Tiê lança “Esgotada”, disco que parte da maternidade para falar de cansaço coletivo, culpa e criação musical no meio da rotina

Tiê acaba de lançar Esgotada, disco que parte da maternidade para falar de uma sensação coletiva de cansaço, culpa e excesso de cobrança. O álbum chegou às plataformas em 20 de maio com oito faixas, e inaugura um projeto dividido em dois atos, que terá continuidade com Amorosa, previsto para o segundo semestre.
Apesar do título, as músicas não soam cansadas: a artista transforma exaustão, filhos, redes sociais e rotina em canções delicadas, sinceras e confessionais. Em entrevista ao TMDQA!, a cantora falou sobre o processo de criação, a parceria com Adriana Calcanhotto no novo disco e a criação de suas músicas com a vida acontecendo.
Um disco sobre estar no limite
A entrevista com Tiê aconteceu em uma cena que parecia resumir o espírito do álbum: enquanto conversava, ela fazia um bolo de chocolate com Rosa, sua filha mais nova. Entre uma resposta e outra, pedia para a pequena não comer a massa antes da hora porque poderia dar dor de barriga. Entre a maternidade, uma função exercida 24 horas por dia sem remuneração, e as exigências da vida profissional, ela explica de onde nasce o desabafo:
“Eu fui pro Esgotada porque era o que chegava mais no limite mesmo do esgotamento. Era como eu me sentia, às vezes. Tipo um pano de chão, esgotada total. Ao mesmo tempo, a gente cria forças pra sobreviver. Então, o esgotamento também traz essa energia de: ou a gente vive ou morre-se”.
O álbum parte da maternidade, mas não se fecha nela. Tiê fala do acúmulo de tarefas, da pressão para dar conta de tudo e de um mundo em que até o cuidado virou cobrança. Desde Gaya, lançado em 2017, ela passou por outros caminhos: um DVD de dez anos de carreira, o EP Kudra, singles e encontros musicais. Mas Esgotada tem outra natureza. É o primeiro álbum em quase uma década em que a voz doce de Tiê parece organizar, em bloco, uma fase inteira da vida. Entram no disco as três filhas, a comparação das redes, a maternidade em outra idade, a culpa e aquela sensação de continuar fazendo tudo.
Foi a maternidade. A maternidade já velha. Junto com tudo isso de rede social, de algoritmo, de comparação, de artista. Então é uma soma. Claro que a maternidade nessa minha idade, eu que já tenho duas adolescentes, me deixou meio no limite. Mas junto do mundo de hoje também, que é intenso mesmo. Muita informação toda hora. Muita gente. Muito tudo. Parece que a gente precisava saber de tudo o tempo inteiro. E tem um monte de lista que a gente tem que fazer. Tudo virou uma lista que você tem que preencher, uma meta, uma cobrança, mesmo a saúde emocional. É tudo cobrança”.
A Tiê confessional continua ali
Na carreira, Tiê sempre construiu suas composições perto da conversa e da confissão. A faixa mais divertida e mais deslocada do caminho habitual da cantora é “Contato”, lançada como single antes do álbum.
Ele tem novidades, mas tem uma essência que não tem jeito. A minha, que é essa coisa de contar a história, de trazer pro pessoal, de ter essa narrativa meio carta, confessional. No arranjo tem algumas coisas mais intensas, como ‘Contato’ ou ‘Verdade Dói’, ou até ‘Tanto Faz’, que tem um arranjo quase bossanovístico ali no meio. Mas a essência da composição se mantém”.
Essa assinatura ajuda a explicar por que “A Noite” se tornou sua música de maior alcance, com mais de 151 milhões de reproduções só no Spotify. Lançada originalmente no álbum Esmeraldas, a faixa ganhou projeção nacional em 2015, quando entrou na trilha da novela I Love Paraisópolis, da TV Globo. Em 2025, a música ganhou uma nova versão ao lado de João Gomes, hoje um dos nomes mais populares do Brasil. Na regravação, o forró do artista pernambucano levou a canção para outro território. Em Esgotada, a artista não abandona essa identidade. O disco tem momentos mais intensos, mas continua reconhecível na forma como ela transforma experiência pessoal em canção.
Adriana Calcanhotto em “Atitude”
Um dos pontos mais fortes do álbum é “Atitude”, faixa com participação de Adriana Calcanhotto. Tiê conta que sempre foi fã da artista e que, depois de conhecê-la pessoalmente, quis muito tê-la no projeto. A ideia inicial era compor algo do zero, mas as agendas não fecharam. Foi então que ela mostrou a música.
Eu queria muito ela no disco. Depois que eu a conheci pessoalmente, me deu vontade demais de ter ela no projeto. Eu falei: ‘Adriana, vamos tentar uma música do zero’. Aí as agendas não rolaram. Eu tinha ‘Atitude’ e falei: ‘O que você acha dessa? Quer completar?’. E aí ela deu o toque dela, fez um verso e topou gravar. Foi realmente foi um presente”.
