Resenha: “CONFESSIONS II” exorciza os fantasmas do passado com triunfo de Madonna

Madonna, em foto por Rafael Pavarotti
Foto por Rafael Pavarotti

Se a juventude é a moeda de troca mais valiosa do pop atual, Madonna acaba de declarar falência das fórmulas fáceis do mercado para reabrir o seu próprio banco de tendências. Em CONFESSIONS II, disco lançado nesta sexta-feira, a rainha do Pop não quer apenas que você dance; ela exige que você use o corpo como um escudo contra o cansaço do mundo real. O novo trabalho é uma carta de alforria de quem passou a última década sendo cobrada por um passado impecável e respondeu trancando-se no estúdio para projetar o futuro.

O hiato desde as experimentações caóticas e questionáveis de Madame X (2019) serviu para Madonna limpar a mesa. Cansada das salas de composição corporativas e da ditadura dos algoritmos de 15 segundos, ela ligou para o seu arquiteto sonoro de confiança, Stuart Price. O diagnóstico era claro: o pop precisava recuperar o fôlego. O resultado dessa reclusão é um manifesto eletrônico contínuo, onde o botão de pular faixa se torna um pecado e a pista volta a ser tratada como um templo sagrado.

O TMDQA! já decorou cada virada dessa tracklist hipnótica e te conta, sem rodeios, por que este é o resgate mais honesto e cru da maior força que a música pop já viu. Bora lá?

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A arqueologia do suor nova-iorquino

A introdução com “I Feel So Free” dita as regras do jogo sem pedir licença. A batida cresce devagar, flertando com um acid house esfumaçado enquanto Madonna sussurra sobre o desejo de se perder no anonimato das sombras. Quando o icônico sample de “French Kiss” (Lil Louis) engata, fica o aviso: a noite é um portal ritualístico, e a vulnerabilidade é o único ingresso aceito.

O grande coração do projeto bate forte em “Danceteria”, uma verdadeira fita cassete rebobinada para a Nova York de 1982. Com uma produção pulsante assinada por Andrew Watt e Cirkut, a faixa traz Madonna entregando um rap falado magnético e elegante que faz um paralelo imediato com os dias de ouro de “Vogue“. Ao cantar sobre esbarrar com Keith Haring, Basquiat e Debi Mazar na fila do elevador, ela não está surfando na onda da nostalgia barata – ela está lembrando ao mundo que ajudou a construir as paredes da cultura underground que hoje todo mundo tenta replicar.

Mas o grande trunfo comercial do disco atende por “Bring Your Love”. Ao dividir os microfones com Sabrina Carpenter, Madonna opera uma transmissão de bastão cirúrgica. Em cima de um piano house imponente que evoca os fantasmas de “Express Yourself“, a dupla chuta o puritanismo da indústria com uma linha de frente agressiva: “Don’t try to shut me up” (não tente me calar). É a velha guarda e a nova geração cuspindo na cara do escrutínio público com um sorriso cínico nos lábios.

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O eco do luto sob flashes frenéticos

Se os primeiros trinta minutos de CONFESSIONS II são um soco de hedonismo puro, a segunda metade do álbum é onde as luzes da boate começam a piscar e a ressaca emocional cobra a conta. É a partir da delicada “Fragile” que Madonna tira a maquiagem. A faixa, um trip-hop de atmosfera densa guiado por um violão acústico, é um lamento doloroso sobre a partida de seu irmão Christopher Ciccone, transformando cicatrizes familiares em poesia eletrônica.

Essa mesma urgência confessional transborda na sombria “Betrayal”, onde Stuart Price costura de forma genial os acordes eruditos de Erik Satie com batidas arrastadas dos anos 90, criando um exorcismo de mágoas antigas que flerta diretamente com o clima de Erotica. Mas é em “The Test” que o álbum encontra sua redenção divina. O dueto em transe espacial com sua filha, Lola Leon, funciona como um pedido de desculpas público pelos holofotes agressivos da fama – rimando com o clássico “Little Star” de 1998 e provando que o pop também pode ser um espaço para o perdão.

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O veredito: a última palavra de uma estrategista

CONFESSIONS II triunfa justamente porque não tenta competir com a velocidade do TikTok ou com os hits plásticos de playlist. Madonna entendeu que seu maior patrimônio é a sua própria história. Ao entregar um álbum longo, denso, orgulhoso de suas referências (do house de Detroit ao trip-hop britânico), ela assina uma das obras mais vitais e focadas de sua discografia recente.

Ela sobreviveu às crises de saúde, ao etarismo feroz dos tabloides e às mudanças drásticas do mercado. No fim da noite, quando as luzes se apagam com “L.E.S. Girl” e o violão encerra o disco, fica a certeza: o mundo continua girando, mas a pista de dança ainda pertence à Rainha.

★★★★½ (4.5/5)

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Eduardo Ferreira

Resenha: “CONFESSIONS II” exorciza os fantasmas do passado com triunfo de Madonna


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