxergue e ouça novas perspectivas, vivemos uma nova época, de internet, em que consumimos muita coisa o tempo todo, e isso nos leva a questionar o que é vazio e o que realmente preenche. Falta ao mercado olhar para nós, novos artistas emergentes, como uma voz em potencial e revolucionária.
Willy: Olhar para novos talentos é permitir que narrativas distintas ganhem espaço para serem vistas. É preciso que haja um esforço de nutri-las e apoiá-las, o que envolve uma perspectiva financeira, estrutural e, acima de tudo, de liberdade para que seja oferecida uma visão particular, íntima e original.
TMDQA!: Esse reconhecimento internacional muda algo na forma como vocês pensam os próximos projetos, tanto em ambição quanto em processo?
Poeta: O que muda é que eu não acredito mais no impossível, e ter esse caminho traçado vai fazer com que os próximos projetos cheguem em escalas ainda maiores. Um dos pontos mais significativos desse projeto pra mim foi mostrar que nós, brasileiros, temos capacidade de fazer um filme de potência mundial. Nada nos limita. Sei que o caminho é difícil, mas isso já está dentro da nossa perspectiva agora. Quero ser finalista desse prêmio todos os anos. Esse projeto fez com que eu não temesse mais nada.
Hoje entendo que uma ideia que sai da minha cabeça tem total capacidade de ser reconhecida nos maiores holofotes do mundo, e isso potencializa tudo: quando a gente acredita no que faz, e outras pessoas também acreditam e reconhecem esse trabalho, muda a perspectiva de todo mundo que esteve envolvido. Não teve segredo, a gente teve uma ideia, acreditou nela como profissionais, e essa ideia nos levou até aqui.
Willy: O reconhecimento é sempre algo legal, mas não acho que ele deva ditar a maneira como os projetos são concebidos. Cada história sugere seus próprios caminhos. Como realizador, minha função é entender quais as ferramentas necessárias para que uma determinada narrativa ou temática encontre sua forma mais pura e bela de existência, independente da forma.
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Nina Shimazumi




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