Artista moçambicano Otis Selimane lança álbum com mbira, instrumento milenar africano, e chega à novela da Globo

Cantor moçambicano Otis Selimane lança álbum homenageando instrumento milenar africano
Foto: BRAVO/Divulgação

Multi-instrumentista, compositor e pesquisador moçambicano, Otis Selimane vinha construindo no Brasil uma trajetória ligada à música africana contemporânea e aos encontros com artistas da música afro-brasileira. Em Músicas de Mbira e Outros Contos Bantu, seu segundo álbum solo, ele coloca a mbira no centro de um repertório feito de vozes, poemas, canções moçambicanas e releituras brasileiras.

Lançado em 2026 com produção do próprio artista, o disco tem 15 faixas e ganhou uma circulação surpreendente para um trabalho independente desse formato: “Valha” entrou na trilha de A Nobreza do Amor (Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Júnior), novela da Globo. A trama das 18h se passa nos anos 1920 e parte de um reino africano fictício, e a entrada de Otis na trilha reforça o que o álbum propõe: aproximar o Brasil de narrativas africanas menos genéricas, mas que criem imaginários.

No álbum, essa costura encontra um ponto alto em “Cordeiro de Nanã”, regravada por Otis com Mateus Aleluia, um dos nomes centrais da música afro-brasileira. O TMDQA! conversou com o artista sobre o lançamento, a imagem ainda rasa que muita gente faz da África e uma trajetória que já passou pela banda de Luedji Luna.

[Continua Após o Vídeo]

Cruzando o Atlântico

Otis chegou ao Brasil em 2015, aos 19 anos, para estudar música. Antes disso, já trabalhava profissionalmente em Moçambique desde a adolescência. Começou aos 6 ou 7 anos, passou por piano, flauta doce, instrumentos tradicionais africanos, percussão e encontrou na bateria seu instrumento principal. No Brasil, estudou na UFSCar, formou-se pela Unicamp e seguiu a pesquisa acadêmica em musicologia, enquanto construía projetos artísticos ligados à presença africana contemporânea no país, como o African Live Experience.

A chegada dele acontece em um momento em que São Paulo também passa a receber uma presença mais visível de artistas africanos. Segundo um artigo publicado pelo Jornal da USP, entre 2011 e 2016 o Brasil registrou crescimento de quase 40% no número de pessoas vindas dos 55 países africanos. O mesmo texto aponta uma dificuldade que atravessa a escuta brasileira: a tendência de tratar África como uma ideia única, apagando diferenças entre países, línguas, cidades, estilos e histórias.

Eu, como artista africano, tenho plena consciência de que ainda pertenço a uma parcela menor, privilegiada, que consegue acessar um e outro lugar. Mas isso é uma realidade de muitos africanos. Existem artistas talentosos, poliglotas, multiartistas, dançarinos, artistas visuais, cantores, que acabam trabalhando no mercado informal no Brasil porque não têm oportunidades. E é legítimo. As pessoas vieram para melhorar suas condições de vida.”

Essa percepção aparece com nitidez na fala de Otis.

Quando eu cheguei, o Brasil conhecia menos ainda sobre a África. Acho que houve uma expansão exponencial do acesso à África, e parte disso se deve também à presença contemporânea de africanos aqui, à internet e a essas formas de veiculação. Mas, quando eu cheguei, se conhecia muito menos. As pessoas sempre se dirigiam a mim como uma África muito genérica. ‘Ah, você é africano’. Poucas vezes as pessoas se referiam a mim como moçambicano. Então é um processo longo.”

Em Músicas de Mbira e Outros Contos Bantu, essa discussão não aparece como tese, mas como escolha de repertório, instrumento e linguagem. O álbum parte de Moçambique e dos territórios bantu, passa pelo Brasil negro, convoca vozes de Cuba, Angola, Argentina e África do Sul, e trata a mbira como centro de uma conversa musical entre lugares que o Atlântico aproximou pela história, pela violência e também pela invenção cultural.

Em faixas como “O Mais Velho”, o disco se aproxima da ancestralidade. Já em “Muilo/Rere”, declamada por Tiganá Santana, aparece a história de Kitembo, divindade do povo banto ligado ao tempo. Em “Kioso Nga Ndo Fua”, quando surge a imagem de alguém falando com a mãe distante, o álbum parece virar uma carta para quem ficou em África. Uma carta para a família, para Moçambique e para o orgulho de pertencer a um lugar. É aí que Músicas de Mbira e Outros Contos Bantu encontra seu frescor – conta histórias e preserva mistérios.

[Continua Após o Vídeo]

Para ser deglutido lentamente

O resultado é um álbum delicado, orgânico e cheio de camadas. Otis poderia usar o disco para mostrar tudo o que sabe como multi-instrumentista, mas faz o contrário. A força do álbum está justamente nessa contenção. As histórias aparecem nas línguas, nas repetições, nas vozes e nos silêncios. Algumas se entendem de imediato. Outras chegam mais pela sensação.

