TREVA LVCE prova que ainda dá para inovar no rock brasileiro em “Recomeço”

TREVA LVCE

Existe algo curioso sobre o rock brasileiro: quase sempre conseguimos reconhecê-lo antes de conseguir defini-lo. Não há uma cartilha estilística capaz de determinar o que faz uma música soar brasileira dentro do rock. Não existe um conjunto fixo de timbres, ritmos ou estruturas. Ainda assim, ouvimos determinadas bandas e pensamos: isso é rock brasileiro.

É nesse terreno amplo e sem fronteiras rígidas que a TREVA LVCE se coloca com “Recomeço”, seu novo single. Em TREVA LVCE há a urgência de Social Distortion e Bad Religion, a tradição melódica de Garage FuzzCPM 22 e The Gaslight Anthem e a sensibilidade de Johnny CashChuck Ragan e City and Colour.

O resultado, porém, não soa como uma coleção de referências. Soa como uma banda brasileira que absorveu essas linguagens e as reorganizou a partir de sua experiência. Se reorganizou a ponto de evoluir o nome, antes Treva, para TREVA LVCE.

O rock antes da cartilha

“Recomeço” parte de uma sonoridade reconhecível do punk melódico e do rock alternativo, mas é atravessada pelas experiências de seus integrantes: a periferia do Rio de Janeiro, a trajetória seminal no hardcore, a pandemia e a necessidade de continuar por sobre as adversidades. Aliás, em “Recomeço”, a ideia é essa: começar novamente, não como um acontecimento excepcional, mas como uma necessidade cotidiana.

“Essa música fala muito sobre a minha trajetória. Cresci na Baixada Fluminense, na periferia do Rio de Janeiro, e foi na música que encontrei forças para enfrentar os desafios e seguir. Ao escrever essa letra, refleti sobre tudo o que vivi. De certa forma, ela é um agradecimento por ainda estar de pé e pela chance de recomeçar a cada amanhecer.”

Felipe Ribeiro, vocalista da TREVA LVCE

Um capítulo a parte quando se traz a menção ao hardcore: Felipe Ribeiro e Eduardo Moratori fizeram parte da histórica banda Confronto, um dos nomes fundamentais do hardcore nacional, experiência que ajudou a construir a maturidade da TREVA LVCE.

A matriz negra do rock

Existe ainda uma camada fundamental na TREVA LVCE: antes do punk, do hardcore e do rock alternativo, há a matriz negra do rock exaltada pela banda. Blues, gospel, rhythm and blues e outras tradições da música negra norte-americana são parte da formação da TREVA LVCE, uma origem que muitas vezes desaparece quando a história do rock é contada por vozes distantes dessa realidade, onde além da própria musicalidade de vanguarda, dor, tensão, espiritualidade, corpo e resistência são ingredientes.

“Cometendo a loucura” de ter banda

“Recomeço” também marca uma nova etapa para a TREVA LVCE. O projeto surgiu em 2020 e se consolidou em 2022, nos tempos da pandemia, indo contra a maré de um momento em que a música ficou confinada e, como brinca o vocalista Felipe, não havia nada mais doido do que “cometer a loucura” de fundar uma banda. Mas foi preciso justamente para expurgar demônios daquele e de outros tempos.

O quarteto tem construído uma trajetória ao vivo em palcos de São Paulo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, dividindo shows com nomes como Buzzcocks, Helmet, TSOL, Adolescents, H2O, Dead Fish, Menores Atos e Cólera.

Em Própria Razão, de 2023, foi o disco de estreia que contou com a participação de Rodrigo Lima, do Dead Fish, que dessa forma deu a benção à TREVA LVCE. Agora, com a formação que inclui Felipe Ribeiro, Eduardo Moratori, Felipe Skid e Gian Coppola, a banda prepara o caminho para continuar sua história com um novo álbum em 2027.

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Isis Correia

TREVA LVCE prova que ainda dá para inovar no rock brasileiro em “Recomeço”


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