Tom May, do The Menzingers, fala sobre memória, amadurecimento e punk rock

Poucas bandas transformaram tão bem o ato de envelhecer em punk rock quanto o The Menzingers. Há duas décadas, o quarteto de Scranton, na Pensilvânia, escreve sobre relacionamentos, lugares, memórias e aquela sensação inevitável de perceber que o tempo passou, e que você mudou junto com ele.
Essa relação com o tempo está no centro de Everything I Ever Saw, oitavo álbum de estúdio da banda. Lançado em julho e produzido por Will Yip (Turnstile, Panic! At The Disco, Lauryn Hill, La Dispute) , o disco nasceu em meio a mudanças importantes na vida de seus integrantes e transforma casamento, divórcio, perdas e crescimento em histórias que partem do pessoal, mas encontram algo de universal pelo caminho.
A fotógrafa do TMDQA! Aline Krupkoski, que já acompanhou e fotografou a banda em diferentes shows ao longo dos anos, conversou com o guitarrista e vocalista Tom May sobre o novo disco, o processo de composição e os quase 20 anos de trajetória do The Menzingers. Vem conferir!

TMDQA! Entrevista: Tom May fala sobre o novo álbum do The Menzingers, Everything I Ever Saw
Everything I Ever Saw fala muito sobre mudanças, envelhecer e a passagem do tempo. Quando vocês perceberam que esses temas tinham se tornado o coração do disco?
Tom May: É sempre um processo gradual. Eu costumo comparar com uma escultura, sei que é uma metáfora meio batida, quando você olha para um grande bloco de pedra e vai extraindo a escultura que existe ali dentro.
Para nós, geralmente começa com algumas músicas nas quais eu e Greg estamos trabalhando. Começamos a desenvolver as letras, temos uma ideia emocional de onde queremos que o disco vá e, aos poucos, ele começa a se revelar.
Tentamos articular isso em voz alta, mas nem sempre funciona. Então não houve um único momento em que percebemos: “É sobre isso que vamos escrever”. Foi acontecendo gradualmente ao longo de algumas semanas, até começarmos a perceber que estávamos dizendo as mesmas coisas repetidamente.
Uma coisa que sempre me chamou atenção no The Menzingers é como as músicas de vocês conseguem transformar momentos comuns em algo inesquecível. Quando você está compondo, o que normalmente vem primeiro: uma memória, uma letra ou uma melodia?
Tom May: Para mim, geralmente é uma melodia. Uma coisa que tenho feito nos últimos discos, e fiz bastante neste, é criar uma melodia e colocá-la em loop. Deixo tocando durante horas enquanto caminho e começo a criar palavras.
Não sei se é o subconsciente e o consciente lutando um contra o outro, mas, em algum momento, aquilo começa a se transformar em palavras de verdade. Aí você encontra uma espécie de âncora que define o tom e a ideia da música, influenciada pelo próprio som dela.
Muitas vezes encontro uma ou duas linhas e depois volto às minhas anotações para ver se existe alguma coisa ali que possa se desenvolver junto com elas. Mas, às vezes, tudo vem de uma vez.
Foi assim com “The Fool”. Eu nem tenho uma lembrança muito clara de ter escrito aquela música. Meu equipamento de estúdio estava montado na sala de casa, lembro que estava bebendo umas cervejas, sentei, comecei a tocar e tudo simplesmente saiu de uma vez. Fiquei muito animado e pensei: “Preciso terminar a porra dessa letra agora”. [risos] Eu já tinha uma ideia suficiente para dar o pontapé inicial.
O álbum foi escrito durante um período marcado por casamento, divórcio, perdas e crescimento pessoal. Como vocês encontraram o equilíbrio entre escrever sobre experiências tão pessoais e, ao mesmo tempo, criar músicas com as quais tantas pessoas conseguem se identificar?
Tom May: Essa é uma boa pergunta. Primeiro: não use o nome verdadeiro de ninguém. [risos]
Mas, além disso, acho que a questão é não contar literalmente uma história que aconteceu com você, parte por parte, e sim tentar delinear as emoções que você experimentou naquela história.
Muitas pessoas estão passando pelas mesmas coisas que nós nessa idade. Muitos dos nossos fãs têm mais ou menos a nossa idade e estão vivendo fases parecidas. Então tentamos pegar histórias das nossas próprias vidas, das vidas de pessoas que conhecemos e também de outras formas de arte — livros e filmes — e comprimir tudo isso em uma música que crie seu próprio universo, em vez de ser algo extremamente pessoal.
No fim das contas, o importante é experimentar aquelas emoções.
