Leela conecta memórias do Rock in Rio, desafio dos algoritmos e novas bandas nacionais em papo com o TMDQA!

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Foto: Divulgação / Rui Mendes

Era para ser uma conversa rápida de 15 minutos, mas o tempo foi pouco para repassar a história do Leela, uma das bandas de Rock alternativo que mais fez barulho na cena independente nacional dos anos 2000. Entre memórias do início da carreira, fitas cassette distribuídas na raça e projetos para o futuro, o papo exclusivo com o Tenho Mais Discos Que Amigos! se estendeu por quase uma hora.

A banda carioca está em contagem regressiva para estrear no Rock in Rio no dia 04 de Setembro, às 16h50, no Palco Global Village. Em entrevista recheada de nostalgia e projeções, Bianca Jordão (vocal e guitarra) e Rodrigo Brandão (guitarra) revisitaram essa caminhada, anteciparam detalhes do show, analisaram os desafios da era dos algoritmos e adiantaram os planos para um novo álbum.

As sementes de 1985 e 1991: da TV aos bastidores do festival

A relação dos músicos com o Rock in Rio começou muito antes de imaginarem subir juntos àquele palco. Na infância, ao assistir às transmissões da icônica primeira edição de 1985 pela televisão, Bianca viu pela primeira vez a força de mulheres comandando grandes palcos de Rock, uma cena que transformou sua percepção sobre o próprio futuro na música.

Quando vi o rock and roll ali na televisão pela primeira vez, com mulheres dominando o palco, […] elas reverberaram em mim. Eu me identifiquei; consegui enxergar que ali também era o nosso lugar, que o palco de um grande festival também era lugar de mulher. Mas, na época, eu era muito criança, eu não tinha essa noção de que eu poderia estar no palco, mas sim de que isso é um caminho para a vida.”

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Foto: Divulgação / Rui Mendes

Para Rodrigo, a vivência foi presencial e do topo de um banquinho de madeira aos 10 anos de idade. Levado pelo pai, Arnaldo Brandão (Hanoi Hanoi), no histórico dia de abertura de 1985, ele acompanhou marcos da música mundial, como Queen, Iron Maiden, Ney Matogrosso, Pepeu Gomes e Erasmo Carlos, e viveu a experiência completa de público nos dias seguintes:

Depois eu ainda fui mais quatro dias do festival da primeira edição. Lembro da lama, de pisar e escorregar, cair de bunda no chão, de me divertir demais e ver AC/DC, Ozzy Osbourne e Scorpions pela primeira vez, The B-52s, Rod Stewart, Nina Hagen, The Go-Go’s… Foi foda, muito legal.”

A ligação com o evento se aprofundou na edição de 1991, quando Rodrigo, então com 16 anos, acompanhou de perto os bastidores enquanto Arnaldo liderava o Hanoi Hanoi no palco.

Arnaldo Brandão soma forças ao Leela no Rock in Rio

Décadas depois, pai e filho voltam a se encontrar na Cidade do Rock, dividindo o mesmo cenário. Arnaldo será o convidado especial no Palco Global Village para tocar “Rádio Blá” (composição de Arnaldo, Tavinho Paes e Lobão) e “O Tempo Não Pára” (composição de Arnaldo com Cazuza), faixas que marcaram a apresentação histórica de 1991.

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“Quando a gente foi convidado para o Rock in Rio, eu na mesma hora falei: ‘Rodrigo, a gente tem que convidar seu pai para participar’. É um legado da música, da família. O pai dele tocou, o Rodrigo e eu vamos tocar. E quem sabe daqui a 20, 30 anos o nosso filho não toca no Rock in Rio também?”, compartilha Bianca.

Do correio orgânico às fitas cassete no festival

Conforme os anos passaram, os sinais de conexão com o evento só se multiplicaram. Naquela mesma edição de 1991, enquanto acompanhava o show do INXS no meio da multidão, Bianca acabou focada pelas câmeras da transmissão oficial. Tomada pela energia do momento, a vocalista usou a unidade de serviço postal instalada no evento para enviar um cartão para si mesma, um gesto guardado como uma mensagem endereçada ao futuro.

