TMDQA! Entrevista: Ana Gabriela – “BASEADO EM FATOS REAIS”

Ana Gabriela, em foto promocional
Divulgação

Quem acompanha a música brasileira nos últimos dez anos viu Ana Gabriela florescer diante das lentes. O que começou com vídeos tímidos no YouTube – onde a voz aveludada frequentemente aparecia protegida por uma timidez quase palpável – transformou-se em uma das carreiras mais interessantes do cenário nacional contemporâneo. Prestes a completar 30 anos, Ana não apenas mostra o rosto diante o, mas abre o peito.

Em seu projeto mais recente, BASEADO EM FATOS REAIS (menos as partes que eu inventei), a artista mergulha em uma narrativa autobiográfica e visceral. Se a primeira parte do álbum era o registro febril de um romance entre duas mulheres, a chegada da versão deluxe funciona como o epílogo necessário e, ao mesmo tempo, um novo prólogo. É um trabalho que equilibra a herança da MPB com o frescor do indie psicodélico, sem perder o “pé no chão” que a tornou uma voz de acolhimento para a comunidade LGBTQIA+.

Nesta entrevista exclusiva ao TMDQA!, Ana reflete sobre a subida de sua própria “montanha”, a importância de ocupar espaços como mulher lésbica na música e como o processo de composição se tornou seu maior instrumento de cura e autoconhecimento. Entre referências que vão de Cássia Eller a Green Day, ela nos conta o que mudou desde aqueles primeiros acordes gravados no quarto e por que, agora, ela finalmente se sente pronta para “tocar a neve” no topo de sua trajetória.

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TMDQA! Entrevista – Ana Gabriela

TMDQA!: Ana, antes de qualquer coisa, muito obrigado por nos receber! Para começar, queria fazer um paralelo: no Direito, fatos são provas incontestáveis; na música, eles são interpretativos. Qual foi a faixa desse álbum que te deu mais medo de “assinar o depoimento” por ser real demais?

Ana Gabriela: Cara, no fundo, todas as músicas acabam tendo esse fundo de verdade, sabe? Independentemente de a história ser minha ou não. Mas a faixa que mais remete a mim mesma é “não me esqueça”.
É uma das minhas favoritas do álbum porque me sinto muito representada nela. Se alguém me pedisse um resumo de quem eu sou, eu diria: ouça “não ne esqueça” – ela é muito pessoal, mas ao mesmo tempo, muita gente se identificou com a faixa.
Tive um certo receio de mostrar esse meu lado, mas não teria como escolher outra.

TMDQA!: E se pudéssemos entrar na sala de composição de uma das inéditas desse Deluxe, o que encontraríamos lá? Restos de café, post-its de madrugada, áudios de WhatsApp não enviados?

Ana Gabriela: Com certeza encontraria cerveja, meu tabaco, minhas gatinhas e muitos áudios no gravador! [risos] Eu sou aquela pessoa que, durante uma composição, deixa o gravador ligado o tempo todo para não perder nenhuma ideia passageira. Como você fica ali no automático, pode acabar esquecendo algo muito rápido.
Tenho áudios de uma ou duas horas gravando sessões inteiras – por isso meu celular vive sem memória! Mas seriam essas coisas, com certeza.

TMDQA!: O álbum original já era um “raio-X”. O que o Deluxe trouxe que você ainda estava tentando esconder ou processar quando lançou a primeira versão?

Ana Gabriela: A primeira versão é muito focada na história de uma relação entre duas mulheres: o primeiro encontro, a primeira noite, a primeira briga… É tudo muito intenso. Eu levei um ano escrevendo aquelas faixas para conseguir mostrar aquilo ao mundo.
Quando surgiu a ideia do Deluxe, tive o estalo de que aquela história específica já tinha acabado e que eu poderia contar outras coisas. Por isso, depois de “não me esqueça”, temos um interlúdio que encerra esse ciclo.
Dali em diante, conto várias histórias de formas diferentes – algumas pessoais, outras não. Eu gosto de ser essa pessoa que canta o amor, seja algo que eu vivi, algo que inventei ou algo que um amigo me contou.

TMDQA!: Todo bom roteiro baseado em fatos reais tem uma reviravolta. Qual colaboração ou escolha de produção nesse projeto te fez pensar: “Nossa, eu não esperava por isso”?

Ana Gabriela: Deixa eu pensar… Geralmente eu já sei bem como quero as faixas, mas “não sei amar direito” me surpreendeu, eu não tinha ideia de como ela seria produzida. “reconciliação” também foi um momento em que a criatividade dos produtores brilhou. Em “não sei amar direito”, que foi uma das primeiras que levantamos, eu até hesitei: “será que quero ir por esse caminho?” – mas eu adoro me conhecer de formas novas.
Quero que as pessoas conheçam uma nova Ana, talvez com uma produção que nunca ouviram antes, embora nas letras eu continue sendo eu mesma. Gosto de ser uma artista que se renova! [risos]

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TMDQA!: Você começou há mais de dez anos no YouTube e hoje consolida sua carreira – inclusive, já mencionou que se sente pertencente ao mundo pop como mulher lésbica. Você sente que o mercado brasileiro está mais aberto para histórias de amor que fogem do padrão heteronormativo ou ainda há um longo caminho?

Ana Gabriela: Eu acredito que melhoramos muito, mas seria mentira dizer que está tudo resolvido. Ainda faltam espaços para nós da comunidade e para todas as minorias.
Quando você para para pensar e não consegue listar rapidamente mais de cinco mulheres lésbicas em destaque na cena, você vê onde está o problema.
Eu sempre fui assumidamente lésbica, mas no início queria cantar para “todo mundo”. Hoje, entendi que quando eu estava me descobrindo, eu queria ouvir músicas que falassem de mim – agora, eu quero ser essa pessoa para outra garota.
Todos são bem-vindos no meu show, mas meu grande propósito é cantar para mulheres, ser essa referência na cena, especialmente para mulheres masculinas, que não vemos tanto em grandes lugares. Quero mostrar que o amor entre duas mulheres é lindo.

