Pra Ficar de Olho: lançamentos, shows e coisas mais

O silêncio das grandes cidades é uma mentira muito bem contada. Por trás do zumbido anestesiante do trânsito e do falatório automático das calçadas, existe uma frequência que opera em outra rotação.
É o som de uma lixa desgastando a madeira de uma baqueta nova, o estalo de um cabo P10 sendo plugado no escuro e o suspiro de quem passou a madrugada inteira tentando traduzir uma angústia em três acordes. A música independente no Brasil nasce porque o peito de alguém ficou pequeno demais para guardar aquela história.
Navegar por esse ecossistema é entender que as melodias mais bonitas do ano passado e as canções que vão salvar o seu próximo mês quase nunca são geradas em escritórios espelhados. Elas ganham vida em cozinhas de azulejo antigo onde o café esfria enquanto se discute o arranjo dos metais, ou em salas de apartamento com o chão forrado de colchões para abrigar a banda que veio tocar na cidade sem dinheiro para o hotel. Existe uma engenharia da teimosia que move a nossa cena: o festival que acontece porque amigos decidiram carregar caixas de som nas costas, o lançamento que ganha o mundo porque um produtor genial transformou um microfone barato e um computador lento em pura magia analógica.
Há uma beleza crua e profundamente humana em testemunhar esse parto. Longe da curadoria cirúrgica e fria das grandes plataformas, a música real esbarra na gente, suja a nossa roupa de cerveja, faz o peito vibrar perto do amplificador e nos conecta a sotaques que a TV teima em ignorar. É a urgência de quem precisa cantar para não sufocar, seja sob a névoa de um porão de rock, na cadência calorosa de um neo-soul que redesenha o asfalto ou nas cores de um pop que abraça as próprias esquisitices.
Se o algoritmo insiste em te mostrar mais do mesmo, eu prefiro o risco do inesperado. Vem abrir as janelas para deixar entrar o som que vem do porão, dos quintais e dos palcos que a pressa do dia a dia não te deixa ver.
Abaixo, você encontra o pulso atualizado das nossas ruas: os shows que vão trazer memórias singulares, os lançamentos que acabaram de sair do forno, os artistas que estão reinventando o mapa sonoro do país e tudo aquilo que cabe dentro desse universo que só entende quem participa ativamente.
A música de verdade está acontecendo agora, e é Pra Ficar de Olho, sem piloto automático.
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Pra Ficar de Olho: artistas, do Brasil, para o mundo
MARIA FLOR – “Pra Ficar”
MARIA FLOR é daquelas artistas que você se encanta na primeira palavra cantada. Talvez você possa a reconhecer como “Flor Grassi”, por conta de lançamentos passados e pela forma como podemos a encontrar nas redes sociais, mas a artista continua com a mesma maturidade musical e influências cada vez mais consolidadas.
Reverberando seu carinho pela música nacional, em “Pra Ficar”, nos damos conta de uma história de amor, das quais o clichê fala mais alto e o romantismo toma conta do nosso corpo com arranjos e produção cruciais para um pop dançante. Com guitarras de Thiago Caldas, baixo de Pedro Carceroni, bateria de Rafael Baino, teclado de Bê Moreira e violão de Dan Oliveira, a faixa encanta com os seus detalhes simplistas e clipe feito entre amigos.
Se no “mês dos namorados” você ocasionalmente deixou o amor bater na porta, “Pra Ficar” é o match perfeito para sua playlist.
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Morro Fuji – “Ainda nem doeu”
Ainda nem doeu é um álbum para todas as ocasiões. A Morro Fuji é um quinteto do ABC Paulista que transforma brasilidades, shoegaze, indie rock e coisas mais em algo completamente singular – e eu entendo, os vocais da Angela [Destro] e o instrumental tão carregado de sentimento nos fazem nos perdermos nas palavras, é difícil de explicar.
Formada pela própria Angela (responsável por um disco solo no último ano que merece seu destaque), Leonardo Pacheco, Natan Bertolino, Nícolas Farias e Pietro Demarchi, a banda te hipnotiza com suas letras e personalidade, entregando um disco cheio de sentimento e principalmente humano (existe algo mais bonito do que nos expressarmos através da arte?).
Sem seguir tendências, sem se confortar no óbvio, os 34 minutos de Ainda nem doeu passam tão rápidos que te fazem querer mais e mais. Entretanto, ao final, um sorriso bobo aparece em seu rosto. Testa aí, vai.