A admiração passa também por um modelo de presença artística. Tiê vê em Adriana uma artista próxima, sem excesso de performance, capaz de manter intimidade mesmo diante do público.
“Que tipo de artista você quer ser quando crescer? Eu acho que o meu seria a Adriana Calcanhotto. Eu nunca quis ser uma Madonna. Eu sempre quis ser uma artista que tem cara de gente, como a gente. Que você vê que dá pra conversar. Que sobe no palco e parece que está na sala com você. Eu nunca me imaginei cantora de grandes performances com bailarinas. Essa coisa intimista que ela traz na voz e em todo o processo sempre foi um alvo meu.”
Canções feitas nas brechas
Esgotada tem oito faixas: “Minha história”, “Contato”, “Atitude”, “Ainda”, “Altar”, “Tanto faz”, “Verdade dói” e “Tempo pra mim”. A produção musical é assinada por Tó Brandileone, André Whoong e Marcus Preto. O disco também reúne músicos como Antônio Adolfo, Jamil Joanes, Felipe Coimbra e Silvani Sivuca.
A criação aconteceu em intervalos possíveis. Tiê compôs de madrugada, em viagens, enquanto fazia a filha dormir. A rotina não aparece como bastidor distante do álbum. Ela está dentro das canções.
“Eu encontro tempo pra compôr assim, igual eu estou fazendo essa entrevista. Fazendo um bolo junto com o bebê. De madrugada. Às vezes em alguma viagem sozinha. São nesses momentos que eu vou dando um jeito. Às vezes fazendo a Rosa dormir. Nossa, eu fiz algumas músicas fazendo ela dormir. Chacoalhava, pensava, e me vinham as músicas. Então, nesses intervalos mesmo.”
Entre as faixas mais pessoais, “Minha história” abre o disco com um balanço de vida. “Eu amo, porque ela é muito confessional. Acho que ela abre o disco contando esse momento em que eu me sinto: agora não tem muito o que fazer com o que já foi feito. Já foi feito. Então a gente tem que celebrar, comemorar. Claro que a gente sempre pode melhorar, mas é daqui pra frente”, diz.
“Tempo pra mim” nasceu de uma encomenda feita a Thomas Roth, compositor que Tiê aponta como alguém fundamental em sua formação musical. “Eu pedi: quero que você fale sobre o meu cansaço, sobre as minhas filhas, sobre a minha vida. Então fiquei apaixonada”, conta.
Em “Altar”, Tiê fala de um tipo de cuidado que nasce no cotidiano. Durante a entrevista, ela mostrou o altar que tem em casa, com santos católicos, Buda e orixás. Mas a força da faixa não está em explicar uma crença. Está nesse gesto meio intuitivo de juntar coisas que fazem bem, agradecer, pedir proteção, olhar para quem importa e tentar seguir.
Eu não tenho hoje em dia uma religião fixa, mas eu gosto desse ritual de você agradecer as coisas, pensar nas coisas, botar foto das pessoas, jogar uma canela. Mas realmente o altar, o alicerce, eu acho que é amizade mesmo. Então a coisa da amiga, de você ligar e se sentir ali apoiada, isso não tem ritual mais forte do que esse.”
Entre Esgotada e Amorosa
O projeto nasceu como dois discos complementares. Amorosa, que virá depois, foi o primeiro nome escolhido. A referência passa por Amoroso, de João Gilberto, disco que diz ter ouvido muito quando se sentiu cantora. Também há um jogo íntimo no título: Amora e Rosa, nomes das filhas mais novas.
Mas foi Esgotada que veio antes. “O meu esgotamento é tanto que resolvi lançar Esgotada primeiro para me livrar, de repente”, brinca. Para ela, os dois discos não representam lados opostos. As emoções se misturam.
O disco foi feito junto. O Marcus Preto entrou nesse momento de produção para me ajudar a dividir o que era mais esgotamento e o que era mais amorosa. Mas não tem uma divisão exata, tipo bem e mal. A gente, no mesmo dia, passa por tantos sentimentos. Às vezes estou ótima. Em seguida, estou exausta. Às vezes consigo relaxar dois minutos e já estou ótima de novo. Então acho que é essa mistura.”
Um álbum com a vida entrando pela porta
A capa também traduz esse processo íntimo. A imagem nasceu de uma fotografia analógica de Indira Dominici e foi reinterpretada em pintura a óleo por Marina Quintanilha, artista e amiga de infância da cantora. Também entrou nesse processo uma pesquisa sobre a própria família, incluindo a história de uma tataravó que teria sido deserdada por decidir casar por amor.

Talvez a imagem mais fiel de Esgotada seja mesmo a da entrevista: Tiê falando de música enquanto faz bolo com a filha e interrompendo uma frase para cuidar da massa. Honesta, sensata e cautelosa. Sem romantizar o cansaço, as canções dão som a sentimentos que muitas mulheres reconhecem antes mesmo de saber nomear.
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Liz Sacramento




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