TMDQA! Entrevista: o “Novo Mundo” de Arnaldo Antunes é catártico e sensível

Arnaldo Antunes, em registro promocional
Divulgação

O homem que ajudou a definir o DNA do rock brasileiro com os Titãs, que fundiu a vanguarda com o pop nos Tribalistas e que transformou a poesia concreta em hino nacional, está forte como nunca – e ele não veio para te deixar confortável. Arnaldo Antunes está desde março de 2025 em uma nova era com o disco Novo Mundo, um trabalho que pulsa na frequência das incertezas contemporâneas.

Se você não ouviu o trabalho, o susto será grande: o álbum abre com o peso industrial e frenético do drill, cortesia da produção afiada de Pupillo e da presença magnética de VANDAL, provando que, aos 40 anos de carreira, Arnaldo ainda é o maior “agente do caos” da nossa música.

Em meio a um cenário de telas saturadas e algoritmos que ditam o ódio, Arnaldo propõe um rito de passagem. Contando com nomes tai como Kiko Dinucci, Vitor Araújo e Betão Aguiar, as composições são liricamente provocativas, transitando entre diferentes momentos e reflexõoes.

No palco, o espetáculo banha-se em sombras e lasers sob a direção de Batman Zavareze, abolindo os LEDs para que o público volte a enxergar o que é humano. Com participações que vão da eterna parceira Marisa Monte ao frescor indie de Ana Frango Elétrico e também do próprio VANDAL, o show é um manifesto físico contra a paralisia mental.

Nós do TMDQA! conversamos com Arnaldo sobre essa transição visceral, a necessidade de “se drogar de amor” como antídoto para os tempos sombrios e como ele consegue manter o entusiasmo de um iniciante enquanto carrega o peso de ser um dos maiores arquitetos da nossa língua, prestes a se apresentar no Espaço Unimed.

Vamos mergulhar juntos?

Continua após o vídeo

TMDQA! Entrevista – Arnaldo Antunes

TMDQA!: Arnaldo, primeiramente, muitíssimo obrigado por nos receber, é uma grande honra conversar contigo. Cara, você abre o disco com “Novo Mundo” e o fecha questionando a pressa e esse “entupimento” de ideias que nos satura. No palco, esse trajeto ganha um corpo mais pesado e dançante. Você sente que esse show é um convite para o público expurgar essa paralisia mental e transformar o excesso de informação em movimento físico, quase como um rito de limpeza?

Arnaldo Antunes: O prazer é todo meu! Olha, eu acho que sim. Acho que o show sempre tem esse aspecto catártico, né? De descarrego de energia. E aí, o recado das letras acontece de outra forma, com a pessoa dançando, se movimentando, assistindo às luzes do palco.
Então tem toda uma experiência sensorial ali que acontece junto com a mensagem das músicas, né? Então, acho que é um momento da pessoa também expurgar algumas coisas que precisam ser expurgadas [risos].

TMDQA!: Maravilha. Você é esse mestre da palavra concreta que o Brasil inteiro conhece, e no álbum você usa uma base de drill, um ritmo urbano e frenético recente. A escolha desse ritmo foi uma tentativa de mimetizar o caos algorítmico que você critica nas letras, ou foi um desejo puramente físico de dançar sobre o caos?

Arnaldo Antunes: Eu fiz a música “Novo Mundo” a partir de coisas que eu vinha anotando sobre tudo aquilo que a gente tem vivido. Essa coisa desse horror, de uma crise ambiental sem precedentes, com as guerras acontecendo, com a ascensão da extrema direita, intolerâncias… e as redes sociais, os algoritmos estimulando os ódios. Fui ficando um período tendo ideias e anotando reflexos desse mundo estilhaçado e cruel.
Mas eu fiz a música, recolhi e montei como se fosse um mosaico de anotações. Fiz a melodia sem harmonia, sem nada. Aí o Pupillo (produtor) sugeriu esse caminho de beat que ficou muito legal, e tive a ideia de chamar o VANDAL para participar e fazer aquela intervenção – ele é um cara dessa área do drill, do trap… acho que ficou muito adequada a participação dele.
Ele achou um discurso que é muito dentro do que eu estou dizendo ali. Me identifiquei também com a maneira dele cantar, que parece um pouco com meu canto na época dos Titãs [risos]. Achei o resultado muito legal!

TMDQA!: Adorei sua resposta, porque era exatamente onde eu queria chegar. O disco tem essa sonoridade nervosa, mas faixas como “Para Não Falar Mal”, com a Ana Frango Elétrico, trazem um perfume do seu disco Iê Iê Iê (2009). Existe um “fio invisível” que conecta o Arnaldo de 15, 20, 30 anos com este de agora, ou o “Novo Mundo” é um rompimento total?

Arnaldo Antunes: Ah, eu acho que sim! [risos] Acho que tem aí uma história que tem uma coerência, nesses 40 anos de estrada, né? Que vida! E acho que tudo vai fazendo sentido a cada passo.
É claro que estou sempre tentando fazer alguma coisa que não fiz antes, não gosto de me repetir, então vou acrescentando experiências novas, mas existe ali uma estética que eu prezo até hoje: a clareza de dizer as coisas diretamente, valorizando os jogos de palavras, as sonoridades, os ritmos. Tem um lado lúdico com a linguagem que vem desde o começo e que eu continuo exercendo, mas tentando me aventurar em novos territórios.

Continua após o vídeo

TMDQA!: Nesses mais de 40 anos de trajetória, você já disse que cresce no coletivo. No show no Espaço Unimed, teremos a presença de Marisa Monte, Ana Frango Elétrico e VANDAL. Como você equilibra esses três nomes diferentes dentro da mesma pulsação nervosa do Pupillo?

