José Francisco Tapajós fala sobre o projeto “Replay – Exagerado”, que homenageia Cazuza em releituras de artistas atuais

Zé Francisco Tapajos, diretor do Replay Exagerado e Lucinha, mãe de Cazuza
Divulgação

A Replay, plataforma criada pela produtora Mescla Entretenimento, lança em 9 de junho o álbum Replay – Exagerado, que homenageia Cazuza e seu antológico álbum que completa 40 anos em 2026, por meio de releituras de grandes talentos atuais. Entre eles, estão a cantora Ludmilla e Mateus Fazeno Rock, abrindo a temporada no primeiro episódio.

Ludmilla, que estampa também a capa do disco em uma releitura visual, interpretará a música-tema, enquanto Mateus cantará “Medieval II”. 

O projeto se desdobra em programa audiovisual com 10 episódios, exibido pela Bis e Globoplay, um álbum disponível nas principais plataformas digitais e prensado também em vinil. Nesta edição, figuram também Urias, Jadsa, Johnny Hooker, Catto, Maria Beraldo, Getúlio Abelha, Raquel e Thalin. 

Por trás do projeto, está o diretor e roteirista José Francisco Tapajós, nome experiente do audiovisual brasileiro. Com passagens por séries como Me chama de Bruna, Últimas férias e No corre, além de documentários e programas de TV, Tapajós criou o Replay com uma proposta simples e ambiciosa: regravar álbuns icônicos da música brasileira com artistas da nova geração. 

O resultado é uma plataforma que reúne selo musical, série documental e lançamentos em vinil, já tendo revisitado clássicos como Acabou chorare e Da lama ao caos, e que aumenta a coleção agora com a homenagem a Cazuza. 

No papo a seguir com o TMDQA!, Tapajós comenta a importância de se falar de Cazuza, o legado dele para artistas da nova geração como Mateus Fazeno Rock e Ludmilla, o encontro dela com Lucinha, mãe do homenageado, e os bastidores da produção. O diretor também fala sobre a ideia de “modernizar o passado” através de releituras e explica por que o Replay prefere celebrar discos, e não apenas artistas.

TMDQA! entrevista: José Francisco Tapajós, diretor de “Replay – Exagerado”

TMDQA!: O projeto Replay já homenageou outros clássicos como Acabou chorare e Da lama ao caos. Por que Exagerado foi o escolhido da vez? 

José Francisco Tapajós: A gente acha que esse ano o Cazuza está muito em evidência. O disco acabou de fazer 40 anos, o que é uma efeméride importante. Ele faria 68 anos em 2026 e também vai ser o artista homenageado no Prêmio da Música Brasileira deste ano, que vai estrear um dia depois do nosso programa. A Lucinha, mãe do Cazuza, ficou tão empolgada com a Ludmila, que indicou ela para cantar na cerimônia – e ela vai cantar a versão dela do Replay!  

A gente acha que é o momento certo para falar do Cazuza. Além de todo mundo ser fã, achamos que o projeto podia dar esse passo de homenagear um disco e um artista mais populares e conhecidos.

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TMDQA!: Como se deu a escolha escolha do elenco?

José: A gente queria muito um elenco não-óbvio, de nomes que estivessem produzindo coisas muito interessantes nesse momento, e também que se sentissem representados de alguma forma pelo Cazuza. Alguns artistas eu já ouvia e admirava, outros vieram por indicação, mas diria que foi rápido. E sem dúvida é uma das partes mais legais do projeto fazer essa seleção.

