Em CATATAU, falatório de Ítallo França sobre cotidiano brasileiro se transforma em música

A cada respirar, uma palavra é dita – no jornalismo, a cada segundo, três palavras são proferidas – e minuto por minuto é como se fosse um tesouro na boca do brasileiro, que tanto fala sobre como está cansado de trabalhar em meio ao ônibus lotado quanto conversa sobre quem será o próximo jogador selecionado para a Copa do Mundo.
Ser brasileiro é pintar o chão das ruas na temática do próximo grande feriado, assim como é dançar uma versão de forró de “Set Fire To The Rain”, da Adele. E é assim que Ítallo França, no auge da sua criatividade, desenvolve o conceito de CATATAU, novo disco do artista alagoano.
O álbum (que ressoa calhamaços ou um fiel escudeiro do Zé Colmeia) revela-se não apenas como uma homenagem a pessoas que marcaram a sua vida, como a Nina do Avon – mãe do cantor e nome de uma faixa com o mesmo título –, mas também como um grande estudo do dia a dia das metrópoles do país.
Sua visão ultrapassa a superficialidade de abordar um todo e foca nos conceitos que são apresentados comumente na vida, à qual atravessam assuntos como política, futebol, amor e trabalho – inclusive, quase nenhuma colocada em canções únicas. É tudo junto e misturado, assim como a sociedade, como a vida.
Ao entrar na chamada com Ítallo, pensei em seguir o roteiro básico de qualquer entrevista: ditar regras, falar as perguntas que elaborei em duas horas de matutagem e cronometrar quanto tempo teríamos para um material interessante. Porém, assim como o cotidiano, as circunstâncias das vivências entre Alagoas e a música nos pegaram de surpresa.
Para o TMDQA!, o artista abordou o processo de produção do disco, de composições das faixas e dialogou sobre o estudo por trás de CATATAU.
TMDQA! Entrevista: Ítallo França

TMDQA: Eu quero já começar com o significado de CATATAU. Porque tem diversos significados, né? Tem falatório, grande volume de papel, e até prosa do Paulo Leminski tem. É engraçado porque todos esses significados estão no disco. Eu sei que você decidiu o nome no final do processo de produção. Mas você sentia que esses significados já tavam ali antes mesmo de você decidir o nome?
Ítallo: Acho que sim, mas, na verdade, eu acho que já estava do catatau, antes de ser catatau, era algo de bom humor, de uma certa ironia… enfim, de uma coisa mais alegre, uma coisa cômica na tragédia. Eu acho que tento trazer isso no disco.
Quando tava começando a chegar ao fim, eu tava falando com as pessoas mais próximas, o Paulinho [Paulo Novaes] – que é o produtor [de CATATAU] – pessoal do selo e tal, que eu tava sem nome e eu queria um nome longo, porque eu gosto de nomes longos para discos, pelo menos quatro palavras. Uma frase bem impactante.
Só que nada que eu trazia e nem sugestões que eles davam me agradava. Aí eu estava no meio de uma ligação com uma pessoa e o papo era justamente sobre Paulo Leminski. E eu falei que o Leminski tem um hit, né? Que é o autor do Toda Poesia, todo mundo só conhece esse livro. Mas ele ficou meio conhecido por causa desse livro.
Só que as pessoas não conheciam o livro de prosa dele, que é um livro hermético, um livro doidão que ele escreveu, que é difícil continuar, e se chama Catatau. E aí, enquanto eu falava a palavra Catatau, e a palavra Catatau no meio da frase, eu me dei conta que a palavra era muito boa e disse: “Caralho, tem que ser Catatau”. Tem tudo a ver.
TMDQA: Outra coisa que tem no disco são diversos assuntos, né? Quando eu adentrei no universo de CATATAU, alguns áudios me chamaram atenção. Uma das faixas, tem uma fala do Lula, a qual ele fala sobre a questão do proletariado, é muito interessante. De onde que você tirou isso inclusive?
Ítallo: Eu gosto muito dela, acho que é a faixa que eu mais gosto: “Nina do Avon”. Acho que 2002 foi um ano importante para o mundo, acho que não só para o Brasil, mas para a América Latina, eu acho que a América Latina vivia um negócio no final dos anos 90 e início dos anos 2000, que era uma certa inclinação para governos progressistas.