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Anos mais tarde, no Rock in Rio de 2001, a postura da banda recém-formada já era marcada pela essência do faça você mesmo. Os músicos circularam pela Cidade do Rock distribuindo materiais independentes nas mãos de jornalistas e formadores de opinião.

“A gente foi nesse de 2001 com fita cassete divulgando para possíveis formadores de opinião que a gente encontrasse por lá. A gente distribuiu nossa fita e nosso CD demo […], foi algo importante, a banda até passou a ser conhecida ali a partir desses encontros”, conta Bianca.

Assim, essa garra inicial abriu caminhos para que o Leela dominasse a grade diária da MTV nos anos 2000 e emplacasse sucessos como “Te Procuro” e “Odeio Gostar“. Essa mesma determinação e amor pelo Rock acabaram provocando novos encontros e sincronicidades com o festival anos depois.

Relíquia do Foo Fighters e a emoção nos ensaios

A linha do tempo reserva outro encontro marcante: o Leela estreia no Rock in Rio dividindo a programação do dia 04 de setembro com o Foo Fighters, headliner da noite. A ligação de Bianca com a banda de Dave Grohl vem desde meados dos anos 90, quando, aos 16 anos de idade, ela apresentava e produzia um programa de rádio voltado ao Rock alternativo em Petrópolis (RJ).

Na época, a artista recebeu direto da gravadora o compacto em vinil do primeiro single do Foo Fighters, acompanhado de um release de apresentação. Durante a entrevista ao TMDQA!, Bianca e Rodrigo fizeram questão de resgatar esse item raríssimo da coleção pessoal para mostrar como o destino adora dar voltas.

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Foto: Reprodução/Teams

“E ainda tinha uma cartinha dizendo: ‘olha, essa é uma banda nova do Dave Grohl, que era o baterista do Nirvana. A gente quer que toque um pouco no seu programa de rádio’. Gente! Bum! Máximo!”, relembra.

Para Bianca, subir ao palco da Cidade do Rock (ainda mais no mesmo dia que o Foo Fighters) tem um peso que atravessa décadas de memórias e momentos marcantes. Faltando poucos dias para a apresentação, o maior desafio da vocalista tem sido dosar a expectativa e conter a emoção que transborda a cada ensaio.

É emocionante, extraordinário, fantástico, incrível. Eu preciso segurar as emoções porque fico até emocionada na hora de cantar nos ensaios. Falei: ‘gente, não posso chorar ao vivo’. O meu desafio agora é controlar a emoção de ter vivido tudo isso, do festival fazer parte da minha vida. Ele esteve presente em momentos-chave: quando vi mulheres no palco pela primeira vez aos oito anos; em 1991, já adolescente, aparecendo na TV, mandando o postal pra mim e assistindo ao show do Hanoi Hanoi… E este ano ter recebido o convite pra tocar é muito significativo, principalmente porque o Leela completou 20 anos de lançamento do primeiro álbum.”

Hits de 20 anos na Cidade do Rock

Essa mesma energia vibrante estará presente no Palco Global Village. Celebrando os 20 anos do seu álbum homônimo de estreia, o Leela preparou um show que conecta o passado e o presente, conforme Bianca compartilha:

A gente vai tocar várias músicas do primeiro álbum, celebrando mesmo esse marco que foi o início da banda — “Ver O Que Faço” , “Romance Fugitivo”, “Te Procuro”, “Odeio Gostar”, “Sou Assim”. Inclusive, a gente vai abrir o show com “Sou Assim”, onde eu toco um teremim. É um instrumento bem inusitado, um instrumento que foi criado pelo Leon Theremin em 1920, um instrumento russo. E ele tem um clima, assim, meio ficção-científica, e é um momento que a gente gosta bastante.”

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Além dos hits de início de carreira, o repertório abre espaço para composições recentes em parceria com o lendário Fausto Fawcett, como “Scarfacebook” e “YouTube Mine“, reforçando que a banda continua provocativa e em constante evolução.

