Papos de chupeta, abobalhados e joviais: o sentimentalismo de Lugar Algum em disco homônimo

Banda alagoana se consagra em álbum homônimo lançado em abril | Foto: Divulgação

O dia estava confuso em Maceió. Por ora, enquanto estava indo ao destino da entrevista pela tarde, a cidade se esbaldava em chuvas. Era tanta água que os vidros do ônibus foram transbordados em neblina e as pessoas rangiam os dentes – poderia dizer que eu estava no Alaska, afinal, todos usavam roupas grossas para uma temperatura que tampouco seria gelada em São Paulo.

No entanto, em outro momento, o sol escaldava a cuca de quem ousava andar sem sombrinhas. Ao descer do ônibus, o tão famigerado 0704, notei o azul do céu que, de tão inconfundível, convidava todos os humanos a usarem protetor solar. 

Só que, caramba! Eu estava perdida; não sabia o local exato onde a entrevista seria feita. Então liguei para Sofia Bagetti, uma das integrantes da banda Lugar Algum, a qual iria me apresentar o primeiro disco do grupo, homônimo. 

Naquela ligação, ela me disse para seguir o caminho das árvores que eu chegaria em meu destino: Núcleo Zero, no bairro do Jaraguá, parte baixa de Maceió. Mas confesso, não sou a melhor pessoa para falar sobre referências geográficas, só sabia que eu estava em frente ao Centro de Convenções, que estava vazio – uma raridade. 

Tentando seguir as regras ditas por Bagetti, não demorou muito para que surgissem entusiastas do sol. Os tenistas de praia (posso chamá-los assim?) que, na verdade, estavam em uma quadra cheia de areia, já ficaram a postos e começaram a gritar enquanto acertavam cada bola.

Na esquerda, havia uma rua que tinha uma árvore em destaque, isolada em frente a uma construção antiga, meio barroca. Claro que segui aquela direção, mas o instinto primitivo, junto ao medo, me decidiu dar a meia volta. Vai que eu fosse assaltada, não é?

Foi assim que finalmente encontrei o meu ponto de encontro. Eu havia chegado na calçada e fiquei de frente a uma porta de ferro preta, à qual estava batendo incessantemente com receio de ter chegado cedo demais. Contudo, qual foi a minha surpresa ao ser recebida por todos os integrantes da banda?

Com uma camisa cinza e um short, Matureu, o guitarrista, me deu um abraço e me levou até os fundos do estabelecimento. Enquanto caminhávamos, percebia que a escolha do local não foi à toa. 

Além de ser utilizado como capa de singles da Lugar Algum, o ambiente era repleto de referências cinematográficas – e não estou dizendo do mundo geek –, com câmeras, aparelhos técnicos de cinema e assim vai, além de quadros que mostravam a visceralidade dos humanos, pintados pelo pai da Sofia.  

Quando cheguei na sala de ensaio lá estava Marília Melo, sentada no trono sagrado: a cadeira do baterista. Dali, ela, com um sorriso meigo e tímido, acenou em minha direção e fiz o mesmo; com poucas palavras, já havíamos feito e falado muito mais do que os tagarelas. 

O ambiente em que nos encontrávamos era cheio de apetrechos para os instrumentos, a bagunça corria solta! Havia caixas nas frestas, fios emaranhados e mais baixos e guitarras pendurados na parede. Só que precisamos ser compreensivos: não há como fazer música sem ter, no mínimo, uma meia jogada no chão. Tudo aquilo era aconchegante. 

O sentimentalismo que permeia a banda e a sua discografia é marcado palavra por palavra nas canções do grupo que, de tão cotidianas (como as faixas “Pra Quando” e “Hemisférios”), causam uma proximidade imediata. Inclusive, até com aqueles que nem possuem tanta afinidade com o rock alternativo – ou o tal “punk chupeta”, definido pelo grupo.

Assim como o álbum, eu fui levada para a casa de grandes amigos que tocavam eternamente (como fogo de uma paixão ardente) os instrumentos que os levariam para o estrelato. Ao encerrarem, fomos direto a um pequeno quintal com uma rede e cadeiras de balanço, onde finalmente foi a nossa entrevista.

No início, os papos não eram profissionais. Pelo contrário! Foram um tanto abobalhados que, misturados ao nervosismo, cookies de chocolate e letras ao vento, se transformaram em uma conversa que perdurou por duas horas.

Ao TMDQA!, a banda conversou sobre tudo, desde o processo criativo até a valorização das mulheres dentro do rock.

TMDQA! Entrevista: Lugar Algum

TMDQA: Primeiramente,  eu queria perguntar se, em algum momento, vocês achavam que haveria uma comoção tão grande com a arte de Lugar Algum como está tendo nesse momento? 

