TMDQA! entrevista: Chris Moore, britânico radicado no Brasil que inicia carreira artística aos 66 anos

A decisão de transformar décadas de ideias musicais em obra concreta marca um novo capítulo na vida de Chris Moore. Após mais de 30 anos no alto escalão do mundo corporativo, o britânico lança “Malandro que é Malandro”, primeiro single de seu álbum de estreia, e usa esse momento como ponto de inflexão para revisitar sua trajetória.
A música, um samba com arranjos que resgatam a sofisticação dos clássicos do gênero, chega às plataformas digitais na voz da cantora Helô Lourenço, com letra escrita por Gabriel Moura e produção musical de Glaucus Linx, parceiro de Chris no Walkabout Estúdio e também na composição.
Conhecido por liderar a expansão da Domino’s Pizza no Reino Unido e na Irlanda e por implementar estratégias inovadoras no mercado de delivery, Moore construiu uma carreira sólida antes de assumir publicamente sua vocação artística.
Nascido na Inglaterra e radicado no Brasil desde a adolescência, ele desenvolveu uma relação íntima com a música ao longo de toda a vida, transitando entre composições próprias, experiências com publicidade, encontros com músicos relevantes e, mais recentemente, a criação do Walkabout Estúdio, no Rio de Janeiro, ao lado de Glaucus.
Na entrevista, Moore detalha essa travessia pouco convencional, revelando como a música permaneceu latente mesmo nos anos mais intensos da carreira executiva, e como o Brasil e sua cultura foram determinantes na construção de sua identidade artística.
TMDQA! entrevista Chris Moore
TMDQA!: Como começou sua relação com a música, e como ela se desenvolveu ao longo da sua carreira como executivo?
Chris Moore: Com 14 anos comecei a ter aula de piano na escola, mas o professor era sádico, segurava uma baqueta que “aplicava” para “corrigir” qualquer erro. Obviamente, desisti, mas a curiosidade musical continuou. Na mesma sala tinha uma fileira de violões de outros estudantes, então, cada sábado, entrava ali escondido,“pegava emprestado” um violão e ficava tocando por horas. Lá mesmo, comecei a inventar trechinhos de música e descobrir certos acordes que pensei estar inventando. Aos 17, cheguei ao Brasil convicto de que ia arrasar com esse conhecimento “único”. Mas, falando com meu primeiro amigo e vizinho no Rio, Fábio Fonseca, hoje um grande compositor e produtor, acabei descobrindo que eram acordes de jazz e bossa nova.
Foi nessa época, 1983, que encontrei com Dominic Miller (guitarrista do Sting), que estava estudando com Tapajós, e mostrei uma ideia de música para ele, que usamos para tocar horas em algumas jam sessions. E é isso que forma a base da faixa “Malandro que é Malandro”… 47 anos mais tarde! Na mesma época, conheci o Ritchie, que colocou uma música minha, “Gisella”, no segundo álbum dele. Depois de ter uma banda no Rio, tentei a sorte com alguns amigos como empresário de shows internacionais. Desastre total. Foi então que resolvi que precisava pegar um emprego sério.
Em 1990, comecei a trabalhar na Domino’s Pizza na Europa, principalmente no Reino Unido e Irlanda. Em 2007, já com o título de Deputy CEO, tive que operar uma hérnia dupla que me colocou repousando em casa por duas semanas. Coincidentemente, o grande amigo Fábio Fonseca estava tirando umas férias com a gente, então resolvemos aproveitar o descanso do trabalho pra gravar as bases de 12 músicas minhas, algumas das quais fazem parte do primeiro álbum. Depois de quatro anos como CEO, resolvi que precisava acabar com a vida comercial e voltar para a música. Levou um ano pra achar meu substituto e aqui estou!
TMDQA!: Você nunca teve vontade de largar tudo e viver de música?
Chris: Acho que tudo depende do destino e das situações que se apresentam. Se não tivesse me dado tão mal no meu empreendimento, a ponto de ter que procurar um emprego, talvez tivesse seguido com a ideia de desenvolver minha música. No fundo, acho que a mensagem subliminar vinha do constante fluxo de novas ideias de música. O que fazer com isso? Talvez, inconscientemente, sabia que um dia teria que sentar para lapidar e finalizar as melhores ideias. Mas a realidade de continuar empregado para apoiar o começo de uma família na Inglaterra sempre determinava a pauta, até então.
TMDQA!: E nessa virada, como acabou abrindo um estúdio?