A corrida contra o algoritmo e o projeto Leela Live

Ao analisar a transformação do mercado desde as fitas cassete até o streaming, Rodrigo e Bianca pontuam o paradoxo vivido pelos artistas na atualidade. Se a tecnologia abriu portas para a produção autônoma, o excesso de estímulos alterou a relação do público com a arte. Rodrigo reflete:

A facilidade de gravar é muito grande. A facilidade para se divulgar também é muito grande, mas a facilidade para você sobressair, eu acho que é mais difícil, mais desafiador do que quando era nessa época que você buscava uma gravadora, um empresário, uma rádio… Eu acho mais democrático, hoje em dia. Você tem vários nichos. O que você quiser ouvir, você ouve. O que você quiser produzir, você produz. Você pode ganhar dinheiro direto do fã. Não precisa ter uma gravadora de suporte, isso é legal. Uma conexão direta.”

Por outro lado, essa aceleração acabou mudando o consumo das canções. “A música também virou muito acessório, né? Diferente daquela coisa do físico, quando você só tinha um meio físico para ouvir, você tinha que dar atenção para aquilo ali. Hoje em dia, a música é um acessório. Você dá um play aqui em um dispositivo e tá fazendo outra coisa”, pondera Rodrigo.

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Foto: Divulgação / Rui Mendes

Para acompanhar essa mudança, a rotina independe virou uma maratona de criação de conteúdo. Bianca reflete sobre o peso dessa cobrança: “O artista hoje tem que ser social media, saber editar vídeo, correr atrás de show, produzir, inventar… É super cansativo. Às vezes a gente fala: ‘se eu estivesse trabalhando CLT seria menos do que isso’, porque é non-stop. E você tem que manter regularidade, o que às vezes vai te tirando da música.”

Como resposta a essa busca por uma troca real, o grupo encontrou um caminho próprio no projeto Leela Live. Transmitido pelo YouTube diretamente do estúdio da banda, utilizando uma estrutura simples com celular, placa de som e computador, o programa se tornou um espaço para jam sessions, conversas e releituras do próprio repertório.

Olhando para o futuro sem perder as raízes

Toda essa movimentação no estúdio já tem destino certo. Em breve, o grupo retoma as transmissões do Leela Live e lança um EP compilando as melhores performances do projeto nas plataformas digitais, preparando o terreno para o passo mais aguardado dessa nova fase: um álbum de inéditas.

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Essa busca constante por novidades também se reflete no que roda nos fones da dupla. A curiosidade e o respeito pelo corre independente continuam sendo combustíveis para a banda, que faz questão de manter os ouvidos atentos às novas safras da música nacional.

“A gente curte Venere Vai Venus, Malvada, The Mönic, Deb and The MentalsDrenna, que é uma banda foda do Rio, com uma baita guitarrista”. Já Rodrigo cita ainda o Montage, do cearense Daniel Peixoto, que também completa 20 anos de estrada.

Entre outros nomes citados pela dupla, estão Juliana Cosso, Madhu, Glitter Paranoia e Flor ET. No lado mais Punk da lista, Bianca resgata uma descoberta recente e faz questão de abrir o YouTube na hora para mostrar o clipe: “Eu vi um clipe de uma banda de meninas que achei o máximo, a Submersa. Elas têm uma faixa chamada ‘Desbocada‘, um power trio de meninas com uma vibe bem Punk Rock incrível.”

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Leela preserva a chama dos primeiros dias

Mais de vinte anos após os primeiros ensaios no Rio de Janeiro, o Leela encara o presente preservando o mesmo entusiasmo que os fez rodar a Cidade do Rock com bolsas cheias de fitas cassete e CD demo no início da carreira. Para a vocalista, alimentar esse olhar atento ao novo e preservar a mentalidade dos primeiros dias é o segredo para continuar criando com verdade.

Esse furor adolescente, esse teenage spirit que a gente carrega… No meu coração, ainda me sinto aquela garota em busca de algo. Eu acho que é justamente isso que nos ajuda a deixar a vida mais leve e a encarar os altos e baixos de se ter uma banda de rock no Brasil.”

Quando subirem ao Palco Global Village no dia 04 de Setembro, a apresentação do Leela será o prêmio de uma história construída na raça. A estreia na Cidade do Rock celebra o reencontro com as memórias de 1985 e 1991, unindo o postal enviado no passado, o legado de Arnaldo Brandão e a energia de quem segue pronto para os próximos anos de estrada.

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Angélica Albuquerque

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