Jon Theodore fala ao TMDQA! sobre “Perfecth”, a quase perda de Josh Homme e a volta do QOTSA ao Lollapalooza Brasil: “fomos 13 bandas diferentes em 13 anos”

Queens of the Stone Age em 2026
Divulgação

O Queens of the Stone Age lançou nesta sexta-feira, 30 de outubro, seu nono álbum de estúdio. Perfecth é o sucessor de In Times New Roman… (2023) e reúne nove faixas com produção de Josh Homme e do baixista Michael Shuman, simbolizando um retorno às raízes de garagem para a banda e uma sonoridade desafiadora.

A semente para tudo isso está no show que o grupo fez em julho de 2024 nas Catacumbas de Paris, que virou o filme e o álbum ao vivo Alive in the Catacombs, lançados em junho de 2025.

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Menos de um dia depois daquela gravação, Homme foi sedado e levado a uma cirurgia de emergência; a banda cancelou o restante da turnê de 2024 e o vocalista passou sete meses de cama. Talvez por obrigação das circunstâncias, o QOTSA se viu de volta à garagem de Homme e, movido pelo alívio de ver o vocalista e guitarrista vivo, encontrou uma sonoridade propícia.

Daí surge o som mais delicado do álbum, um desafio particularmente para Jon Theodore, baterista conhecido há tempos por suas performances intensas. Em conversa com o TMDQA!, ele abordou essa questão, falou sobre os 13 anos que completa ao lado dos companheiros de banda e também sobre o fechamento de um ciclo que ocorrerá no Brasil.

No ano que vem, o QOTSA voltará a se apresentar na edição brasileira do Lollapalooza, palco onde Jon fez a sua estreia comandando as baquetas do grupo lá em 2013, momento do qual ele lembra com muito carinho no papo que você confere na íntegra logo abaixo.

Queens of the Stone Age no Lollapalooza Brasil 2027

O Queens of the Stone Age volta ao Lollapalooza Brasil no dia 20 de março de 2027, agora no Autódromo de Interlagos, na mesma data de The Killers e Geese. Será também a primeira passagem do Queens pelo país desde a turnê com o Foo Fighters em 2018, depois que a vinda para o The Town, em 2023, foi cancelada por recomendação médica.

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TMDQA! Entrevista Jon Theodore (Queens of the Stone Age)

TMDQA!: Oi, Jon! Antes de tudo, prazer em conhecê-lo, e obrigado por tirar um tempo para conversar com a gente. Queria começar falando um pouco do disco novo. Perfecth soa muito diferente, foi uma grande surpresa para mim. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, não foi tão surpreendente assim para quem vem acompanhando o que o Queens fez nos últimos anos. O disco parece ter sido muito influenciado pela experiência nas Catacumbas e por toda a turnê que veio com ela. É isso mesmo? Como isso influenciou vocês na criação do álbum?

Jon Theodore: Sim, muita coisa aconteceu no período que antecedeu este disco. Estávamos saindo do fim da turnê das Catacumbas, que foi um sucesso surpreendente para nós. Estávamos meio que seguindo a nossa intuição com essa ideia de desconstruir tudo naquele momento, e não tínhamos certeza de que as pessoas iam responder bem.

Ficamos muito felizes e surpresos por todo mundo ter gostado tanto, e isso nos deu uma abertura, nos sentimos à vontade para explorar outras sonoridades para a banda. E, durante essa experiência, o Josh quase morreu. Ele ficou muito doente, e tudo quase acabou para sempre para nós. Viemos dessas duas experiências sem nenhuma expectativa e, quando voltamos a nos reunir, estávamos felizes porque o Josh continuava vivo e porque ainda podíamos ter uma banda. Nosso amigo tinha sobrevivido a essa provação.

Começamos do zero, na garagem dele, sem nenhuma ideia de como iríamos seguir. A gente só se juntou e tocou pelo prazer de estar junto, e isso nos levou por um caminho de sentimentos e de música muito delicados e emocionais. Foi isso que saiu. Tivemos algumas conversas sobre se esse som se encaixaria no que achávamos que o Queens deveria ser, mas quase imediatamente todo mundo concordou que aquilo era importante e representava o que sentimos uns pelos outros e o que sentimos pela oportunidade de continuar. Foi uma colaboração muito natural e instintiva, que se encaixou muito rápido, e com certeza foi inspirada pelas Catacumbas.

TMDQA!: E é curioso, porque imagino que a sua parte tenha sido a mais desafiadora nessa mudança toda, pelo controle de dinâmica e de profundidade que o disco exige. Ouvindo, pensei: “O Jon teve um desafio e tanto aqui”, e você fez um trabalho incrível, claro. Como foi para você mudar tanto o som e levar uma experiência que provavelmente foi pensada para um espaço como as Catacumbas para uma versão de estúdio?