Eu quis trazer uma narrativa muito pouco discutida aqui no Brasil quando a gente se refere a africanidades, que é sobre a presença bantu no Brasil e a contribuição desses povos. Eu sou de Moçambique, que é um território bantu. Então quis trazer essas outras histórias. Para além da música, a trilha é isso: a palavra. É um álbum de música e palavra, música e palavra, música e palavra. Essas palavras são histórias.”

Otis conta que entrou no Estúdio Apodi 185, na Lapa, em São Paulo, para gravar “É Tanto Que Eu Peço a Deus”, faixa que encerra o álbum. O engenheiro de som Beto Mendonça sugeriu que ele gravasse um EP de cinco músicas. Até que viraram oito, dez, até chegar às 15 faixas… A decisão vai na contramão de uma uma indústria que, muitas vezes, é treinada para faixas mais curtas.

O que estamos criando e consumindo é um contínuo daquilo que já vem sendo feito há muito tempo. Esse álbum é para lembrar que a gente tem outras formas de sentir e contemplar o mundo. Talvez a gente tenha se perdido, se distanciado. O álbum vem para trazer essa desaceleração, esse outro fôlego, para olhar para aquilo com mais calma.”

A UNESCO descreve a mbira/sansi como um instrumento de teclas metálicas fixadas sobre uma placa de madeira, tocado com os dedos, associado a práticas musicais do Malawi e do Zimbábue e inscrito em 2020 na lista do patrimônio cultural imaterial da humanidade.

Além do instrumento, as histórias também vivem nas escolhas de parceria: a voz potente da moçambicana Lenna Bahule, o brasil-congolês François Muleka, que assinou arranjos em Um Corpo no Mundo, de Luedji Luna, e o congo-angolano Sergio Zola Star, representante da rumba congolesa, do soukous e da música moderna de Angola.

“Não estou delirando”

Entre as participações do álbum, a de Mateus Aleluia carrega um peso particular. Integrante histórico dos Tincoãs e uma das vozes centrais da música afro-brasileira, ele aparece em uma releitura de “Cordeiro de Nanã”, clássico do grupo.

A aproximação com Otis começou em 2024, quando o artista moçambicano foi a Cachoeira, na Bahia, conhecer a casa de Mateus. Mas a afinidade não vinha apenas da música. Depois de viver cerca de 20 anos em Angola, Mateus entendeu na proposta de Otis um gesto de continuidade: afirmar o elo entre Brasil e África e abrir espaço para uma nova geração de artistas africanos em diáspora.

Escrevi para a empresária do seu Mateus falando: estou lançando um álbum, vai ter tal música, e gostaria que ele ouvisse. Ele ouviu e disse que a gente tinha que gravar junto, que era muito importante afirmar que estamos juntos, que esse elo não deve se quebrar. Eu já ganhei um presente antes mesmo de entrar no estúdio. Ouvir isso de uma pessoa com essa importância para a música brasileira, reconhecendo que essa presença africana de hoje, dessa juventude querendo reconectar laços, é fundamental. Para mim foi: realmente eu não estou delirando.”

A relação com Luedji Luna entra nessa mesma lógica de aproximação. Otis foi baterista da cantora por dois anos, fez a direção musical de um show dela e a convidou para participar de seu primeiro álbum. Para ele, essas parcerias carregam também um gesto político: usar a força de artistas da música brasileira para aproximar o público de uma África menos abstrata e mais real.

Música na trilha sonora de uma novela

A ironia boa da história é que um disco longo, independente, centrado em mbira e perspectivas não tradicionais, acabou encontrando uma fresta na televisão aberta. “Valha”, releitura de Wazimbo e da Orquestra Marrabenta Star de Moçambique, com participação de Selma Uamusse e António Mabjeca, foi selecionada para a trilha da novela A Nobreza do Amor, da Globo.

[Continua Após o Vídeo]

Para Otis, a notícia teve uma camada íntima. Ele cresceu vendo novela brasileira com a mãe em Moçambique, e a notícia chegou até a televisão do país.

Eu nasci e cresci numa cultura bem novelística. Minha mãe assistia a muita novela brasileira. Então nunca imaginei que a minha música pudesse, em algum momento, estar numa novela da Globo, horário nobre. Foi um presente em muitas camadas. Acho que foi uma confirmação. Como artista independente, a gente faz muitas coisas no escuro. Ninguém está vendo. Você lança e não sabe se vai chegar nas pessoas. Quando essas respostas chegam, é como se fosse: continue fazendo.”

A direção artística de Músicas de Mbira e Outros Contos Bantu é dividida entre Otis Selimane e a artista baiana Nara Couto. O projeto também deve ganhar desdobramento em livro físico, reunindo os contos e poemas presentes no álbum.

* A Organização das Nações Unidas considera 54 países africanos entre seus Estados-membros. A União Africana, por sua vez, é composta por 55 Estados-membros.

O post Artista moçambicano Otis Selimane lança álbum com mbira, instrumento milenar africano, e chega à novela da Globo apareceu primeiro em TMDQA!.

Liz Sacramento

Artista moçambicano Otis Selimane lança álbum com mbira, instrumento milenar africano, e chega à novela da Globo


Translate »