Chris: Uma vez livre do trabalho, pensava que seria fácil sentar e começar a completar o primeiro álbum. O problema, então, era um bloqueio tecnológico. Logic [programa de edição de áudio] era um total mistério pra mim, e ainda rolava o mau hábito de pular de uma ideia pra outra. De novo, via Fabio Fonseca, e Fernando Vinhas, acabei conhecendo Glaucus Linx. O Glaucus se ofereceu para me dar aulas de Logic e instalar uma disciplina na minha produção. Depois de várias aulas, ele perguntou: “E aí, vamos gravar uma música tua?!” Logo depois, veio a pandemia, e. com ela, a necessidade de fazer produção à distância. A primeira música envolvia gravações na Itália, Rio, Nova Iorque e Londres. A ideia do estúdio surgiu como uma resposta ao crescente uso de home studio, que é um trabalho solitário. O Walkabout foi criado pela necessidade de unir gente com um talento incomparável.
TMDQA!: Por falar nisso, como você e sua família foram parar no Rio?
Chris: Nos anos 70, o Brasil contratou empresas inglesas para construir seis fragatas navais. Precisavam de experts para treinar a Marinha Brasileira em sistemas de navegação e defesa, então chamaram meu pai para um contrato de dois anos. Ele ficou 11!
TMDQA!: Como foi a sua experiência sendo um gringo no Rio de Janeiro desde a adolescência?
Chris: No início, foi terrível. Um país tão completamente diferente que, logo no segundo dia, queria voltar. Mas não podia, por complicações de visto de permanência. Saí da Europa em janeiro, com menos 5ºC, e chegamos ao Galeão às 6h da manhã, já com 34ºC na cabeça. Alguém até sugeriu colocar as cuecas no congelador. Acabei não ouvindo o detalhe de colocar num saco plástico primeiro. Um horror.
Um dia, saí do hotel, na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, pra comprar um suco, e, de repente, senti a diferença mais notável: enquanto na Inglaterra (e em muitos países da Europa) existe um ‘safety net’ para aqueles que não conseguem emprego, no Brasil eu teria que fazer a minha vida eu mesmo, sem a ajuda do Estado. Decidi ficar os dois anos com meus pais e depois voltar pra Inglaterra, ou seguir a vida aqui. Então, a ordem do dia era: aproveita a loucura e aprecia a beleza em volta. Depois de 6 meses, caí de amores pela cidade.
TMDQA!: Como isso moldou o seu gosto musical e as experiências que você teve na música?
Chris: Bem, pra começar, aqui você não escapa da música. Ela é onipresente. Tá no ar e tá na veia. Resolvi estudar música brasileira numa escola em Copacabana e descobri Villa Lobos e João Pernambuco. Para um inglês, acostumado a ouvir David Bowie, Led Zeppelin, Stevie Wonder e Santana, a riqueza rítmica e melódica desses gigantes da música brasileira foi uma viagem. Depois veio a linguagem da Bossa Nova, Jobim, Elis Regina, Gilberto Gil, Gal, Rita Lee. E o Djavan. Djavan é de outro planeta.
TMDQA!: Quando rolou esse insight de que você poderia tirar as composições da gaveta e lançar seu primeiro álbum?
Chris: No dia que eu revelei pro Conselho Administrativo da Domino’s UK que eu ia me aposentar aos 52 anos! Na realidade, a volta ao Brasil sempre estava “escrita” na minha cabeça. Só precisava acertar o timing certo.
TMDQA!: O que mais te cativou na música brasileira?
Chris: Ritmo. São tantas influências. O percussionista do álbum, Sandro Lustosa, é uma biblioteca de tudo isso. Depois, são as progressões de acordes, de maiores para menores, onde nada é óbvio. A faixa “Dom Quixote”, de Milton Nascimento, é de chorar de bom, com uma mudança inigualável. Como o próprio Brasil, é uma festa surpresa.
TMDQA!: Como foi o processo de produção do disco, escolher os músicos, arranjar, fazer a curadoria e gravar os sons?
Chris: Uma palavra: Glaucus. Como discutir com ele sobre a sua escolha de um músico, um timbre, um instrumento? Claro que tenho meus inputs, como o Romero Lubambo e o Christiaan Oyens, mas, se o assunto é talento brasileiro, tá nas mãos dele.
TMDQA!: Como foi trabalhar com o Glaucus como produtor, em comparação a trabalhar com ele como parceiro do estúdio?
Chris: Parceiro, produtor… acho que tem pouca diferença. Nós crescemos em ambientes musicais tão diversos, mas passamos pelas mesmas mudanças tecnológicas. Os nossos interesses são entrelaçados. Tem um quote em inglês que é assim: “If you’re in the business of ‘good enough’, you’re in the wrong business.” “Se ‘bom o suficiente’ te serve, você está no negócio errado.”. E esse é o nosso approach no Walkabout. Quer produzir uma música que vai ser curtida daqui a 200 anos? Então, mete o esforço agora.
Chris Moore – “Malandro que é Malandro”
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Stephanie Hahne




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