Ser uma artista nordestina não deveria ser um gênero musical

UANA
Divulgação

Por UANA, cantora e compositora pernambucana

O Nordeste reúne nove estados e mais de 54 milhões de pessoas, o equivalente a cerca de 27% da população brasileira, segundo o Censo 2022 do IBGE. É um território formado por diferentes sotaques, histórias, paisagens, movimentos culturais e experiências. Como esperar que toda essa diversidade possa ser traduzida por uma única identidade sonora?

Sou pernambucana. O Nordeste atravessa a minha identidade, a forma como escuto, crio, observo o mundo e faço música. É também a partir dessa experiência que me pergunto: quando pensamos em uma artista nordestina, que música esperamos ouvir? Ser uma artista nordestina não deveria significar pertencer a um gênero musical. Parece uma afirmação simples, mas não é.

A diversidade também aparece na música. Do maracatu ao bregafunk, o Nordeste nunca produziu uma coisa só. E mesmo essa lista é pequena diante do que nasce todos os dias por aqui.

Ainda assim, existe uma tendência de transformar a origem de artistas nordestinos quase em uma categoria musical. Um artista pode ser apresentado como pop, rapper, produtor de música eletrônica ou cantor de brega. Mas, muitas vezes, quando esse artista vem do Nordeste, a geografia chega antes da linguagem. É como se precisássemos carregar determinados códigos estéticos ou sonoros para comprovar de onde viemos. Mas o Nordeste não é uma estética. É um território de criação que está produzindo, trabalhando e se transformando agora.

Dados do setor cultural ajudam a dimensionar essa potência. Segundo o Sistema de Informações e Indicadores Culturais do IBGE, o Brasil chegou a 5,9 milhões de trabalhadores na cultura em 2024 — recorde desde o início da série histórica, em 2014. No Nordeste, o rendimento das pessoas ocupadas no setor cultural cresceu 11,4% entre 2023 e 2024, a maior variação positiva entre todas as regiões brasileiras.

Ao mesmo tempo, a própria música brasileira vive um momento de expansão. Segundo o Loud & Clear 2026, do Spotify, em 2025, artistas brasileiros geraram aproximadamente R$ 2 bilhões em royalties na plataforma, um crescimento de 24% em relação ao ano anterior. Já o Global Music Report 2026, da IFPI, mostra que o mercado brasileiro de música gravada cresceu 14,1% em 2025, levando o país pela primeira vez ao grupo dos oito maiores mercados do mundo. 

Se artistas brasileiros estão ocupando novos espaços, talvez seja também a hora de ampliar qual Brasil estamos mostrando quando falamos de música nacional. Os números ajudam a dimensionar esse movimento, mas não conseguem medir a quantidade de linguagens que criadores nordestinos estão inventando neste momento e que nem sempre cabem naquilo que historicamente aprendemos a reconhecer como “música nordestina”.

Tenho pensado muito nisso durante o processo de criação do meu álbum ESTRELA. Minha pesquisa parte do lugar de onde venho, mas não termina nele. Tenho buscado compreender conexões entre o Nordeste e sonoridades do Norte e do Oeste da África, além de referências que passam pelo imaginário árabe. Tudo isso encontra a música que consumo e produzo hoje, os beats, a pista, o eletrônico, o pop e as experiências que fazem parte de quem sou. 

Quanto mais pesquiso, mais percebo que essas referências não precisam disputar espaço entre si. Para mim, ancestralidade não significa voltar ao passado. Significa entender que o presente também foi construído por encontros, deslocamentos, diásporas, trocas e transformações. O Nordeste nunca esteve culturalmente isolado do mundo. Nossa música também é resultado desses movimentos.

Por isso, me interessa menos reproduzir uma ideia pronta de “música nordestina” e mais investigar o que pode nascer quando todas essas referências se encontram. Acredito que existe algo muito potente acontecendo com uma nova geração de artistas nordestinos. Estamos reivindicando o direito de experimentar, e essa liberdade também é uma forma de manter a cultura viva.

Preservar não pode significar congelar. Cultura viva muda, absorve, devolve, mistura, contradiz e inventa. Podemos reconhecer e valorizar aquilo que veio antes de nós sem assumir a obrigação de reproduzi-lo. Quero poder fazer música eletrônica, pop e continuar sendo uma artista nordestina. Quero dialogar com sons africanos, com referências árabes, com a pista, com a música urbana contemporânea e com qualquer outro território que desperte minha curiosidade. Minha origem não desaparece quando minha música viaja. 

Talvez aconteça justamente o contrário. Quanto mais liberdade temos para criar, mais complexas se tornam as formas de contar de onde viemos. Celebrar nossa cultura também precisa significar reconhecer artistas que transformaram profundamente a música brasileira e abrir espaço para aqueles que estão produzindo os sons que ainda não sabemos nomear.

Não precisamos reproduzir o passado para honrá-lo. Acredito que uma das melhores formas de celebrar esse legado seja continuar fazendo aquilo que artistas nordestinos sempre fizeram: inventar.

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