TMDQA! Entrevista: Mariana Mug fala sobre “Pepita Rara”, álbum de estreia produzido por Guto Graça Mello

Mariana Mug lança “Pepita Rara”, álbum de estreia produzido por Guto Graça Mello
Crédito: Alán Ramiro Manning

A trajetória de uma artista que saiu das ruas de Lisboa, em Portugal, para construir seu primeiro álbum no Brasil ganhou novo passo com o lançamento de Pepita Rara, estreia da cantora e compositora mineira Mariana Mug.

Já disponível em todas as plataformas, o trabalho de estúdio reúne oito faixas e marca um momento especial na carreira da artista, pois este é o último álbum produzido em vida por Guto Graça Mello, um dos nomes mais importantes da produção musical brasileira e que faleceu em maio.

Lançado pelo selo Alá, de Jorginho Velloso, com distribuição nacional e internacional da The Orchard, o disco foi gravado no Rio de Janeiro entre junho de 2025 e março de 2026. O processo criativo foi pautado pela liberdade artística e pela colaboração entre os músicos, que desenvolveram as sonoridades do projeto em conjunto com Guto, sem recorrer à reprodução de referências preestabelecidas.

O repertório apresenta seis composições autorais de Mariana, além de “Amor Transatlântico”, de Antonio Villeroy, e “Anjo Deslumbrado”, parceria inédita entre Rita Lee e Graça Mello que permaneceu guardada por quatro décadas. A faixa, lançada como single em setembro, antecipou a identidade musical do álbum.

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Mari Mug lançou seu disco de estreia nas plataformas digitais

O título do álbum também sintetiza o percurso que levou a cantora até esse momento. Natural de Patrocínio, em Minas Gerais, Mariana se apresentava nas ruas quando vídeos de suas performances começaram a repercutir nas redes sociais. A visibilidade despertou o interesse do produtor Guto Graça Mello e da empresária Fernanda Dillon, que a convidaram a retornar ao Brasil para desenvolver seu projeto de estreia.

Além do repertório e da produção musical, o projeto carrega referências afetivas em sua concepção visual. A capa foi fotografada em Kyoto, no Japão, pelo desenhista e aquarelista americano Alán Ramiro Manning, parceiro da cantora. A escolha da cidade resgata memórias e conversas compartilhadas entre Mariana e Guto durante o período de gravação.

A sonoridade do álbum tomou forma com a participação de um time de músicos reconhecidos na cena da MPB. A instrumentação reúne Paulo Calasans (teclados), Victor Biglione e Hyago Moura (guitarras), Paulo César Barros (baixo), Jurim Moreira (bateria), Sidinho Moreira e Ian Moreira (percussão), Milton Guedes (sopros), Kleyton Martins (violinos e bandoneon), Aderval da Rocha (violão), com os backing vocals de Janeh e Fael Magalhães.

O TMDQA! conversou com Mariana para saber mais sobre o lançamento de Pepita Rara e o resultado da entrevista você confere logo abaixo!

TMDQA! Entrevista Mariana Mug

TMDQA!: Você saiu de apresentações nas ruas de Lisboa direto para um estúdio no Rio de Janeiro. Como foi retornar ao Brasil, ainda mais pra gravar seu primeiro disco?

    Mariana: Foi cinema. Ainda mais retornar ao Rio de Janeiro, cidade que amo tanto e que é inspiração pra muitas das minhas canções. Senti que havia chegado o tempo da colheita. Me senti mais viva do que nunca nesse processo todo e aprendi demais!

    TMDQA!: Você gravou com Paulo Calasans, Victor Biglione e Jurim Moreira, músicos que você ouvia nos discos da infância. Como foi a sensação de cantar as suas próprias composições na frente deles?

      Mariana: Eu estava nervosa, mas o nervosismo foi embora quando conheci todos eles. Me trataram com muito carinho e quando mostrei minhas composições, eles amaram; fiquei feliz demais! O mais bacana de tudo foi ver a empolgação deles gravando; estavam todos muito felizes com o processo e o resultado de tudo. Teve um momento em que a gente tava gravando “Às Vezes Não Verbalizo” e eu falei: “Gente, vamos esquecer essa melodia e estrutura que criei e vocês me dão outra ideia.” Aí o Paulo Calasans disse: “Não, não, nós é que temos que te acompanhar, a música é ótima.” Fiquei feliz demais!

      TMDQA!: Como foi a ligação em que o Guto te contou sobre “Anjo Deslumbrado”? O que passou pela sua cabeça ao saber que tinha nas mãos uma letra inédita da Rita Lee guardada há 40 anos?

        Mariana: A primeira ligação na verdade veio da Fernanda, minha empresária, o Guto contou pra ela e ela ficou tão feliz que me ligou na hora. E eu estava lendo o livro da Rita, uma autobiografia, exatamente no momento que recebi a ligação, livro que comprei dias antes. Quando soube da notícia nem consegui falar muito no telefone, a voz engasgou no choro, fiquei em choque.

