Diogo Defante debate IA em “Humanóide” e promete medley roqueiro no Rock in Rio

Quando a Let’s Go encerrou suas atividades, Diogo Defante não imaginava que voltaria a viver um momento como o que está prestes a acontecer.
Durante sete anos, ele tocou bateria em uma banda de hardcore e tentou fazer da música uma carreira. Agora, depois de construir sua trajetória no humor e na internet, volta aos palcos como músico para realizar um sonho que parecia ter ficado no passado: tocar no Rock in Rio. E a estreia acontece pouco após o lançamento de “Humanóide”, single sobre inteligência artificial que dá os rumos para sua apresentação na Cidade do Rock.
A música chegou às plataformas de surpresa nesta quinta (27), acompanhada de um videoclipe em que Defante enfrenta “Gepeto”, um robô humanoide criado para facilitar a vida das pessoas – a referência a Pinóquio não é mera coincidência.
A ideia, porém, não nasceu de uma tentativa de dar uma resposta definitiva sobre a IA. Pelo contrário: Defante diz que quis aproveitar o desconforto provocado pela tecnologia para colocar a discussão em circulação, sem necessariamente escolher um lado. “Eu não tenho uma resposta, mas eu quis provocar e fazer a discussão ser posta na mesa com essa música”, disse ele, em entrevista ao TMDQA!.
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Como nasceu “Humanóide”
A composição começou justamente dessa sensação ambígua. Ao mesmo tempo em que a inteligência artificial aparece como uma ferramenta capaz de ajudar em diferentes situações, também existe o receio sobre seus excessos e sobre o quanto a tecnologia já ocupa espaço na rotina. Defante observa que o problema não está simplesmente em usar ou não usar IA, mas em entender o limite dessa relação.
Eu vi todo mundo muito incomodado com a utilização da IA, mas ao mesmo tempo entendendo que, em alguns pontos, ela auxilia. E aí as pessoas ficam com receio de falar que usa, que não usa, o que pode, o que não pode. Eu não tenho uma resposta, mas eu quis provocar e fazer a discussão ser posta na mesa com essa música”.
Para ele, a questão passa também por perceber quando a tecnologia deixa de ser uma ferramenta e começa a controlar a maneira como as pessoas se comportam.
Todo mundo está tentando usar o mínimo possível, usar o mais objetivamente possível, mas às vezes a gente também se pega meio derretido, vendo as redes sociais, escrolando, não saindo daquele looping”.
A composição, como acontece com outras músicas de Defante, começou pela melodia. Como ele não toca instrumentos harmônicos, costuma cantarolar uma ideia, gravá-la e trabalhar a partir daí com Victor Levy, o Vitinho, produtor musical e guitarrista de sua banda. A letra vai surgindo junto com a melodia, normalmente já orientada por um tema que ele quer explorar.
Há, nesse processo, uma preferência clara.
Eu gosto muito de fazer uma história, de simplificar, uma história que fique bem contada. Eu tento simplificar ao máximo para que não fique ruído nenhum, fique simples e ainda tenha uma história, sabe, que tenha início, meio e fim ali. Eu gosto muito desse caminho.”
“Humanóide” segue justamente essa lógica. A música ganhou uma narrativa própria e, a partir dela, o clipe encontrou seu protagonista: Gepeto, uma máquina que começa sendo explorada pelo dono e, em determinado momento, se rebela.
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Um robô que também quer sentir
A ideia do robô já estava presente na composição e acabou dando o primeiro norte para o videoclipe, concebido por Defante ao lado de Daniel Ferro e Bruno Rocha. Depois, a história foi ganhando novas referências. Defante assistiu a filmes que exploravam máquinas com sentimentos e também levou para o processo uma experiência recente nos Estados Unidos, onde cobriu a Copa do Mundo e encontrou robôs e outras tecnologias incorporadas ao cotidiano de maneira muito mais visível.
Eu vi robô fazendo entrega, Uber sem motorista e me peguei achando fofinho um robozinho de entrega. Os caras colocam um olhinho digital, ele pisca, e eu pensei: ‘Cara, por que eu estou achando fofinha uma máquina? Que loucura’.”
A sensação o levou a pensar: o que existe na experiência humana que uma máquina pode reproduzir, mas nunca experimentar de fato?
Tem coisas humanas que a máquina não vai conseguir sentir, o que é arrepiar, o que é sensação de espirrar, o que é um siso nascendo. E aí eu fiz essa questão: a gente está dando muita importância, às vezes colocando a máquina acima, sendo que tem muitas coisas humanas que a gente tem que valorizar, umas coisas simples nossas, as relações humanas, o presencial.”
Do hardcore underground ao Rock in Rio
Na juventude, Defante tocou bateria na cena underground carioca e teve no hardcore uma de suas principais referências. Green Day e The Offspring aparecem entre as influências que formaram seu repertório, ao lado de outros nomes que ajudaram a construir sua relação com o rock.