Existem compositores incríveis que conseguem escrever a partir da perspectiva de outra pessoa. Regina Spektor e Bruce Springsteen são muito bons nisso, por exemplo. Não é algo em que nós tenhamos nos aprofundado tanto. Eu adoraria ser muito bom nisso, mas grande parte do que fazemos parte de experiências pessoais e depois se transforma em outra coisa.
Como fotógrafa, tive a oportunidade de fotografar vários shows de vocês ao longo dos anos, e uma coisa que sempre me impressiona é a conexão entre a banda e os fãs. Parece que a energia está constantemente fluindo nos dois sentidos. Para mim, estar ali no meio é quase mágico. Como é sentir essa conexão do palco?
Tom May: É uma daquelas coisas que funcionam quase como uma válvula de escape na vida.
Existem várias situações em que a estrutura social normal exige que você mantenha uma espécie de guarda emocional. Quando você entra em uma cafeteria, vai a uma loja, está no trabalho… existem certas barreiras.
E essa é uma das poucas coisas no mundo, como esportes, sexo ou coisas assim, em que todas essas barreiras são quebradas. As inibições desaparecem.
Então é uma forma muito legal e incrível de derrubar essas barreiras que normalmente existem e se conectar profundamente em um nível emocional.
E é divertido. É insano. É como uma enorme liberação de energia. Poder fazer isso com tanta frequência é incrível, porque realmente te recarrega. É a coisa mais terapêutica do mundo.
As letras do The Menzingers são cheias de lugares, personagens e experiências muito específicos dos Estados Unidos, mas conseguem falar com pessoas do mundo inteiro. Por que você acha que isso acontece? São esses detalhes ou a emoção universal por trás das histórias?
Tom May: Essa é uma pergunta muito boa. Acho que temos muita sorte de isso acontecer.
Não acho que seja apenas por causa da influência da cultura americana no resto do mundo, embora a cultura pop certamente tenha exercido uma influência enorme sobre todo mundo nos últimos 80 anos, desde que a mídia passou a poder ser difundida dessa maneira.
Acho que é porque as coisas sobre as quais gostamos de escrever, ou com as quais lutamos, são bastante universais. Tentar entender o que você pode ou não pode mudar, o que pode ou não pode ter, os acordos e expectativas, ditos ou não ditos, que existem nos relacionamentos… Toda essa dissonância, toda a frustração e também a celebração que existem nesse espaço.
São experiências universalmente humanas. E temos muita sorte de as pessoas se identificarem com isso. Tem sido incrível!
O punk sempre esteve muito associado à juventude, mas o The Menzingers cresceu junto com seus fãs. Como isso mudou a forma como vocês escrevem músicas hoje?
Tom May: Acho que não mudou tanto assim. Agora há mais crianças nos nossos shows, o que é muito engraçado e também muito bonito.
Mas acho que, em vez de encontrarmos uma fórmula para aquilo que funciona para nós musicalmente ou esteticamente, acabamos chegando a algo mais amplo: escrever sobre o que está acontecendo nas nossas vidas.
As diferentes idades e fases pelas quais passamos acabam sendo, de alguma forma, universais. Então continuamos escrevendo sobre nossas próprias vidas e, como nossos fãs estão crescendo conosco, têm idades parecidas e estão passando por algumas das mesmas experiências, isso também continua fazendo sentido para eles.

Agora que Everything I Ever Saw está no mundo, o que vem pela frente para o The Menzingers? E, claro: existe alguma chance de vermos vocês de volta à América do Sul em breve?
Tom May: Não temos nada planejado neste momento para voltar à América do Sul, mas nós vamos voltar. Eu prometo.
Nós nos divertimos muito da última vez. Precisamos voltar e passar mais tempo por aí, fazer uma turnê maior. Muitos dos nossos amigos de outras bandas estiveram aí recentemente também. Então, definitivamente, vamos voltar.
E o que vem pela frente? Você não consegue ver direito atrás de mim, mas o Eric está instalando várias coisas no nosso estúdio agora. [risos]
Temos esse estúdio onde estou sentado e vamos continuar vivendo, lendo, assistindo a filmes, ouvindo outras músicas… construindo todo um novo conjunto de perspectivas. E então vamos começar a escrever novamente.
É o que sempre fazemos. É muito, muito divertido!
E nós agradecemos, porque eu sempre preciso de mais músicas do The Menzingers.
Tom May: Obrigado por dizer isso. Isso vai nos ajudar a continuar. Eu adoro isso. [risos]
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Aline Krupkoski
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