Sofia: Nossa, é uma sensação muito doida! Eu fico muito emocionada ao ver certas coisas… saber que realmente tem gente que gosta tanto [da gente]. Por exemplo, esses dias a gente fez uma audição do disco lá na Popfuzz. Tinha pessoas que a gente nem sabia que nos conhecia e tavam engajados, perguntando e interessados.

Até gente que vai nos shows também. Muitos vão sem conhecer e, quando saíram… nossa, elogiam super! A gente fica muito feliz. Ver que nos escutam no Spotify, nas redes é emocionante. Essa é sempre uma felicidade que eu não sei descrever.

Matureu: Acho interessante porque Maceió é o lugar onde a gente mais tem ouvintes e eu acho isso muito legal. Afinal, essa é a cidade de onde somos, né? Tipo, muitas bandas daqui ou de outros locais não tem essa base. 

Geralmente é São Paulo que tem muita gente, mas eu acho muito legal o fato que é os nossos, sabe? Porque acontece situações de encontrarem a gente na rua e falaram “Pô, gosto muito da sua banda”. Isso é muito interessante, muito gratificante.

E com o anúncio do álbum e da turnê, a gente consegue ver como as pessoas realmente estão torcendo por nós, entende? Para que dê certo. Porque, sei lá, é diferente ver uma banda alagoana e já engatar um disco e, logo depois, uma turnê. Não é sempre que acontece, né?

Marília: Eu fico feliz porque a gente está encontrando o nosso espaço, o nosso público e as pessoas abraçam muito bem a gente. Principalmente nesse meio musical onde as pessoas valorizam mais o comercial, né? Essas músicas que são mais famosinhas e tal.

Fazemos um show somente com músicas nossas, e é legal ter encontrado o nosso espaço, o nosso público e ver que as oportunidades estão surgindo, mesmo sendo dessa forma, sabe? Mesmo sendo algo novo, é legal que as pessoas estejam abraçando esse novo. Então, eu tô muito feliz e animada para tudo o que vai acontecer daqui para frente.

TMDQA: Por que vocês acham que essas pessoas estão se aproximando da arte de vocês? Na minha opinião, acho que é pelo fato de terem uma proximidade.

Matureu: As nossas músicas já tem uns três anos. Então, algumas fizemos numa época muito específica das nossas vidas e eu acho que as pessoas conseguem se relacionar dessa maneira.

Durante a Listening Party, algumas pessoas perguntaram sobre músicas específicas do álbum e, para mim, é porque elas se identificam mesmo. Acho que esse álbum é bem Maceió vibes.

Marilia: A juventude daqui consegue se identificar e curtir, mas não estou dizendo que pessoas de outros locais não vão se conectar [risadas], mas eu acho que é bem especial para quem é daqui, sabe? Porque é uma música independente, feita por nós que somos alagoanos. Acredito que seja isso. Sofia pode falar um pouco mais.

Sofia: Eu lembro que, quando lançamos “Não Volta”, teve uma colega minha que ela postou a música e escreveu tipo: “Ai, muito eu”; e ainda falando que se identificava no momento que ela estava. Então, acho que é bem isso mesmo. E eu concordo com os dois. Eu acho que rola uma identificação aí, principalmente com a letra, né? Uma letra assim muito dramática que fala principalmente sobre as questões da juventude, daqueles que passam por alguma desilusão amorosa. 

TMDQA: Sobre a composição, vocês focaram muito na dramaticidade das letras, e isso é um fator diferencial da música de Lugar Algum para outras bandas de alagoas. Como essas letras se tornam as músicas que estão inseridas no disco ou singles?

Sofia: Eu sempre gostei muito de escrever sobre sentimentos no geral, desde textos ou composições. Mesmo gostando de trazer esse drama, nem sempre realmente foi uma situação tão dramática. Tipo, comigo já aconteceu de ser uma situação super besta e eu escrever uma música assim: “Nossa, vai embora para sempre”. 

Mas, mesmo com letras assim, tentamos trazer melodias e uma parte instrumental mais animada. Muitas das nossas músicas são mais enérgicas – para ter esse contraste também. Porque, pô, a pessoa também não pode ficar ouvindo e chorando, né!? [risada].

Matureu: Eu acho que a única música que se manteve nessa vibe mais triste foi “Pra Quando”, mas assim, “Não Volta” era bem lenta, era outro tom. mas, ao passar do tempo, a gente foi realmente deixando essa sonoridade mais pro punk de chupeta. E foi uma coisa que se identificamos muito, tanto que o álbum é majoritariamente com músicas mais rápidas. 

TMDQA: Vocês falaram que a banda, inicialmente, era mais lenta. Mas, ao longo do processo de formação da banda, isso foi mudando. Por quê mudou? Qual foi o ponto chave para isso?

Sofia: A nossa banda começou com uma outra formação completamente diferente. Nem tinhamos um baterista oficial, quem nos ajudava era o meu pai. Depois de um tempo entrou o Tinho [Quarto Vazio], e ele falou: “Não, vamos começar a fazer umas músicas assim”. Então foi ele que trouxe essa pegada de punk pra gente.