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AGUIDA
Se a indústria da música costuma ser uma esteira de montagem, AGUIDA decidiu que seria a fábrica inteira. O cara passou os últimos cinco anos no silêncio dos bastidores, operando na sombra de gigantes – canetando hits para Luísa Sonza, somando com o JUNIOR e carimbando o selo BMG no currículo. Mas, o verdadeiro plot twist não foi o que ele fez pelos outros, e sim o que ele acumulou para si.
Aos 28 anos, ele voltou não apenas como um cantor, mas como um arquiteto sonoro cirúrgico. Dentro do próprio home studio, ele costurou o pop melódico, o peso do hip-hop e a espinha dorsal do R&B, controlando desde a primeira linha da letra até a engenharia do último beat. Para dar o polimento final nesse ecossistema, escalou um time de peso e o resultado? Uma estética de alta fidelidade que não perdeu um miligrama de alma.
No próximo ano, promete lançar um álbum, e com certeza vai surpreender muita gente.
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Barbarelli
Todo mundo já se deparou com algum nome que foi uma paixão instantânea, e quando foi conferir o perfil desse(a) artista nos streamings: duas faixas lançadas. Uma facada no peito.
Bom, essa é a minha história com Barbarelli, uma recomendação musical de uma amiga e colega de trabalho (beijos, Liz!). Multi-artista afro periférico, não binário e criado na zona leste de São Paulo, sua capacidade e potencial brilha os olhos de qualquer um que se depara com seu trabalho (e também traz uma espécie de irritação, afinal, como diabos a gente não conhecia antes?).
“Vem Que Vem” é um pop litorâneo que automaticamente traz junto o cenário de uma praia ensolarada, copinho de cerveja na mão, uma dança desengonçada e uma alegria no peito. Muito amor envolvido.
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Dani Bessa – “Monocromática”
Sabe aquela sensação de folhear um álbum de fotos antigo e sentir o cheiro do passado? É exatamente aí que o Dani Bessa te joga. “Monocromática” é um portal pintado com guitarras molhadas, dream pop flutuante e aquela pegada nostálgica que parece um abraço de infância, bebendo direto da fonte de nomes como Mac DeMarco e Wallows. Visualmente, Dani te transporta para um ensaio fotográfico em plenos anos 90, assumindo um tom cômico onde as cores e as texturas gritam mais alto que tudo.
“Monocromática” é o primeiro capítulo desse diário aberto. É música para desacelerar, fechar os olhos e deixar o tempo correr no ritmo dele. Deixar o som te levar e viajar na estética.
Sendo a porta de entrada para Manual do Tempo, ainda dá tempo de dizer que você conheceu antes de pegar alguém cantarolando as faixas do gênio da zona norte do Rio de Janeiro.
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Pra Ficar de Olho: ao vivo é mais gostoso!
Tudo bem, talvez seja muito previsível um jornalista musical escrever que o melhor lugar do mundo é um show regado de boa música e companhias, mas cá entre nós… você já assistiu algum nome/banda ao vivo que não seja presente nas rádios e playlists de gente por todo o mundo? – (e por favor, respeitosamente, nem ouse em me dizer sobre bandas covers).
Depois de tentar traduzir todo o sentimento na introdução desse texto, de recomendar nomes para todos os gostos e tipos de pessoas, se liga nessa agenda abaixo pra você ir atrás de um rolê que provavelmente vai te deixar boquiaberto com a qualidade de quem melhora performance pós performance, lançamento pós lançamento. Se liga!
- Ana Spalter & Carol Maia na Audio Rebel – Rio de Janeiro, (18/06)
- Chococorn and the Sugarcanes + Dallas no O Condado – Manaus, (19/06)
- Walfredo em Busca da Simbiose no Estúdio Central – Belo Horizonte, (21/06)
- Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro no Mamãe Bar (Temporada Handycam) – São Paulo, (24/06)
- banda de casinha floripa (torvelim, chão de taco, gol de goleiro) na Desgosto – Florianópolis, (27/06)
- Dinho (Boogarins) + Ottopapi + Clara Bicho na A Autêntica – Belo Horizonte, (28/06)
- Exclusive Os Cabides + Tangolo Mangos + CACO/CONCHA + Carmino no Basement Cultural – Curitiba, (25/07)
Não existe desculpa: a cena acontece em todos os lugares, ao mesmo tempo, vívida e cheia de graça. Nos encontramos por aí?
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Eduardo Ferreira




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