TMDQA!: Se esse álbum fosse um filme, qual seria o aviso de classificação indicativa para os sentimentos do ouvinte?

Ana Gabriela: Caraca, essa é muito boa! Eu colocaria: “Cuidado: risco de se apegar emocionalmente”. [risos] Digo isso porque pensamos muito nos visualizers para contar a história de forma direta, fizemos uma audição do álbum no cinema e todo mundo começou a se apegar aos personagens, a sofrer com as reviravoltas… Foi uma experiência bem intensa!

TMDQA!: Falando nos visualizers, notamos uma mudança na paleta de cores. Isso reflete seu estado de espírito atual ou foi uma escolha estética?

Ana Gabriela: Um pouco dos dois. A primeira parte foi pensada para cores vibrantes, aproveitando que estávamos em outro país, sabe? Queríamos mostrar esse lugar colorido de quando você começa a gostar de alguém e o mundo muda de cor.
Já a estética que puxa para o azul marca o começo de novas histórias. Além disso, meu primeiro álbum, o Ana (2020), também era azul. Eu gosto de remeter ao meu início e trazer algo que seja a minha identidade.

TMDQA!: Se sua carreira fosse uma estrada na Patagônia, em que trecho você estaria agora: subindo a montanha ou em uma reta infinita?

Ana Gabriela: Acho que estou na subida da montanha – vi a neve de longe e estou na busca para chegar ao topo e tocá-la. Ser artista é difícil; a gente nunca está 100% bem o tempo todo. Existe a cobrança do público e, principalmente, a nossa autocobrança.
Às vezes estou tranquila, às vezes exausta, mas sempre subindo em busca dessa “neve” lá no topo.

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TMDQA!: Com o Deluxe completo, você sente que fechou um ciclo de cura? Qual o nome do próximo capítulo da sua vida?

Ana Gabriela: Sinto que encerrei cinco capítulos e estou muito orgulhosa de tudo o que une esse álbum… O próximo capítulo se chama “Descoberta”. Estou me descobrindo mais, sendo menos julgadora e mais paciente comigo mesma.
Vou fazer 30 anos logo logo, então estou nesse momento de reflexão. Dizem que existe a crise dos 30, mas para mim é apenas ver que a vida pode ser levada com mais leveza. A gente faz as coisas com muita pressa e não precisa ser assim.

TMDQA!: Eu nunca diria que você tem 30 anos! Lembro de te conhecer na época dos covers, como aquele do Costa Gold de “De Vila”. Do seu primeiro vídeo em 2015 para os shows de hoje, o que mudou na sua relação com o palco? Você se sente mais intérprete hoje?

Ana Gabriela: Eu sempre terei orgulho de ser intérprete. Comecei na igreja aos cinco anos e tenho a Cássia Eller como grande inspiração; ela era uma intérprete gigante.
Mas tudo mudou quando comecei a escrever e vi as pessoas cantando algo autoral que escrevi às quatro da manhã na minha sala. Eu continuo aberta a gravar músicas de outros compositores ou fazer versões, mas o que realmente mudou foi a confiança.
No meu primeiro vídeo, eu só filmava da boca para baixo, não mostrava o rosto… Hoje, aceito que ser tímida não me impede de ser uma artista confiante.

TMDQA!: Se você pudesse trocar de lugar com um personagem das suas músicas por um dia para mudar o final da história, qual seria?

Ana Gabriela: Eu não mudaria o final das músicas, gosto delas como são! Se eu pudesse mudar algo, seria na minha carreira: eu voltaria ao início para não ligar tanto para a opinião dos outros. No começo, eu ouvia pessoas dizendo que o que eu escrevia era ruim e isso abalou minha confiança.
Se eu pudesse mudar esse detalhe, minha vida teria sido mais fácil e eu seria uma pessoa ainda melhor hoje.

TMDQA!: Ana, para finalizar, uma tradição nossa: cite cinco álbuns que mudaram sua vida.

Ana Gabriela:

  1. Dookie (Green Day): Mudou minha visão do rock e me deu vontade de tocar guitarra.
  2. Acústico (Ao Vivo) (Charlie Brown Jr.): Me ensinou muito sobre música brasileira e como cantar sobre amor, política e cotidiano.
  3. Recombinando Atos (Ao Vivo) (O Teatro Mágivo): Meu irmão ouvia muito! Me ensinou que a música pode ser mais simples do que a gente imagina.
  4. Multishow Ao Vivo (Maria Gadú): Foi fundamental para minha identificação. Ver uma mulher de cabelo curto, com aquela voz aveludada, me fez entender que eu não precisava de firulas ou melismas para ser uma boa cantora.
  5. Ventura (Los Hermanos): Minha família sempre ouviu muita música brasileira. O Marcelo Camelo também tem essa voz aveludada que me influenciou muito lá no início, quando eu postava vídeos de 15 segundos no Instagram.

TMDQA!: Seleção impecável! Ana, foi um prazer enorme. Muito obrigado pelo seu tempo e parabéns pelo trabalho!

Ana Gabriela: Imagina! Muito obrigada pela abertura e pelo papo. O que precisarem, estou aqui. Foi um prazer!

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Eduardo Ferreira

TMDQA! Entrevista: Ana Gabriela – “BASEADO EM FATOS REAIS”


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