Yago Oproprio serve vivências, afetos e caminhos futuros na mixtape “À La Carte”

Yago Oproprio
Foto: Victor Correa

A caminhada de Yago Oproprio foi moldada pelo movimento e pela efervescência cultural. Criado na Cohab I, na Zona Leste de São Paulo, o artista cresceu respirando arte graças ao coletivo teatral fundado por seu pai. Aos seis anos, já frequentava saraus e experimentava os primeiros instrumentos de corda e percussão. Na adolescência, a vivência na Venezuela expandiu seu repertório, costurando influências latinas à sua bagagem periférica.

De volta ao Brasil, as batalhas de freestyle em São José dos Campos batizaram sua identidade artística e, na virada de 2017 para 2018, as primeiras gravações profissionais ganharam o mundo. Hoje, somando milhões de ouvintes nas plataformas digitais, ele consolida seu espaço como um dos nomes mais autênticos da música urbana atual.

Após abrir o ano de 2026 com o single “MTG Papoulas”, Yago apresenta ao público seu mais novo projeto, a mixtape À La Carte. Lançado no dia 21 de maio, o trabalho reúne sete faixas inéditas e funciona como um espaço de experimentação livre, livre das amarras conceituais de um álbum tradicional.

Com produção majoritária de Patrício Sid e participações de nomes como Jean Tassy, Jean Swe, Rô Rosa, Crônicas de um Babaca e Emmano, o disco ganha unidade através de uma sofisticada estética visual que transforma cada canção em um prato de restaurante, convidando o ouvinte a uma degustação sensorial.

Para o artista, o projeto nasceu de forma orgânica, reunindo composições guardadas que insistiam em vir à tona. “As músicas quando elas não são lançadas e elas existem e elas querem nascer, elas ficam nos rondando como pequenos fantasminhas. São músicas que eu fiz que elas nunca me abandonaram. De alguma forma ou outra, alguém sempre me mandava, eu recebia, alguém colocava num churrasco da família. Meu tio, por exemplo, solta um lado B. Só ele tem aquela versão, ela volta para você porque ela quer nascer. Aí eu só vi quais estavam gritando para querer vir ao mundo nesse projeto e aí eu trouxe elas para cá.”

Degustação

Essa reunião de composições de diferentes épocas resulta em um “menu degustação” ágil, com pouco mais de vinte minutos de duração, onde o ouvinte pode escolher sua faixa favorita para consumir nos diferentes momentos do dia.

O dinamismo das faixas, contudo, não dilui a densidade das histórias contadas. Em faixas como “O Mais Novo Malandro do Centro”, Yago explora a boemia paulistana com um tom introspectivo, expondo o descontrole e o reconhecimento dos próprios erros, enquanto em “Hong Kong” ele renova sua clássica parceria com Rô Rosa através do lirismo urbano.

A costura que une canções tão distintas reside na crueza com que o artista lida com suas próprias dualidades. Existe um equilíbrio tenso entre a autoconfiança de sua entrega e a vulnerabilidade de suas letras.

“Eu acho que é o que faz a vida ter graça para mim, esse desespero de não saber o que vai ser. Para mim é esse fervilhão, esse tufão que eu tenho que me acostumar, essa pressão invisível da mão do mundo. Eu sou movido pelo incômodo, nós somos movidos pelo incômodo. A humanidade respira essa contradicão, querendo ou não. Parte da graça também está em não saber.”

A genuidade de Yago Oproprio

Essa busca por honestidade se reflete na recusa em moldar sua sonoridade aos algoritmos e tendências efêmeras das redes sociais. Yago enfatiza que o fio condutor de toda a sua obra é a genuinidade.

“O fio da meada das minhas canções é a verdade, essa perspectiva vomitada. São as minhas emoções cantadas e traduzidas em forma de melodia e poesia. É o que eu vivo. Não é algo que eu tô fazendo pensando em estourar no TikTok ou no Instagram, não é uma música que eu tô pensando para virar trend ou viralizar. Eu não tô trabalhando com coisas alheias a mim. A minha arte não está alheia. Ela está centralizada em mim.”

Essa entrega emocional também é fruto de um amadurecimento pessoal e do autocuidado. O artista reconhece que o processo terapêutico iniciado nos últimos dois anos transformou sua capacidade de expor fragilidades de forma saudável através da música, permitindo que ele fale sobre feridas e vivências íntimas com maior propriedade. “Acho que quando a gente resolve, a gente consegue falar sobre”, reflete.

Ao mesmo tempo em que encerra um ciclo de composições guardadas, À La Carte funciona como um farol para o que Yago Oproprio planeja para os próximos passos de sua carreira. A escolha de construir um projeto focado em colaborações e o encerramento da mixtape com a faixa “O Jeito Que Cê Gosta”, produzida por Iuri Rio Branco, são pistas claras dos novos horizontes sonoros que o artista pretende habitar. O cardápio está servido, e o futuro parece promissor.

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Felipe Mascari

Yago Oproprio serve vivências, afetos e caminhos futuros na mixtape “À La Carte”


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