        No outro dia fui na casa do Guto e ele cantou “Anjo Deslumbrado” pra mim, me disse que nunca quis dar a música a ninguém nesses anos todos mas que tinha certeza que era pra eu cantar. E eu, chorei de novo, né? Honra máxima.

        TMDQA!: Como você e o Guto se conheceram?

          Mariana: Meus vídeos cantando nas ruas de Lisboa começaram a viralizar e um deles chegou até a Fernanda Dillon, que é amiga de infância da filha do Guto. Fernanda começou a me seguir e mandou uma mensagem perguntando se eu precisava de alguma ajuda na minha carreira, pois ela conhecia um grande produtor. Eu nem sonhava que esse produtor seria O Guto Graça Mello e disse que sim, claro, ajuda é sempre bem-vinda, ainda mais naquela fase que eu estava vivendo.

          E então, nessa mesma época dos vídeos virais das ruas, recebi um convite pra fazer um show no Blue Note Rio, e como já estava indo ao Brasil ver a família, aproveitei e fiz o show, e a Fernanda foi assistir. Depois desse dia ela ficou obstinada em me ajudar, e levou até o Guto o meu vídeo cantando “Always Remember Us This Way” nas ruas. Ele me contou que deu um berro de emoção na hora e disse que iria me produzir com toda certeza.

          Alguns dias depois, me ligaram com a notícia de que queriam me trazer de volta ao Brasil pra gravar, cobrindo todos os custos. O Guto se tornou meu empresário e a Fernanda também. Dois anjos.

          TMDQA!: O que você aprendeu com o Guto nos bastidores que vai levar para o resto da carreira?

            Mariana: Sentimento. “Tem que ter sentimento, querida, senão, não vale de nada”.

            Sempre acreditei nisso e por isso nos demos tão bem. Reafirmei isso ainda mais dentro de mim. Hoje mesmo vendo vídeos das gravações ouvi ele falando “sentimento” algumas vezes enquanto dava as direções. Em alguns momentos da minha vida tentei fazer algo pra me encaixar, mas isso nunca vai dar certo. Tem que ter é sentimento, e vou levar isso pro resto da minha vida.

            TMDQA!: Como foi a relação pessoal e profissional com o Guto ao longo desse trabalho?

              Mariana: Nos tornamos amigos e tínhamos muito carinho um pelo outro. Amava ouvir suas histórias de vida por horas e horas.

              Relação profissional também melhor impossível: um cara humano, que escuta ideias sem nenhuma arrogância, humildade exemplar; aprendi muito!

              “Calma, calma, tudo no tempo certo.”

              TMDQA!: A foto da capa foi tirada em Kyoto, no Japão, ligada a uma memória afetiva do próprio Guto. O que essa imagem representa para o conceito do disco?

                Mariana: Toda essa história e como tudo aconteceu é muito louco; quis uma capa que transmitisse uma sensação de desbravar o mundo, olhar adiante com muita coragem e manter os sonhos vivos, promessa que fiz ao Guto. Esperança. Representa mais do que um conceito sonoro mas toda essa história e a maneira como me foi dada essa oportunidade.

                TMDQA!: O álbum passeia por tango, forró e outras referências. Como você amarrou tudo isso para soar coeso em oito faixas?

                  Mariana: Amarramos no sentimento! [risos]

                  A unidade se cria a partir do momento em que todas as faixas são boas canções, gravadas com excelência e com muita alma em cada detalhe. Literalmente cada detalhe, pois tem muitos detalhes. Eu adoro discos que são uma surpresa. Por isso, a escolha de um repertório variado, liberdade criativa de todos envolvidos, referências que trazemos da vida, que estão impregnadas em quem somos, no café da manhã que tomamos, nos amores que vivemos, nas viagens que fazemos, nas alegrias e nas dores. Muito sentimento e uma mixagem minuciosamente bem feita.

                  Arranjos ricos e surpreendentes, cheios de Graça. Acho que isso tudo o torna coeso.

                  TMDQA!: Quais discos não saíam do seu fone enquanto você pensava as letras e os arranjos do Pepita Rara?

                    Mariana: As letras e melodias eu já tinha ao logo da vida, escritas em fases diferentes. Mas, durante o período das gravações, escutei muito tudo o que o Guto produziu pra tentar entender ele ainda mais, tipo, tudo mesmo haha.

                    Mas os que mais ouvi, com certeza, foram: As Canções Que Você Fez Pra Mim, que já era meu xodó; Rita Lee 1980 e 1979, que sou apaixonada desde sempre; e 7 Desejos, de Alceu Valença, genial, Gil e Milton que ele fez… coisa demais! Só trem bão! [risos] Estava ouvindo muito também Zé Ibarra, Tina Turner, Sade, e Olivia Dean; adoro.

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