TMDQA!: E o que você achou do resultado final? José: Achei que ficou um baita disco, fiquei muito feliz mesmo com o resultado final. Tem essa “bagunça” que era o Cazuza, no melhor dos sentidos. Forró, rock, jazz, tudo denso e bem autoral. “Medieval II”  me emocionou demais, ouvi muito e acho que é minha preferida do disco. “Codinome Beija-flor” ficou forte, densa e grandiosa, e a Catto trouxe a guitarra para uma música que é totalmente associada ao piano, achei linda de morrer. “Boa vida” tem um altíssimo astral, Cazuza com forró, e Getúlio é um acontecimento. “Só as mães são felizes” [Raquel], a faixa mais roqueira do disco, fez juz ao Cazuza. Me lembrou Josh Homme, Queens of the stone age, muito boa. “Balada de um vagabundo” [Johnny Hooker] achei que ficou elegante, dá vontade de dançar. “Mal nenhum” é a mais autoral do disco, na minha opinião. Dá pra entender a Jadsa através do Cazuza. Em “Rock da descerebração”, Thalin jogou no chão a original e reconstruiu 100%. Pra mim é um pouco a referência de mundo ideal do Replay, essa recriação total. E ele usou uma buzina antiga de bicicleta na faixa, maravilhoso. “Desastre mental” ficou chique demais. Maria [Beraldo] trouxe o jazz pro disco, com trombone, um baixo acústico, uma risada que só ela dá. “Cúmplice” é  a cara da Urias. Gostosa de ouvir do início ao fim, tão boa que chegou ao ponto de o montador da série querer usá-la tanto na abertura quanto nos créditos finais. Amém! 

TMDQA!: E qual foi a reação da Lucinha?

José: A Lucinha está super animada, ela e a Sociedade Viva Cazuza estão super junto com a gente. Quando eu fui lá fazer o convite, ela super topou desde o primeiro momento. Pediu apenas para ser surpreendida, porque o Cazuza recebe muita homenagem o tempo inteiro, e é difícil fazer alguma coisa diferente. Eu acho que, sem querer ou querendo, a gente conseguiu, trazendo um nome que era inesperado para eles. O encontro dela com a Ludmilla com ela foi totalmente surpresa, nenhuma das duas sabia, e elas se encontraram lá no estúdio meio no susto. Então, foi bem legal. Isso vai ao ar no último episódio.

TMDQA!: Que legal. E esse primeiro episódio é inaugurado pela Ludmilla. Ela já era parceira de vocês? Ela é uma grande fã do cantor? Como rolou o convite?

José: Eu peguei o telefone e procurei o empresário dela. Foi literalmente assim. A Tabak, nossa parceira, cuida dessa parte da estratégia musical, e também faz isso pela Ludmilla. Quando a gente sondou, eles falaram: “Ah, acho difícil”, e tal. E aí eu peguei o telefone do empresário dela por meio de uma amiga em comum e fiz o convite. Ele aceitou na hora. Inclusive, foi o aceite mais rápido que a gente teve. Acho que isso só foi possível porque casou também com o momento musical dela. Mas foi basicamente assim. A gente não sabia ainda da relação dela com o Cazuza. Ela conta no primeiro episódio que foi muito impactada pelo filme, porque realmente são gerações diferentes. 

E a versão dela ficou muito diferente do que a gente imaginava, um R&B totalmente diferente de tudo que já fizeram com Cazuza. A coisa da liberdade artística que a gente dá para cada artista convidado fazer o que quiser com a versão, então o disco tem muitos caminhos sonoros diferentes. A gente simplesmente convida. Em alguns casos, já indicamos a música que a gente acha que tem a ver. Em outros, é o artista que pede. Por exemplo, a Catto pediu para fazer “Codinome Beija-Flor” e a gente falou “ok”. O Mateus Fazeno Rock pediu para fazer “Medieval II”, que era uma música que ele sempre achou a mais legal do disco. Tudo com liberdade total para fazer o que quiser. A gente recebe as faixas sem saber o que vem. 

TMDQA!: O Mateus, aliás, divide esse primeiro episódio com a Ludmilla. Como foi a participação dele?

José: Mateus Fazeno Rock é um cantor de fortaleza. Esse tem super a ver com o Cazuza. Ele é super performático, declama poesia no meio dos shows. Esse é o único episódio que é dividido, porque são 10 músicas e 10 episódios, sendo que o último é um episódio de encerramento, com audições e MCs. Mas o Mateus fez uma versão de “Medieval II” linda, linda, linda.

