Música para dançar e não para fazer dancinha

Zudizilla
Foto por Guilherme Schaffer

Por Zudizilla

Existe uma diferença grande entre música pensada para atravessar o corpo e música criada apenas para alimentar algoritmos. Nem tudo que viraliza permanece, nem tudo que performa rápido constrói memória.

Dia desses estava mediando uma conversa sobre o assunto como um todo com grandes frentes da indústria da música e, desde então, tenho pensado ainda mais sobre o assunto. A sensação que tenho é que vivemos um momento em que muita gente cria já pensando na reação imediata, no corte de quinze segundos, na possibilidade da dancinha, na validação rápida. E isso muda a relação das pessoas com a própria criação artística.

No começo do século passado, artistas ligados ao futurismo olhavam para as máquinas tentando entender como a tecnologia transformaria o comportamento humano. Em 1904, em torno da obra de Filippo Tommaso Marinetti, já existia esse debate sobre velocidade, movimento e aceleração da vida. Hoje, parece que chegamos em outro estágio dessa lógica. A máquina agora também interfere na maneira como as pessoas compõem, lançam e consomem música.

Tenho a impressão de que muita gente passou a ter mais medo de fracassar do que vontade de criar algo verdadeiro. Isso produz uma música extremamente calculada, preocupada em atender expectativas antes mesmo de existir artisticamente. Só que música não nasce de fórmula, nasce de experiência, repertório, risco, erro, escuta e identidade. Quando penso no hip hop, no jazz, no samba, no soul ou em qualquer gênero que atravessou gerações, existe sempre uma dimensão física e emocional muito forte. É música feita para movimentar o corpo inteiro, não apenas para funcionar em uma tela vertical.

Dançar sempre foi uma experiência individual e coletiva, um lugar de encontro, liberdade e expressão cultural. A música tem essa capacidade de criar presença real entre as pessoas. Quando tudo vira conteúdo rápido, parte dessa experiência também se perde. Não acho que o problema esteja na internet ou nas plataformas. Elas democratizaram acessos importantes. O ponto é quando a lógica da performance passa a comandar a criação artística, quando o artista começa a pensar primeiro no alcance e depois no que quer dizer.

A música brasileira vive um momento muito potente. Tem muita gente criando coisas relevantes fora do eixo tradicional, misturando referências, produzindo narrativas novas e expandindo linguagens. O que talvez a gente precise preservar é justamente a coragem de experimentar sem transformar toda criação em produto imediato. No fim das contas, algumas músicas são feitas para durar no corpo das pessoas. Não só na timeline.

Sobre Zudizilla

Zudizilla é rapper, produtor musical e articulador cultural do extremo sul do Brasil. Atua na cena independente e atualmente é mediador do Prosa Zuca, espaço de reflexão sobre a música brasileira contemporânea.

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