Pra Ficar de Olho: a sutileza de João Carvalho, entre a humanidade e a natureza

“Mas no centro do vazio há outra festa” – a provocação, emprestada dos versos do poeta Roberto Juarroz, não é apenas o norte conceitual de Uma Festa no Centro do Vazio, novo álbum solo do mineiro João Carvalho. Ela é, acima de tudo, um portal de retorno. Após o hiato dos palcos e das produções pandêmicas, o músico – conhecido pelas texturas densas de seus projetos Sentidor, Rio Sem Nome e pela catarse coletiva da banda El Toro Fuerte – ressurge com uma obra que faz o caminho inverso do isolamento: um disco que busca o chão, o toque, o cheiro de café passado e o horizonte aberto das estradas de Minas Gerais.
Se em seus trabalhos anteriores João investigava o ruído e o escombro urbano, aqui ele propõe uma arqueologia do afeto. Gestado ao longo de três anos entre viagens pelo interior mineiro e capixaba, o álbum nasceu do contato do artista com comunidades tradicionais e ribeirinhas impactadas pela mineração. O resultado, contudo, passa longe do panfletarismo óbvio.
João Carvalho transformou o lamento da terra em uma mística do recomeço. É um trabalho que soterra as distâncias e as arbitrariedades do tempo para fazer emergir o que realmente importa: a memória que resiste no corpo e o calor das nossas raízes.
O disco soa como aquela viagem de volta para casa, cruzando as curvas das montanhas em direção ao abraço dos avós, com direito a parada num posto para comer pão de queijo e rir com a família. É a música da hospitalidade, feita para tocar na sala de uma casa antiga, cheia de primos e tios, onde o barulho do mundo lá fora finalmente cessa para dar lugar à escuta sincera.
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Uma arquitetura de terra, vento e calmaria
A jornada pelas nove faixas de Uma Festa no Centro do Vazio é um exercício de desaceleração. O folk-rock espacial, que bebe diretamente das fontes etéreas de Fleet Foxes e Radiohead, se funde de maneira indissociável à tradição telúrica do Clube da Esquina, de Tom Jobim e da espiritualidade viva de Luiza Brina. Em “Cabana”, o ouvinte é recebido por uma bossa psicodélica que o próprio compositor define como “uma cachoeira iluminada pelo sol num começo de manhã”. Há uma doçura quase compulsória ali, um convite para tirar os sapatos e pisar na grama.
Essa calmaria orgânica, no entanto, é constantemente tensionada por sutis provocações estéticas. Em “Filho Único”, o fluxo folclórico é interrompido por um sonho febril de guitarras tortas e interferências digitais; são os glitches da modernidade lembrando que a beleza do disco está justamente na cicatriz, no contraste entre o sagrado e o profano, o ontem e o hoje.
A força coletiva da cena independente de Belo Horizonte se faz presente na espinha dorsal dos arranjos. Co-produzido por João em parceria com Bernardo Bauer e Felipe D’Angelo, o álbum se agiganta nas participações.
A voz hipnótica de Clara Bicho na faixa-título traz um contorno holístico que flutua entre o medo da morte e o desejo de transcendência. Mais adiante, a percussão inspirada em Baden Powell e o transe afro-brasileiro de “Tartaruga” mostram que a memória da terra também se entalha pelo ritmo.
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O mistério da matéria que não tem fim
Na reta final, o disco deságua em uma sequência de beleza arrebatadora. “Espumas” usa o violão, o violoncelo e o som das ondas para cantar sobre as dunas de Itaúnas que soterraram uma antiga vila, mas cujos traços ainda insistem em reaparecer. É a metáfora perfeita para o amor que se perde no tempo mas se reencontra em outra formação química, no mistério da transformação contínua da matéria.
O encerramento com “Serra do Caraça/Itaúnas (Para Milton)”, que traz a presença fraterna de Fernando Motta nos vocais, amarra todos os nós do projeto. É uma ode onírica a Milton Nascimento e à sua Missa dos Quilombos (1982), um manifesto inocente e ancestral de fuga das cidades em busca de um tempo sem opressões, onde o ser humano finalmente se reconcilia com a natureza.
Ao fim da audição, fica a certeza de que João Carvalho teceu um emaranhado de sonhos banhados pelo sol. Uma Festa no Centro do Vazio é o abraço da bisavó transformado em som; um disco de arranjos emocionantes e simplicidade cortante que nos lembra que, mesmo quando o centro parece deserto, a nossa música ainda sabe como reunir a família ao redor da mesa para celebrar a permanência do afeto.
É de fato, Pra Ficar de Olho.
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Eduardo Ferreira
Pra Ficar de Olho: a sutileza de João Carvalho, entre a humanidade e a natureza




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