Arnaldo Antunes: Pois é, são participações diferentes, mas todas fazem sentido nas faixas em que ocorreram!
Bom, primeiramente, Marisa é uma parceira de tantos anos, né? A gente sempre tem uma produção muito fértil, o encontro sempre sai faísca, saem músicas novas – acho que é a minha parceira com quem mais tenho composições. E Marisa cantando junto comigo já tem uma identidade que todo mundo reconhece, né? Como se fosse uma entidade que já faz parte do inconsciente coletivo. É uma alegria sempre estar no palco com ela. Vamos cantar coisas que ainda não cantamos ao vivo juntos, quisemos fazer uma surpresa [risos].
A Aninha, eu sou encantado com o trabalho dela, não só como cantora, mas a sonoridade do disco, a timbragem… eu acho ela incrível.
E o VANDAL traz uma coisa nova mesmo, um frescor. Tanto com a Ana como com o VANDAL faremos duas músicas; com a Marisa faremos três, pela parceria mais antiga. Eu adoraria ter o [David] Byrne também, mas ele está em turnê e foi impossível trazer ele nesta altura [risos].

TMDQA!: Falando sobre a estrutura do show, o Batman Zavareze decidiu banir os painéis de LED e focar em lasers e sombras. Em um mundo saturado de telas, como é ocupar um palco onde a imagem é formada por feixes de luz e não por pixels? Isso ajuda o público a viver o “agora”?

Arnaldo Antunes: Sim! E eu cansei um pouco, porque os últimos shows todos eram com projeção de vídeo. Isso se tornou um padrão, né? Todos têm que ter um LED, uma tela… eu quis quebrar isso.
Chamei o Batman e joguei esse desafio: “Vamos fazer um show sem projeção, onde o cenário seja a própria luz”, e ele deu soluções incríveis! O laser com fumaça que cria volumes, as silhuetas… cada música tem um conceito visual. Ele foi incrível!

TMDQA!: Em “Tire o Seu Passado da Frente”, você solta sons guturais que lembram a fase do Cabeça Dinossauro. Ao mesmo tempo, Charles Gavin escreveu que você é “vários poetas em um só”. Se você pudesse apresentar o Arnaldo de Novo Mundo para o Arnaldo que estava deixando os Titãs nos anos 90, o que eles diriam um ao outro sobre o futuro do Brasil?

Arnaldo Antunes: Rapaz… o futuro do Brasil é uma coisa muito complexa para resumir em poucas palavras, né? E ainda mais fazendo essa transição de tempo de como eu conversaria com o Arnaldo da época dos Titãs.
Acho que continuo pensando parecido: reagindo ao que vivo e me indignando, mas também me encantando, não me deixando perder o entusiasmo pelas coisas. É uma indignação misturada com um otimismo de que a gente tem que reagir a isso e dias melhores virão.

Continua após o vídeo

TMDQA!: Encerrando o álbum com o samba-rock “Tanta Pressa Pra Quê?”, se você pudesse colocar esse Novo Mundo em uma cápsula do tempo para ser aberta daqui a 50 anos, gostaria que ele fosse ouvido como o documento de uma era sombria ou como um manual de instruções para um mundo mais gentil?

Arnaldo Antunes: Ah, eu acho que o disco, no seu lado mais solar e amoroso, apresenta soluções para conseguir viver e resistir a esse mundo. O show vai ser registrado para um ao vivo e eu acho que a vitalidade dele está no ponto. A máquina vai ajeitando na estrada e agora ficou no ponto ideal para gravar [risos].

TMDQA!: Arnaldo, se o amor é a droga mais forte, qual seria o antídoto para a ressaca desse “novo mundo”?

Arnaldo Antunes: Amor! Vamos nos drogar de amor [risos].

TMDQA!: Maravilhoso! Bom, meu nome é Eduardo, represento o TMDQA! e temos uma tradição: você poderia nos citar cinco álbuns que mudaram a sua vida?

Arnaldo Antunes: Rapaz, eu não gosto dessas escolhas porque sempre acabo escolhendo coisas e sofrendo depois [risos]. Mas vou dizer os que me formaram na adolescência: Acabou Chorare, Transa, Maravilhas Contemporâneas do Luiz Melodia, os dois primeiros do Tim Maia… e tudo de Chuck Berry, Beatles, [Rolling] Stones, Jimi Hendrix e Bob Marley – Marley não pode faltar! [risos].

TMDQA!: Seleção de classe! Arnaldo, muitíssimo obrigado por nos receber, que alegria. Foi um prazer imenso.

Arnaldo Antunes: Eu quem agradeço! Obrigado, pessoal!

Continua após o post

Arnaldo Antunes no Espaço Unimed

O recado foi dado: na sexta-feira, dia vinte e dois de maio (22/05), Arnaldo Antunes fará o Espaço Unimed se tornar um templo catártico e sensível com as faixas de Novo Mundo. Com uma realização da 30e, os últimos ingressos estão sendo vendidos, e você pode comprar acessando aqui.

Nos vemos lá?

OUÇA AGORA MESMO A PLAYLIST TMDQA! BRASIL

Música brasileira de primeira: MPB, Indie, Rock Nacional, Rap e mais: o melhor das bandas e artistas brasileiros na Playlist TMDQA! Brasil para você ouvir e conhecer agora mesmo. Siga o TMDQA! no Spotify! 

O post TMDQA! Entrevista: o “Novo Mundo” de Arnaldo Antunes é catártico e sensível apareceu primeiro em TMDQA!.

Eduardo Ferreira

TMDQA! Entrevista: o “Novo Mundo” de Arnaldo Antunes é catártico e sensível


Translate »