Loulu Gilberto lança primeiro álbum com canções ligadas à memória do pai, João Gilberto

Loulu Gilberto passou de um Instagram fechado, com cerca de 300 seguidores há cerca de um mês, para a estreia de um álbum lançado pela Sony, produzido por Cézar Mendes e Mario Adnet, com participações de Tom Veloso, Daniel Jobim e Maria Carvalhosa.
A largada, claro, não é a mesma de quem não é filho do pai da Bossa Nova. Mas a caçula de João Gilberto também não tenta vender que não tem os privilégios. “Eu parto de um ponto de partida que é diferente da maioria das pessoas“, admitiu a cantora, que no álbum Loulu Gilberto revisita canções que ouviu dentro de casa, recupera uma obra pouco conhecida da parceria entre Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli e entra, aos 21 anos, em uma carreira que já começa diante de um sobrenome impossível de ignorar.
O TMDQA! conversou com a artista sobre bossa nova, medo de exposição, formação musical, escolhas de repertório e o papel da intérprete diante de músicas que chegam carregadas de história.
Medo da exposição
Nascida em 2004, Luísa Carolina Gilberto é filha de João Gilberto e da jornalista Cláudia Faissol. O pai morreu em 2019, quando ela tinha 15 anos. Até ali, Loulu já tinha uma relação íntima com a música: João tocava violão, repetia canções, chamava a filha para cantar junto e apresentava sambas antigos que, anos depois, voltariam ao repertório de seu primeiro disco. Ao mesmo tempo, essa convivência com a música não significou uma infância exposta. Loulu diz que a escolha de mantê-la longe dos holofotes partiu dos pais.
Foi uma escolha que não partiu de mim. Partiu dos meus pais, porque eles sempre me preservaram muito dessa exposição. Foi muito importante ter esse tempo como uma pessoa anônima, para me preparar, para estudar, para decidir se era realmente esse caminho que eu queria seguir. Eu quase fiz faculdade de psicologia. No começo, fiz cinema também. Não fui direto para esse lado”.
O álbum parte desse ambiente privado, mas não fica restrito a lembranças de infância. O repertório combina músicas aprendidas cedo, como “Tea for Two”, “Mr. Sandman”, “Joujoux e Balangandãs”, “Cuidado com o Andor” e “Dorme Que Eu Velo por Ti”, com canções escolhidas a partir de gravações raras de João encontradas na internet ou preservadas por amigos e familiares, caso de “O Amor Nos Encontrou”, “Qui Nem Jiló”, “Manias”, “Duas Contas” e “Beija-me”. A estreia também marca a passagem de Loulu para uma vida mais pública. Jovem, fala desse movimento com cautela, sem romantizar a ideia de se tornar conhecida.
“Eu tinha um Instagram privado até um mês atrás e 300 seguidores, que eram os meus amigos e alguns conhecidos. Me abrir para o mundo – não só abrir um Instagram, mas me abrir para o mundo – foi uma coisa um pouco medonha. De vez em quando alguém me manda uma mensagem e eu fico com medo. Fico com medo de postar as coisas, de a pessoa saber onde eu estou. Eu acho que o artista hoje em dia tem que dividir um pouco dele mesmo com o público. Mas é um lugar que eu ainda estou descobrindo, ainda estou estranhando.”
Como soa o primeiro álbum de Loulu Gilberto
Loulu Gilberto tem 13 faixas e uma sonoridade construída entre a bossa nova, o samba-canção, o jazz, o baião, standards americanos e cantigas populares. A produção de Cézar Mendes e Mario Adnet evita tratar o repertório apenas como peça de museu. O disco trabalha com violões delicados, orquestrações discretas e arranjos que valorizam a divisão vocal, sem deslocar a voz de Loulu para um lugar grandioso demais.
A faixa de abertura, “João”, composição de Cézar Mendes e Arnaldo Antunes, já anuncia o eixo do projeto. A música homenageia a arte de João Gilberto e coloca voz e violão no centro do disco. Em seguida, a jovem cantora atravessa um repertório que passa por Dolores Duran, Lamartine Babo, Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira, Caetano Veloso e canções do universo que o pai ouvia, cantava ou ensinava.
Entre as faixas mais conhecidas está “Avarandado”, de Caetano Veloso, registrada originalmente no álbum Domingo, de 1967, de Gal Costa e Caetano. Na versão de Loulu, a música tem participação de Tom Veloso. A escolha cria um encontro entre gerações e também explicita uma questão central do disco: como cantar uma canção já marcada por interpretações anteriores?