Então, em diversos países você tinha ali governos pela primeira vez conseguindo se eleger depois de algumas ditaduras. O Brasil tinha pouquíssimo tempo que tinha superado o regime militar. Eu acho que além de tudo isso, o futebol nos dava autoestima, porque a gente já tinha ganhado duas copas em menos de 8 anos.
Aí quando eu desenvolvi a música, eu já tinha essa ideia de colocar o Lula porque eu lembro dessa fala dele em discurso de diplomação, e ele fala que se alguém duvidava que o torneiro mecânico saísse de uma fábrica e virasse presidente da República, 2002 provou o contrário. Tipo, não foi o Brasil que provou o contrário, 2002 que provou o contrário. Eu achei interessante isso na fala dele. Isso caiu como uma luva na música.
TMDQA: É interessante você ter falado dessa questão do proletariado, pois também atravessa muito o seu disco. Tem uma entrevista que você deu para o Pedro Felício que você atravessava isso e das vivências do cotidiano. Você também pensou nisso durante o processo ou foi algo que veio, assim, para você?
Ítallo: Eu acho que veio, mas é porque é um tema que tá circulando na minha vida o tempo inteiro, né? Pelo menos o tema do trabalho é uma parada que eu tô tentando trazer com música há muito tempo. Eu lembro que, em 2024, eu já tinha uma ideia de querer fazer um disco sobre trabalho. Porque eu sinto que a esquerda do mundo não discute muito a questão do trabalho, discute mais a questão dos costumes.
Tá tudo bem, é ótimo os costumes, mas as pessoas precisam ter dinheiro, de qualidade de vida, principalmente para viver bem, para que a gente inclusive consiga lutar pelas nossas bandeiras de minorias, entendeu? Então, eu acho que a questão do trabalho ela ficou um pouco escanteada, ela não é nem mais mais importante nem menos, mas ela é muito fundamental.
Acho que todas as letras, pelo menos as que versam sobre trabalho, questão do cotidiano, questão da vida do trabalhador, eu falo da vida do trabalhador também, o englobando o músico, porque a gente tá dentro de um mercado também.
TMDQA: É interessante você ter falado sobre isso porque o trabalho também atravessa a questão dos assuntos. A minha faixa favorita é “na semana do jogo” que, caramba! Eu acho que é a faixa que mais ela representa a vida. O trabalhador chega em casa, ele quer assistir um jogo e aí vai se irritar com o jogo da pior maneira possível, né?
Ítallo: Ah porra, que legal velho. Essa música aí… você vai rir! Porque a grande inspiração dela foi justamente um vídeo que eu vi no no Reels do Instagram, que era um cara torcedor do Náutico e era muito engraçado, porque ia chegando, ele tava meio que numa mureta na arquibancada. E aí ele fala bem assim – tá filmando os jogadores e tal – e fala: “Olha aí a escalação do Náutico: “Misera, satanai, boba da peste. Ó, é satanai de novo” [risadas].
Além de ser muito engraçado o vídeo, eu fiquei eu comecei a pensar: “Meu irmão, esse cara, velho, ele deve ter saído, sei lá, 7 horas do trabalho, tem um monte de problema, tem problema de casa: é o menino que tá doente, ele que tá dando trabalho pra mulher, porque geralmente é isso, né? Aí ele chega ao estádio de futebol – que seria o momento de lazer dele – o cara tá completamente puto.
E aí eu queria fazer uma música que falasse um pouquinho desse cara, só que agora com outros símbolos. Inclusive, é meio confuso para determinar quem é essa pessoa, porque ele xinga como um nordestino, mas ele está em São Paulo. Então isso fica meio no ar.
TMDQA: Uma coisa bacana do álbum é a questão do amor. É bem legal como você traz, como em “tire uma hora pra lembrar de mim”, quando escutei pela primeira vez eu falei: “Nossa, que bonita”. Além disso, ela soa muito como um hino do tempo. Tipo, “pô, olha, pega o pouco tempo livre que você tem na sua vida e olha para mim”. Então, esse assunto da paixão atravessa o CATATAU?