Jon Theodore: Agradeço, de verdade! Guitarras e teclados podem trocar de amplificador, abaixar o volume ou mudar de instrumento… [risos] Na bateria mexemos bastante. Uma das músicas é só palmas, e trocamos de bateria para cada faixa, mas foi um desafio de verdade tentar acompanhar a atmosfera de cada canção.

A outra coisa é que, bom, olha, somos músicos. Todos nós tocamos muitas coisas diferentes e já tocamos muita coisa ao longo da vida. Eu já toquei todo tipo de música, então nada pareceu fora da minha zona de conforto, mas foi muito bom ter a chance de mudar a abordagem, trocar as baterias, trocar os timbres.

No caso da bateria, é o seu corpo que produz o som, então você precisa mudar a sua abordagem interna, fisicamente, e depois mexer na bateria. Foi uma ótima oportunidade de se soltar e fazer um monte de coisas legais que normalmente não temos chance de fazer.

TMDQA!: Às vezes o desafio é divertido, né?

Jon Theodore: Sempre. Se não parece um desafio, não parece único e autêntico. Se você está fazendo algo e pensa “ah, já sei o que é isso”, então o que é aquilo? Estamos sempre buscando coisas únicas e tentando ir a lugares onde nunca estivemos. É isso que torna tudo desafiador, porque você precisa construir novos caminhos no cérebro, no corpo e na sua música.

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TMDQA!: Vocês soam muito em sintonia neste disco. Talvez, como você disse, toda a experiência com o Josh e o vínculo que ela cria, queira ou não, tenham ajudado nisso. Mas também sinto que muito vem do tempo que vocês estão juntos nessa formação. O Queens foi uma banda um pouco volátil no passado, mas desde que você entrou a formação está muito estável, e essa química entre vocês só cresceu, parece estar mais presente do que nunca neste disco. Tenho a impressão de que ele só aconteceu por causa dessa química, pelo quanto soa íntimo e delicado. Queria ouvir a sua visão sobre isso e sobre o quanto vocês se sentem em sintonia.

Jon Theodore: Para mim, o que eu mais amo na música, e em toda forma de arte e de expressão, é que ela é única e representa as pessoas que a fazem. As coisas que mais me tocam na música são aquelas em que dá para ouvir de verdade a interação entre as pessoas, ouvi-las reagindo e tomando decisões instintivas enquanto a fita está rodando. Esses são os meus discos favoritos, aqueles em que dá para ouvir a liga entre os integrantes e parece que ninguém mais poderia ter tocado aquela música. Isso quase sempre é verdade: se você troca alguém, ou se outra banda toca a mesma música, mesmo que nota por nota, ela soa como outra música.

E bom, é verdade, estamos juntos há 13 anos. Passamos muito tempo juntos e, como a nossa música é desafiadora e passamos tanto tempo compondo, gravando e tocando, e tanto tempo com essas pessoas, as relações só se aprofundam. Ficamos cada vez mais próximos, cada vez melhores em tocar uns com os outros, em encontrar cada um o seu espaço, em confiar nos nossos instintos e em nos movimentar juntos no estúdio. Acho que só melhoramos com o tempo, e agora já são 13 anos.

Eu nunca fiz nada por 13 anos, e acho que nenhum de nós fez. Ainda mais considerando a história da banda, que tinha gente diferente em cada disco antes de mim. Então isso foi muito bem maturado, e foi o que nos permitiu fazer este disco e executá-lo de verdade, porque podíamos confiar nos instintos que construímos em mais de uma década tocando juntos.

TMDQA!: É curioso falar disso justamente com você, porque eu estava no seu primeiro show com o Queens, no Lollapalooza Brasil. Eu era mais novo e não tinha ido a muitos shows na vida, então posso dizer com segurança que foi uma experiência transformadora. Acho que foi a primeira vez que vi uma música ser estreada ao vivo. Quando vocês começaram a tocar a inédita, pensei: “O que está acontecendo? Isso é insano”. Quando você olha para trás, agora que está voltando ao Lollapalooza Brasil, como enxerga aquilo? Naquela época, imaginava que, 13 anos depois, ainda estaria convivendo e fazendo música com essas pessoas?

