Pra Ficar de Olho: Serena – Ao Vivo Na Sala Da Casa Da Dona Rachel

Banda Serena, em foto promocional
Reprodução: divulgação

A banda Serena, moldada no underground paulista, colide performance ao vivo, narrativa de curta-metragem e o mais puro suco do caos doméstico, entregando um registro audiovisual que é puro impacto e acidez, sem abrir mão da crueza sonora que corre em suas veias desde os primeiros ensaios.

Após circular com força no circuito independente com o disco Parque Das Ilusões, o grupo eleva o nível do jogo em um projeto que reverencia suas obsessões estéticas (o peso do nu metal, a urgência do pop punk e as texturas cinzentas do rock dos anos 2000). Costurada por explosões emocionais, a live session expõe as tripas de uma banda que usa o humor ácido e a ironia para traduzir o sufoco do cotidiano, transformando o tédio em barulho com a sinceridade típica de quem não quer agradar a todos.

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Do caos à novela das nove

O ponto de partida do projeto é um retrato hiper-realista da realidade suburbana: a banda resolve confiscar a sala da casa de Dona Rachel – mãe do guitarrista e produtor Yuri Muller – para gravar um ensaio ensandecido. No meio do emaranhado de cabos, pedais e microfonia, surge o verdadeiro elemento de tensão: o ultimato materno de que os amplificadores precisam ser desligados antes que a vinheta da novela das 21h comece a ecoar na televisão.

O registro avança em BPMs urgentes e guitarras densas, como se os músicos estivessem correndo contra o relógio do juízo final. O resultado é um contraste delicioso entre o ambiente acolhedor de uma casa de família e o peso catártico do instrumental da Serena.

A direção e o roteiro levam a assinatura de Vitor Zorzetti (que dividiu o texto com Yuri Muller), apostando em uma fotografia claustrofóbica, sombras marcadas e câmeras coladas no rosto dos integrantes para transmitir o calor da performance. Toda a engenharia de som – da captação à masterização – foi operada pelo próprio Yuri Muller dentro das paredes do Pai Muller Studio, garantindo que o peso das apresentações de rua fosse preservado no formato digital.

Para além do choque elétrico inicial, a live session mergulha em uma estética visual escura, que flerta diretamente com os videoclipes icônicos da MTV de duas décadas atrás. O grupo – completado por Renan Tonello, Jacques Chiba e Alan Fontoura – mostra um entrosamento cirúrgico, jogando junto enquanto o cronômetro avança e a paciência de Rachel diminui.

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O volume máximo como sobrevivência

Dividida entre a urgência das canções e esquetes teatrais que quebram a quarta parede, a sessão funciona como uma crônica bem-humorada sobre a teimosia de se fazer rock de garagem no Brasil de hoje. A exemplo do que já haviam experimentado na sátira corporativa do clipe de “Perto do Fim”, os músicos usam o deboche como escudo e a distorção como resposta ao cansaço diário. Como extensão natural do projeto, o áudio bruto das gravações será lapidado e disponibilizado nas plataformas de streaming em formato de EP ao vivo muito em breve.

Com esse petardo audiovisual, a Serena se consolida como uma força indomável e conceitual na cena independente, provando que a música pesada ainda sabe como ser inteligente, visual e profundamente divertida. O lançamento chega para chacoalhar o ano, deixando claro que para esses caras, o volume máximo não é apenas uma escolha estética – é a única regra que eles se recusam a quebrar.

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Eduardo Ferreira

Pra Ficar de Olho: Serena – Ao Vivo Na Sala Da Casa Da Dona Rachel


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