TMDQA!: Falando um pouco sobre o projeto em si, como surgiu essa ideia de “modernizar o passado” por meio de releituras de discos históricos com artistas contemporâneos?

José: A ideia nasceu de uma constatação simples: os discos fundamentais da música brasileira continuam extremamente relevantes, mas, às vezes, ficam distantes das novas gerações. E, muitas vezes, a gente conhece um artista por meio de outro. No Replay: Da lama ao caos ,foi muito curioso ver alguns artistas dizendo que tinham conhecido Chico Science por meio da Cássia Eller. O propósito do Replay é esse, dar continuidade a esse grande fluxo. Outra coisa importante é que existem muitos projetos de homenagem, mas sempre ao artista ou a banda. O Replay nasceu com o foco no disco, a celebração ao álbum, com tudo que ele significa.

TMDQA!: Qual o critério para escolher os álbuns que serão revisitados? O que eles significam para a música brasileira e para a equipe do Replay?

José: Os discos escolhidos normalmente têm três características. Primeiro, são álbuns que marcaram profundamente a história da música brasileira. Segundo, são trabalhos que têm uma identidade muito clara, estética, sonora ou conceitual. E, terceiro, são discos que ainda conversam com o presente. Uma efeméride também ajuda, e, claro, também existe a dimensão afetiva. Muitas vezes são álbuns que fizeram parte da minha própria formação musical e da equipe que trabalha no Replay.

TMDQA!: E como o áudio e o visual se conectam nesse projeto? 

José: A música sempre foi profundamente ligada à estética. Quando pensamos em discos históricos, não pensamos só nas músicas, mas também na imagem, na capa, no figurino, na atmosfera visual daquele momento. E todo disco acaba sendo o retrato de uma época. Pegando o exemplo dos Novos Baianos, aquela grande turma convivendo junto num sítio em Vargem Grande, em plena ditadura, dividindo tudo, é fundamental para a “história musical” que o disco conta. E quando você assiste ao registro daqueles momentos, que graças a Deus alguém pegou uma câmera e fez, o álbum fica ainda melhor.

TMDQA!: O Replay é uma plataforma, um selo, um programa de TV… como todos esses formatos se complementam?

José: A gente costuma dizer que o Replay é uma plataforma narrativa. A música é o centro, mas cada formato conta uma parte diferente da história. O selo musical organiza os lançamentos, o audiovisual mostra os bastidores do processo, a identidade visual revisita a capa, as fotos, a linguagem do disco, os produtos criam vínculo e os shows vem pra transformar isso em experiência para o público. 

TMDQA!: Qual dos projetos foi mais especial pra você? E por quê?

Que pergunta difícil. O Replay Acabou chorare me marcou muito porque o Moraes faleceu poucos dias antes de começarmos a filmar. Era o auge da pandemia. Foi uma grande tristeza mas que no fim, acabou virando um sentimento bonito, já que o programa se transformou em uma homenagem a ele. Outro momento super marcante foi no Replay Da lama ao caos. Ver a Louise, filha do Chico, regravando o pai em uma versão tão linda balançou todo mundo.

TMDQA!: E quais são os planos para o futuro? Quais são os próximos lançamentos e que novidades estão por vir?

José: Eu brinco que o Replay é um projeto infinito, imagina quantos discos icônicos não existem na música brasileira. Nosso produtor artístico sempre diz que “quer viver de Replay”. Eu não só apoio como batalho por isso todo dia. Após o lançamento de Replay: Exagerado, no segundo semestre homenagearemos uma das grandes gênias da música brasileira, e, como falei, vêm os shows por aí. Tem conversas bem legais rolando. Não posso dizer muito mais agora, mas o futuro tá animado!

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Stephanie Hahne

José Francisco Tapajós fala sobre o projeto “Replay – Exagerado”, que homenageia Cazuza em releituras de artistas atuais


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