Jon Theodore: Essa é uma pergunta interessante. Os meses que antecederam aquele show, quando entrei na banda, foram muito corridos. Havia muito material para aprender, e aquele foi o nosso primeiro show, um show de Lollapalooza, que não era nada pequeno. Era uma situação de bastante pressão. E não é que a gente tivesse ensaiado um setlist! Só escrevemos o setlist meia hora antes do show, e havia músicas ali que eu não tinha praticado muito. [risos] Foi uma época bem agitada, e durante toda aquela turnê eu ainda estava tentando correr atrás e aprender todo o material. Com certeza mudou a minha vida.

Não havia como prever que eu estaria aqui por 13 anos, mas acho que o que torna isso possível é que não fazemos sempre a mesma coisa. Não somos o AC/DC – que eu amo, aliás, talvez seja a minha banda de rock and roll favorita de todos os tempos – mas, para eles, 13 anos são 13 anos fazendo a mesma coisa. Sinto que fomos 13 bandas diferentes nesses 13 anos.

Então, não existe a possibilidade de ficar estagnado ou repetitivo, porque continuamos avançando para novos territórios. Cada disco tem sons e músicas radicalmente novos, então não parece que foi a mesma banda o tempo todo. A banda continua mudando e evoluindo, e isso mantém tudo sempre fresco. Mas não, eu nunca poderia imaginar que estaria aqui por 13 anos, de jeito nenhum.

TMDQA!: Parece um ciclo se fechando, agora que você volta para tocar no Lollapalooza Brasil. Queria falar um pouco desse show, porque nos últimos anos surgiram muitos rumores de que o Queens viria ao Brasil, e obviamente houve a questão de saúde do Josh e muita coisa acontecendo que impediu a vinda de vocês. Agora vocês finalmente voltam, e ainda por cima ao festival em que você fez o primeiro show com a banda. Não no mesmo lugar, porque foi em outro local, mas no mesmo festival…

Jon Theodore: Sabe que eu não tinha pensado nisso até você mencionar? Mas com certeza vai ser um ciclo se fechando para mim. Nunca vou esquecer, como eu disse, as duas semanas de ensaio antes daquele show.

Eles ainda estavam finalizando o disco naquele momento, então não tínhamos feito nenhum show antes, e eles estavam mixando. Estávamos ouvindo mixagens no hotel na noite anterior ao show. Foi uma experiência inesquecível para mim. Lembro de tudo, do voo até aí, do dia anterior e do dia do show.

Vai ser um ciclo se fechando, sim. Eu amo o Brasil, é um país incrível, e é um festival incrível. É sempre uma alegria tocar aí, mas desta vez vai ser algo como fechar um ciclo, uma espécie de festa de aniversário atrasada. Mal posso esperar para chegar. É o lugar mais incrível para fazer shows, o melhor público do mundo.

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TMDQA!: Para muita gente, essa vai ser a primeira oportunidade de ouvir ao vivo várias dessas músicas novas, além das faixas dos discos anteriores. Falando em desafios, sinto que esse é outro que vem com este disco. Tocar num lugar menor, fechado, num teatro, é bem diferente de levar isso a um grande festival ao ar livre como o Lollapalooza. Também é preciso abrir espaço para essas músicas e encaixá-las num setlist que dá conta de todo o catálogo da banda. Como tem sido ver essas músicas ao vivo, e como vai funcionar juntar tudo isso no show do Lollapalooza?

Jon Theodore: Para mim é algo bem natural. Por causa da autenticidade em que nos apoiamos para compor e gravar, tudo parece fazer parte da mesma coisa, mesmo sendo radicalmente diferente. E sempre tivemos momentos assim no show, momentos em que é só o Josh cantando e tocando guitarra, ou algo como “Make It Wit Chu”, em que pode rolar uma jam mais tranquila que se estende por minutos. Mudamos o setlist toda noite, então isso não me parece um risco ou um desafio.

O que sempre dá trabalho é que você compõe o disco, grava, e passa muito tempo até ele sair. Então é preciso meio que reaprender, porque tudo acontece tão no calor do momento que você precisa revisitar aquilo mentalmente, e temos que reaprender a tocar as músicas. Mas já tocamos “Easy Street” algumas vezes, e essa é a maior ruptura possível: são só palmas, não tem nem bateria. Então para nós não parece arriscado.

Acho que existe um nível de… não é exatamente destemor, nem exatamente indiferença, mas, em algum grau, se você vai fazer o que fazemos, tem que esperar que nem todo mundo vai amar, assim como nem todo mundo vai odiar. Estamos fazendo o que amamos. É a progressão natural da nossa banda e, se você olhar para trás, cada disco do Queens que saiu foi uma ruptura enorme em relação ao anterior. Nesse sentido, isso parece muito normal para nós. E não temos medo; eu não tenho medo de tocar uma música de que algumas pessoas não gostem.