Ítallo: É um tema universal, né? Acho que o amor, a distância, a saudade e essa coisa um pouco… Vou falar egoísta na falta de uma palavra melhor, mas é uma coisa meio egoísta da gente querer que a nossa pessoa amada pense na gente em algum momento. Se não em todos os momentos, mas pelo menos um momentinho ou outro que ela pense.
Quando a gente tava fazendo [o CATATAU], eu já tava achando o disco bem político, eu queria também que ele desafogasse em canções mais românticas – que eu gosto também. Foi numa época em que “Retrato de Maria Lúcia” tava em hype, porque tinha acabado de ser gravada pelo Zé [Ibarra]. Então fiquei pensando, pô, eu acho que posso continuar essa história também de fazer canções de amor, balada e tal. E seria útil para o disco seria um desafogo, velho. Ela tá ali no meinho.
E ela veio de uma música chamada “Pense n’eu” do Luiz Gonzaga. Eu tinha ouvido no dia (já havia ouvido, obviamente) e tipo, é uma música tão simples, né? Ele pede para a pessoa pensar nele. Inclusive, “tira uma hora para lembrar de mim” chegou a ser cogitada para ser “Lembre d’eu”. Só que aí a galera não comprou muito [risada].
TMDQA: Teve um comentário no teu stories, não lembro quem foi, mas que falou que o CATATAU é semelhante ao Time do Mooca, aí eu fiquei com isso na cabeça. Porque me lembra memórias da infância, e você fala tanto disso. Tem uma faixa que fala sobre a sobrinha, de ter essa atenção com ela. Como foi o processo de produção? Porque você disse, inclusive, que você não ia fazer canções para pessoas dentro desse disco, né? Mas você colocou algumas.
Ítallo: É, mas são AS pessoas. Tem a minha mãe, a minha sobrinha e tem a Marina Nemesio, que a gente já faz música há um tempo e eu acho que foi além de eu ter feito a música pensando nela, também foi uma celebração do que a gente conseguiu com o “Retrato de Maria Lúcia”, porque ela canta comigo. Eu acho que foi uma música que ajudou todo mundo.
Mas falando sobre a música da minha sobrinha, a Lolô. Eu acho que é uma faixa que, além de ser um aceno para minha sobrinha, é um aceno para a própria geração Alfa, sabe? De ser positiva. Óbvio que a gente tem coisas ruins de todas as gerações, mas eu acho que, em geral, é uma geração que tá vindo sabendo das coisas, mais preocupadas politicamente, menos machista, menos homofóbica.
Eu lembro que a minha sobrinha, com 10 anos, falava que não votaria no [Jair] Bolsonaro, porque ele não queria vacinar as crianças – ele botou como o último grupo. Pô, isso aí é uma posição política, né? Ela estava defendendo na categoria dela, enquanto criança. Eu com 9 anos, por mais inteligente que eu me achasse, eu não era capaz de emitir uma opinião assim. Então acho que é uma geração que vem melhor do que a gente, do que a minha principalmente, né? Que eu sou milennium.
É um aceno positivo, assim, otimista. Eu não sou necessariamente uma pessoa otimista, mas eu também não sou cego.
TMDQA: Por que você não se acha otimista?
Ítallo: Eu não sou necessariamente um grande pessimista, mas eu acho que vejo o lado ruim das coisas. Principalmente porque muitas coisas não têm sentido. Então, a gente fica procurando sentido.
Acho que até por isso eu sou artista, porque, querendo ou não, quando eu escolho trabalhar com arte, eu escolho fugir um pouco. Pois não tem como fugir totalmente de normas que todos os outros trabalhadores normais, digamos assim, estão submetidos que é carga horária, salário, patrão, demanda, meta… o artista tem tudo isso.
Aquele que tá mais inserido no mercado tem mais, a gente também tá, mas ainda temos uma liberdade de criar a nossa própria coisa, criar uma música do mais absoluto nada, sem nenhuma pressão social e simplesmente por que eu quero falar, tipo, vou fazer Nina do Avon, uma música que me dá essa liberdade, entendeu?
