Nelson Motta rejeita saudosismo no Doce Maravilha: “se enterre junto com a sua nostalgia”

Nelson Motta mostra curadoria afiada para Festival Doce Maravilha, no Rio
Foto: Alexandre Woloch

Jornalista, compositor, produtor, escritor, letrista, roteirista, DJ, curador e, antes de tudo, ouvinte. O paulistano Nelson Cândido Motta Filho é tudo isso e muito mais. Famoso mesmo é Nelson Motta, nome que atravessa festivais, discos, boates, livros, musicais e algumas das histórias mais conhecidas da música brasileira.

Aos 81 anos, ele poderia se apoiar apenas no passado que viu de perto e ajudou a construir. Mas prefere falar do agora. Ou como Gilberto Gil já o descreveu: “Sempre de costas para o que já foi, Sempre de frente para o Sol nascente.”

Curador do Festival Doce Maravilha 2026, no Rio de Janeiro, Motta olha para a nova cena brasileira com entusiasmo e pouca paciência para a velha frase de que “no meu tempo era melhor”.

Tenho ouvido a nova música brasileira com grande entusiasmo, grande animação. Nossa música vive um grande momento no Brasil e no mundo.”

Paulistano de nascimento e carioca por convivência musical, Nelson viu festivais, boates, discos, artistas e cenas nascerem. Como autor, soma mais de 300 músicas, em parcerias com nomes como Lulu Santos, Rita Lee, Dori Caymmi, Erasmo Carlos, Guilherme Arantes e João Donato. Uma trajetória de “fortes emoções”, como ele mesmo resume.

Esse repertório não aparece na entrevista como saudade. Para Nelson, a música brasileira de outras gerações segue no centro da conversa quando ajuda a entender o que vem depois. Por isso, quando aparece o discurso de que “no meu tempo era melhor”, ele responde sem cerimônia:

A coisa que mais envelhece é a nostalgia. ‘Ah, meu tempo. Ah, isso era muito melhor.’ Está morto. Então, se enterre junto com a sua nostalgia.”

A frase vem depois de uma distinção que ele faz entre envelhecer e ficar antigo. Uma coisa é biológica. A outra, diz ele ao TMDQA!, é cultural:

Há muita diferença entre envelhecer e ficar antigo. Envelhecer é um processo biológico, natural. Mas ficar antigo é cultural. É você não se atualizar, você ficar nostálgico. A raiz de toda essa nova música brasileira é justamente a música brasileira velha, mas não antiga.

É com essa escuta que ele assina a curadoria musical do Doce Maravilha 2026. O festival acontece nos dias 7, 8 e 9 de agosto, no Jockey Club Brasileiro, no Rio de Janeiro, e chega à quarta edição apostando em encontros que não respeitam escolas ou gerações.

Grandes e inéditos encontros

A programação inclui Caetano Veloso convidando Emicida, Paulinho da Viola convidando Maria Bethânia, Os Paralamas do Sucesso celebrando os 40 anos de Selvagem?, Sandra Sá comemorando os 40 anos do álbum Sandra Sá, Chico Chico celebrando Belchior com Juliana Linhares, Leci Brandão com Rappin’ Hood, Cortejo Afro com Luedji Luna e Margareth Menezes, além de uma noite de abertura dedicada inteiramente ao rock, pop e emo nacional dos anos 1990 e 2000 com Fresno, Dibob e Raimundos.

Os encontros são um caso à parte. São encontros que não respeitam escolas nem gerações, muito menos estilos. Na verdade, a graça é misturar estilos diferentes, surpreendentes. Esses artistas só estão se encontrando porque têm enorme admiração e respeito pelo parceiro. Isso acrescenta uma componente de tensão, de excitação. Você está cantando junto com uma pessoa que admira. Então está cantando também para a pessoa, se exibindo para ela e ela para você. Essa troca é explosiva emocionalmente e se reflete nas apresentações.”

Entre os encontros da edição, Caetano Veloso convida Emicida aparece como um dos mais simbólicos. Nelson fala dos dois pelo momento artístico em que chegam ao festival e pela maneira como suas trajetórias escapam de definições estreitas.

É inacreditável ter conseguido essa conjunção astral de juntar Caetano e Emicida, não só pelo que eles são, mas pelo momento em que os dois estão. Emicida tem uma trajetória única na música brasileira e no rap brasileiro. Na verdade, ele já transcendeu isso. Chamar Emicida de rapper hoje é como chamar Anitta de funkeira. Emicida é um grande artista da MPB, que mistura vários estilos.”

Nelson vê em Caetano uma disposição parecida para reconhecer esses movimentos enquanto eles ainda estão em curso.

Essa ligação do Emicida com a MPB tem paralelo na admiração do Caetano. Nós sempre tivemos isso em comum: esse fascínio por artistas novos. Sempre. Pode aparecer qualquer artista novo, que o Caetano já está apoiando. Quando é alguém mais polêmico, ele fica do lado da pessoa. É um dos primeiros.”

Xamã da música

A trajetória de Nelson também é uma sequência de deslocamentos. Quis ser músico, virou jornalista, depois crítico musical, produtor de discos, escritor, dramaturgo, curador e, mais recentemente, DJ.

Autor de Noites Tropicais e da autobiografia De Cu Pra Lua, que deve virar cinebiografia em breve, Nelson também marcou o teatro musical brasileiro ao fugir do modelo da Broadway, que chama de “um saco” e “aquela cafonice toda”. No palco, assinou espetáculos guiados pela música brasileira, como Tim Maia: Vale Tudo, Elis, A Musical, Tom Jobim e O Frenético Dancin’ Days, este último com Deborah Colker.