Eu acho que o intérprete tem justamente esse papel: entregar a sua própria leitura daquela canção, e não uma cópia. Em ‘Avarandado’, o Caetano fez uma coisa engraçada: a sílaba forte da melodia é um pouco desencontrada da sílaba forte da palavra. Meu pai, quando foi gravar, consertou tudo. Eu fiz uma mistura das duas, porque foi o jeito que aprendi ouvindo as duas. O Tom, quando chegou no estúdio para cantar comigo, disse que reconhecia muito mais a do meu pai do que a de fato do pai dele.”
A canção que João Gilberto quase gravou
A principal história de bastidor do álbum está em “O Amor Nos Encontrou”, parceria de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli. Segundo Loulu, João Gilberto teria considerado gravar a música nos primeiros discos, mas a letra que ele gostava de cantar não foi a que acabou registrada. Antes da versão de Loulu, havia apenas uma gravação privada feita na casa do fotógrafo baiano Chico Pereira.
Se não fosse por ela, essa letra teria ficado esquecida no tempo. É uma canção tão linda, com uma melodia tão bonita. O Cezinha diz que é a música mais ‘João’ do disco, e eu concordo. Provavelmente é a que ele mais ia gostar que eu gravei. Eu fico imaginando qual seria a reação dele e dos compositores ao lembrar dessa letra antiga que foi deixada de lado.”
O repertório entre memória e pesquisa
Loulu cita Nara Leão, Sylvia Telles, Astrud Gilberto, Dolores Duran, Lúcio Alves, Orlando Silva, Elizeth Cardoso, Johnny Alf, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Os Anjos do Inferno como referências. A lista aponta para uma formação voltada ao canto brasileiro das décadas de 1930 a 1960, com atenção ao fraseado, à palavra e à elegância das melodias.
Eu ouvi muito os clássicos, Jobim e Vinicius de Moraes, e a Nara foi talvez a primeira cantora e a primeira artista que eu, por mim, sem meu pai, sem disco, sem pensar em pesquisa, fui pesquisar. Escutei toda a discografia dela quando era adolescente e ainda revisito hoje em dia. Também pesquisei muito Astrud, Dolores Duran, Lúcio Alves, Orlando Silva. Meu pai falava muito de Orlando Silva.”
Esse repertório também passa por “Manias”, gravada por Dolores Duran em 1955, pela delicadeza de “Duas Contas”, de Garoto, pelo baião “Qui Nem Jiló”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, e pelas cantigas populares “Cavalo-Marinho” e “Bicho Curutú”, que João cantava para a filha quando ainda era criança.
O ponto de partida
Antes do disco, Loulu também buscou alguma experiência fora de casa: deu canjas, cantou em hotel e circulou pela cena independente de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. É uma parte do começo de muitos artistas, embora nem todos cheguem ao primeiro álbum com a mesma rede em volta. No caso dela, a estreia vem por uma grande gravadora, com produção experiente e um repertório costurado a partir da memória musical de João Gilberto.
Eu parto de um ponto de partida que é diferente da maioria das pessoas. Vejo meus amigos músicos, eles passaram por vários cachês miseráveis que eu, graças a Deus, não terei que passar. Casas de show, tocar na noite, isso eu vivi um pouco. Dei canjas, cantei em hotel, só para ter a experiência de estar no palco diante das pessoas. Ninguém sabia que eu era filha de fulano. Mas, no geral, eu parto de um ponto diferente.”
A resposta é direta sem ser defensiva. Loulu não tenta apagar a diferença entre cantar algumas noites para ganhar casca e lançar o primeiro álbum com uma estrutura já formada ao redor.
Loulu Gilberto mostra uma intérprete jovem, com boa escuta, repertório cuidado e intimidade com as músicas. Também deixa uma pergunta em aberto: depois de começar tão perto de uma memória fundamental da música brasileira, qual será o espaço que ela vai construir para a própria voz? Aos 21 anos, talvez este não seja o momento de encontrar a resposta definitiva.
O post Loulu Gilberto lança primeiro álbum com canções ligadas à memória do pai, João Gilberto apareceu primeiro em TMDQA!.
Liz Sacramento
Loulu Gilberto lança primeiro álbum com canções ligadas à memória do pai, João Gilberto




Publicar comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.