O trabalho vai ser reproduzir aqueles timbres ao vivo, mas nós tocamos de verdade, no estúdio e no palco. Somos nós tocando. Não acho que vá ser um problema, acho que vai ser uma oportunidade empolgante de mostrar outro lado. Hoje você vê todo tipo de banda com um pequeno palco satélite, onde vão tocar violão. Algumas pessoas aproveitam para ir ao bar buscar outra cerveja ou ir ao banheiro, e outras mal podem esperar por essa parte do show. Acho que isso só enriquece a nossa experiência e, espero, a do público também.

É sempre assim. Toda vez que acrescentamos material de um disco novo ao setlist, tem aquele momento em que você toca pela primeira vez e pensa “beleza, vamos tentar, é agora ou nunca”. É um desafio positivo, e é uma alegria poder dizer “olha só isso”. Às vezes a gente pensa que não foi tão bem, mas não vamos deixar de tentar. A vida é curta demais para não tentar coisas.

TMDQA!: Com certeza. E o dia em que vocês tocam é bem legal. Tem o The Killers, de quem sempre fui muito fã, e tem também o Geese, que está se conectando com o público mais jovem, aproximando uma nova geração da música de guitarra, do rock. E não é só isso, mesmo quando postamos coisas sobre o Queens, aparece muita gente jovem, existe um público jovem que curte muito vocês também. E você é de Baltimore, de onde veio o Turnstile, que está gigantesco agora, conquistando o mundo e se conectando com essa garotada… Enfim, como tem sido tocar nesses festivais? Vocês não vêm ao Brasil há algum tempo, mas vão ver que aqui é igual: muita gente jovem está se conectando com esse tipo de música novamente.

Jon Theodore: É ótimo, e parece algo muito maior do que nós. A relação que os seres humanos têm com a música mudou muito nos últimos 10 ou 20 anos, e não foi para melhor.

Houve momentos em que parecia “que porra está acontecendo?”. Todo esse mapa cósmico que usamos para guiar as nossas vidas e a nossa música estava meio que secando, ficando encoberto por toda essa merda que as pessoas estão fazendo, e também pela indiferença, pela comercialização e pela descentralização dos negócios, coisas assim. Sinto que pareço um dinossauro falando desse jeito, porque obviamente ainda existe, e sempre vai existir, um underground. E certamente as bandas de sucesso hoje são mais rock and roll do que foram nos últimos 20 anos, o hardcore também, e a garotada está respondendo a isso. Então, em geral, me sinto bem esperançoso agora.

É bom ver isso porque, nos últimos tempos, estávamos competindo com DJs e com as tendas de música eletrônica. O rock and roll costumava ser o lugar para onde a garotada ia para pirar, tomar ácido, usar drogas, ficar sem telefone e simplesmente surtar. Aí isso mudou. O rock and roll ficou muito seguro, porque todo mundo começou a botar a música no computador, quantizar tudo e deixar perfeito, o que tem o efeito contrário e tira toda a pegada, vira só som de fundo. Foi natural que a garotada migrasse para a cena rave, porque as drogas eram melhores e as pessoas eram mais selvagens, já que o rock and roll tinha ficado tão domesticado. Mas agora parece que as águas baixaram um pouco e o rock and roll está sobrevivendo.

Isso fica muito evidente nos festivais hoje em dia, mais do que nos últimos 20 anos. Parece que vamos ficar bem. É reconfortante ver a garotada respondendo ao rock and roll e ter agora um apreço que talvez não tivéssemos antes, de entender que isso merece ser protegido porque é importante.

Aliás, não tenho nada contra, eu amo música feita em computador, desde o Kraftwerk, e nunca tive problema com música eletrônica. O problema que eu tenho é quando as pessoas perdem a identidade e as características que tornam algo valioso, e aí aquilo fica aguado, diluído, e de certa forma a gente perde o rumo. Não estou dizendo que as coisas não devam evoluir ou que o rock and roll não possa assumir várias formas diferentes. Isso é ótimo, essa diversificação é ótima e importante. Mas, sim, senti que ele esteve meio ameaçado por um tempo, e agora parece vivo e bem. Então é um prazer.

TMDQA!: Jon, muito obrigado. Me avisaram que o nosso tempo acabou. Obrigado de novo por conversar com a gente!

Jon Theodore: O prazer foi meu. Até breve.

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Felipe Ernani

Jon Theodore fala ao TMDQA! sobre “Perfecth”, a quase perda de Josh Homme e a volta do QOTSA ao Lollapalooza Brasil: “fomos 13 bandas diferentes em 13 anos”


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