TMDQA: Caramba! Mega interessante isso. Agora, pegando essa questão das participações especiais, eu sinto também que elas são meio que a espinha dorsal do disco. Tem uma das faixas que você convida a Marina e a outra com o Zé Ibarra que, querendo ou não, em um dado momento, foi importante com Retrato de Maria Lúcia. Como foi chamá-los para o disco?
Ítallo: Sim, total. Como te falei antes, é uma celebração. Você me apontou que o Zé [Ibarra] gravou o “Retrato de Maria Lúcia” e depois ele gravou Última Roupa comigo. Essa canção compomos juntos. Eu comecei a música e entreguei para ele, aí ele estava em Portugal fazendo alguma coisa, ele mandou o mote, o refrão e eu disse: “Putz, é isso aí, hein! Vamos tentar dar uma ajeitada”, depois gravamos no Rio de Janeiro.
Sobre a música da Marina [Nemesio], eu falo que fiz a música para ela, mas eu acho que é até mais profundo do que isso. Porque quando eu estava fazendo a música, no meio da melodia, me dei conta de que essa música era muito Marina Nemesio, tipo, não é uma música que eu faria normalmente. Eu pensei: “Isso aqui não é meu, é da Marina, pô”.
Depois dessa constatação, eu tentei fazer uma letra Marina Nemesio, só que Ítallo França fazendo. Então, quando eu terminei minha música, eu mandei para ela quase que imediatamente e já querendo que ela cantasse. Não sabia nem se ia entrar no disco, mas eu queria que ela estivesse.
TMDQA: Agora falando de “Janeiro”, eu acho que é a música mais catatau do CATATAU. Como foi fazer a música?
Ítallo: “Janeiro” é o seguinte, eu a fiz em janeiro do ano passado, e tem uma música que eu também conheci em janeiro do ano passado, que se chama “Naturalmente”, do Donato – talvez por isso que o disco seja meio donatiano. Ela é uma letra do Caetano [Veloso] e tem uma melodia marcante, e eu queria fazer uma música exatamente com esse ritmo diverso de palavra, da melodia, digamos assim.
E velho, a ideia de trazer a Tori veio depois. Vou confessar para você que eu até tinha pensado em outra pessoa para cantar essa música comigo, que era a Sofia Chablau. Eu achava uma música que tinha a ver com as coisas dela, assim, de porque tem um colapsar o capital e ela tem uma coisa de ser muito, é, militante mesmo, pela causa de esquerda.
Aí eu fiquei pensando, eu tinha acabado de ver um show dela em maio do ano passado, que eu fiquei encantado, e nossa, eu queria fazer alguma coisa com ela. “Janeiro” já existia, já tava no disco, então pensei em chamar ela. Porém, eu fiquei com vergonha, eu acho que não tenho tanta intimidade. Acho que em algum momento vai acontecer.
Mas essa curiosidade não falei para ninguém, viu! [Risadas] primeira mão para Lu Melo.
TMDQA: Pra finalizar a entrevista, você retornou recentemente para Alagoas e você é um artista muito reconhecido aqui. Tem uma galera que conhece o seu trabalho e gosta muito, pela sua densidade artística também. Como que é para você isso?
Ítallo: Não sei se é para tanto [risadas], mas a gente vai construindo uma carreira. Uma carreira construída muito muito devagar. Mas é isso, muito devagar, mas muito densa, né? Você falou essa coisa da densidade artística. Eu acho que tem uma densidade mesmo.
E assim, sinceramente, eu procuro não esperar muito reconhecimento de Alagoas. Procuro não esperar muito. Porque eu acho que eu posso me frustrar, né? Se eu não tiver, é normal que Alagoas não reconheça seus artistas, né? Acho que Djavan demorou – até hoje ele não é tão reconhecido. Não tem uma grande homenagem para o Djavan em Alagoas.
Eu acho que até hoje o Djavan reconhece mais Alagoas do que os alagoanos reconhecem ele. Meu amor por Alagoas é um amor completamente… é, como é que diz? Descompromissado com o retorno. Não precisa ser recíproco.
Alagoas não precisa me amar para eu continuar amando. Eu amo Arapiraca, eu amo Maceió.
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Lu Melo
Em CATATAU, falatório de Ítallo França sobre cotidiano brasileiro se transforma em música



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