Matureu: E aí depois Sofia trouxe uma composição que também é uma música mais rápida assim, eu trouxe “Ainda Lembro”. E foi se formando essa sonoridade mais punk no caso.

Marília: Quando eu entrei na banda, isso já tava pré-definido, esse estilo, né? Eles já se nomeavam como “punk de chupeta”. Então, algumas coisas foram sendo incluídas com o tempo. Tem músicas que eu coloquei “Blast Beat”, que é muito é um ritmo muito rápido na bateria – famoso helicóptero chamado pelo Matureu – [risadas]. 

E é, eu acho que ficou mais agressivo. Só que com o tempo a gente foi colocando ritmos e elementos mais pesados. Foi quando a gente gravou essa nova parte do álbum. A gente nota a diferença.

TMDQA: Uma coisa que vocês estão repetindo toda hora é esse tal do “punk de chupeta” Qual é a definição disso?

Sofia: Basicamente, somos meio que uma banda punk – não todas as músicas, mas muitas são. Só que também não somos um punk, 100% punk, saca? Nós temos letras mais fofinhas [risadas] que não necessariamente tem questões sociais, elas são mais voltadas para o que nós sentimentos.

Então, esse é o nosso punk de chupeta. A gente pega muitos elementos do punk, mas deixando do nosso jeito.

Matureu: eu diria que é de chupeta porque a gente ainda tá no começo e porque o punk é um um estilo que aborda as causas sociais e as causas políticas. Inclusive, é algo que eu ainda quero abordar na banda. 

TMDQA: O Matureu falou uma coisa que eu achei bem pertinente. Ele disse que o punk, por si só, é um gênero que fala sobre causas sociais, e desde sempre é um movimento muito disruptivo, né? E isso lá pras décadas de 70 e 80. Vocês querem trazer essa pegada pra banda?

Matureu: Eu sinto que a gente traz isso na nossa composição mesmo. É uma banda totalmente não convencional, uma banda que tem duas mulheres numa posição de protagonista, sabe? Eu tô aqui só porque eu fiz a banda junto, mas eu acredito que isso é um papel assim incrível e totalmente importante.

TMDQA: A Marília é baterista e a gente sabe que tem uma misoginia muito grande nesse meio e você tá ali nesse papel de destaque. Como você se vê nesse lugar?

Marília: Eu me sinto muito acolhida, o público me abraça muito. Não somente a mim, mas a Sofia também. Eu já estive em bandas onde já me desvalorizaram muito por ser mulher.

Já ouvi coisas do tipo : “Poxa, eu duvidava que você conseguiria fazer isso” e isso nunca aconteceu na Lugar Algum. Então eu acho legal estar nesse lugar de representatividade para outras mulheres. E não somente nessa questão, mas também da sexualidade também.

Eu sou lésbica, então eu fico muito feliz de estar no lugar onde eu estou e poder representar essas pessoas, sabe? Eu sempre tô envolvida em projetos que valorizem mais mulheres bateristas também. Então, eu fico feliz de estar aqui, de fazer o que eu faço e de poder representar as pessoas que se identificam com a banda e comigo.

E outra coisa interessante também de falar é que Sofia não só tá no instrumental também, mas também nos vocais e na composição. Então, até mesmo na forma de vocês trazerem a música de vocês tem um olhar mais feminino, de certa forma.

TMDQA: Que lindo! Agora, finalizando de vez. O álbum de vocês saiu do forno, mas o que vocês já  estão pensando no futuro?

Sofia: A gente quer continuar fazendo novas músicas. É, a gente pretende gravar assim que possível um próximo álbum. Planejar mais shows e ir para outras cidades, para Recife, para João Pessoa, para Natal… é a meta, né? São os planos que a gente quer alcançar e se tudo der certo vão estar rolando. 

Matureu: A expectativa é que a gente consiga fazer [turnês] para o Norte do Nordeste. Mas quem sabe, um dia, em Campina Grande. Nossa! Eu quero muito fazer uma turnê nacional. Assim, ir para o sudeste, para o sul, para o centro-oeste, para o norte. A gente sabe que é muito difícil, né? A gente tá conseguindo fazer uma turnê agora com o auxílio da de edital, mas é com certeza um sonho meu.

Marilia: Acho que a gente vai continuar fazendo o que a gente já faz e continua vivendo, esperando assim o melhor que que irá acontecer com a nossa banda. Já tá acontecendo as melhores coisas que poderiam vir. Então, eu vou continuar vivendo, compondo, gravando e encontrando novas pessoas que se identifiquem com a gente e aproveitando as oportunidades que irão aparecer. É isso, gente.

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Lu Melo

Papos de chupeta, abobalhados e joviais: o sentimentalismo de Lugar Algum em disco homônimo


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