Foram anos tentando fazer uma banda autoral dar certo. Ele lembra que chegou a tocar no Circo Voador como baterista, em uma apresentação que teve o New Found Glory como atração principal, e que aquele palco já representava uma realização. Anos depois, voltaria ao mesmo lugar em outra condição, agora com seu próprio show. O que muda entre uma situação e outra é justamente aquilo que torna o Rock in Rio tão significativo para ele: pela primeira vez, o garoto que ficava atrás da bateria chega a um palco desse tamanho com uma carreira construída também por conta própria.
É muito louco. É uma sensação esquisita. Primeiro foi com o Circo Voador. Muita coisa passou na minha cabeça no primeiro show que eu fiz lá, por eu ter tido banda por sete anos, como baterista, e tentado fazer a parada dar certo. A gente sabe que não é fácil, música autoral. E eu já fui em muitos shows lá imaginando isso.”
No caso do Rock in Rio, a sensação é ainda maior. Defante admite que mistura gratidão e insegurança enquanto tenta se preparar o máximo possível para o dia 4 de setembro. A imagem que ele usa para descrever o momento é quase a de um músico prestes a entrar em combate.
É uma parada que é inacreditável, inimaginável. Eu tô com um misto de sensações assim, de gratidão, insegurança, querendo me preparar o máximo que der para esse dia. Eu vou ficar com aquele olhar vitrificado no dia. É um misto de faca no dente, olhando pro nada, não vou conseguir ver o rosto de ninguém.”
A realização ganha ainda mais peso porque não era um caminho que ele previa. Quando a Let’s Go terminou, Defante não imaginava que encontraria uma segunda possibilidade de viver da música por meio da internet e do humor.
Eu não esperava, não. De verdade, quando encerrou ali o projeto Let’s Go, eu nunca imaginei que fosse conseguir, por outro meio, por esse meio louco de YouTube, voltar com a música, que é basicamente o que me deu tudo. É a fonte, é a nascente de tudo.”
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“Tudo é música na minha cabeça”
Talvez seja justamente por isso que Defante não enxergue a música como uma atividade paralela ao humor. Para ele, as duas coisas estão ligadas por uma ferramenta que aprendeu a dominar ainda atrás da bateria: o tempo.
A música me ajuda com a comédia em termos de tempo, principalmente bateria, que é muito explorado na comédia. É o silêncio, o tempo, a hora que vai dar a punch line. Para mim é como se eu tivesse tocando bateria”.
A comparação vai além de uma metáfora. Defante diz que conduz seus programas pensando como um baterista: esperando o momento certo para entrar, deixando espaço para o convidado, criando expectativa e entendendo quando uma reação precisa acontecer.
Quando eu tô guiando um programa meu, é como se eu tivesse tocando bateria. Tem tudo, tem tempo. Tem um momento para tudo. Tudo é música na minha cabeça.”
Essa relação também ajuda a entender por que o humor está tão presente em sua produção musical. Defante cresceu com Mamonas Assassinas, mas sua formação musical passou principalmente pelo punk e pelo hardcore. Ele não quer, no entanto, ficar preso à obrigação de fazer uma música engraçada só porque também é humorista.
O que ele defende é a possibilidade de tratar a brincadeira com a mesma seriedade dedicada a qualquer outra forma de expressão.
Por que eu não posso ter uma letra onde eu dou uma risada e falar: ‘Cara, quero cantar essa bobeira junto com pessoas que gostam de cantar essa bobeira junto comigo, para ir num show, sair suado do show, feliz, radiante, leve’? A arte é para isso. Pra te tirar da realidade.”
O show do Rock in Rio
Essa liberdade aparece também na maneira como Defante monta seus shows. Ele e Vitinho, produtor musical e guitarrista da banda, já brincaram diversas vezes com a ideia de criar repertórios em que uma música não tenha absolutamente nada a ver com a seguinte. Foi assim que surgiu uma das apresentações que viralizaram: um trecho de Slipknot seguido por Perlla, em uma quebra de expectativa que virou uma das marcas de seus shows.
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A brincadeira nasceu justamente da vontade de surpreender o público. O problema é que, depois de viralizar, a fórmula deixou de ser tão imprevisível. “Quando a gente tenta puxar um metal, muito metal, a galera já tá assim: ‘Ah, lá vem’. Tá ligado?”. Para o Rock in Rio, portanto, ele pensa em fazer o contrário: deixar o rock dominar por mais tempo.
“Talvez eu faça um medley mais rock and roll, muito por estar no Rock in Rio. Eu tô pensando em fazer um show bem rock and roll.” Ainda assim, a velha provocação não está totalmente descartada. “A probabilidade é baixa, porém não é impossível fazer essa quebra aí”.
O repertório ainda não está totalmente definido, mas a intenção está clara: levar para o Palco Supernova as referências que acompanham Defante desde a adolescência e entregar um show que faça sentido para alguém que passou anos sonhando com a música antes de descobrir, pela internet, um caminho inesperado de volta a ela. No mesmo dia, tocam no Rock in Rio bandas icônicas como Foo Fighters, Rise Against e The Hives.
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Mauricio Deho
Diogo Defante debate IA em “Humanóide” e promete medley roqueiro no Rock in Rio




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