Com o tempo, diz ter assumido outro papel: o de “xamã” da música, mas tal função sem remuneração. A palavra aparece na conversa como brincadeira, mas descreve uma prática recorrente. Artistas o procuram para conversar, testar ideias, ouvir histórias e buscar repertório. Tim Bernardes é um deles:

Ele podia ser meu neto. Eu tenho um neto de 30 anos. Ele [Tim Bernardes] me procura sempre, a gente encontra, troca ideias, histórias. E ele é um grande artista, provavelmente o mais importante da sua geração.”

Nos últimos anos, Motta também voltou à noite. Depois de décadas longe das pistas, passou a tocar como DJ em festas e festivais. A brincadeira começou por insistência dos netos, com a festa Noites Tropicais, e chegou ao Doce Maravilha em formato de DJ set ao lado de Lou Cascudo.

Acrescentei uma ousadia, que foi tocar de DJ no festival, em festa. Voltei à noite depois de 40 anos fora dela. Fui dono de cinco casas noturnas. Aí meus netos insistiram, então eu fiz para eles uma festa, Noites Tropicais, atacando de DJ, com percussão ao vivo ao mesmo tempo. Deu certo, o pessoal parece que gostou.”

Vampiros e vampirizados

No festival, essa presença se junta ao trabalho de Luiz Oscar Niemeyer e da equipe da Bonus Track. Nelson fala da ala mais jovem do Doce Maravilha como quem reconhece que a curadoria não nasce apenas da memória, mas também da circulação do presente.

Eu e Luiz Oscar ficamos ali de xamãs, dando sugestões, provocando ideias, e os meninos vêm com as novidades, com as ousadias. Então todo mundo ganha. Eles aprendem muito com a nossa experiência, e a gente vampiriza a juventude deles para nós. Então é bom para todo mundo, para os vampiros e para os vampirizados.”

Nelson Motta usa kombi para divulgar atrações do festival Doce Maravilha
Foto: Hugo Nogueira/ Divulgação

O Doce Maravilha nasceu dessa ideia de reunir estilos, gerações e encontros pouco óbvios em torno da música brasileira. Nelson diz que ele e Luiz Oscar Niemeyer falavam nisso havia mais de 20 anos, até conseguirem tirar o projeto do papel:

Tudo isso era bastante novidade como uma marca de um evento. E isso deu tão certo que muita gente usou dessa nossa experiência para montar coisas parecidas. É normal, é do jogo.”

Para Nelson, a multiplicação dos festivais no Brasil aumentou a concorrência, mas também confirma a vitalidade da cena.

Tem um festival por dia hoje no Brasil. De quatro anos para cá, que é a idade do Doce Maravilha, o número de festivais se multiplicou muito. E com isso a concorrência, também festivais de nicho. Tem festival para tudo, o que é bom, porque é um atestado da grande vitalidade e diversidade da música brasileira.”

O fracasso mais útil de Nelson Motta

Nelson também sabe que nem todo grande acontecimento musical nasce adocicado… Às vezes começa com chuva, palco caindo, dívida e gente entrando sem pagar. Foi mais ou menos assim no Som, Sol & Surf, festival que ele produziu em 1976, em Saquarema, durante o período da ditadura.

Tenho uma sensação boa do primeiro festival que produzi, em 1976, em Saquarema: o Som, Sol & Surf. Foi um dos primeiríssimos festivais de rock ao ar livre. Teve Rita Lee, Raul Seixas, foi a estreia da Angela Ro Ro. Só que o festival foi um desastre, porque choveu, derrubou o palco, foi tudo ultra precário. Isso em plena ditadura, quando era dificílimo, até perigoso, juntar muitos jovens num lugar só.”

Era para dar tudo errado. E deu. Mas também deu certo de um jeito estranho. A chuva veio, a estrutura não segurou, um muro caiu, muita gente entrou de graça e a conta ficou para depois:

Deu tudo certo, mas deu tudo errado também. Caiu um muro, todo mundo entrou de graça. Em suma, terminei o festival ultra feliz, mas praticamente falido.”.

O prejuízo foi real, mas Som, Sol & Surf apareceu na televisão, saiu na imprensa e colocou Nelson em outro caminho. Depois daquele festival caótico, chamaram ele para criar uma discoteca no Rio de Janeiro. Nascia a Dancin’ Days.

Foi bom, porque aquele festival teve repercussão. Passou na televisão, saiu na imprensa, teve muita divulgação. E, por causa disso, me chamaram para fazer o que seria a discoteca Dancin’ Days. Foi um sucesso espetacular. Paguei todas as minhas dívidas, lançamos uma moda de discoteca brasileira, com As Frenéticas. Então é assim: é o pulo dos fracassos ao sucesso absoluto.”

A boate durou pouco, mas entrou para o imaginário brasileiro. Dali vieram As Frenéticas, a febre disco e a criação da novela Dancin’ Days.

Reencontro com sabor de reparação histórica

O Doce Maravilha também abre espaço para reencontros pessoais. Um dos mais saborosos aparece quando Nelson fala de Sandra Sá. No festival, ela celebra os 40 anos de Sandra Sá, álbum de 1986 que consolidou sucessos como “Retratos e Canções”, “Joga Fora” e “Solidão”, além de trazer uma regravação marcante de “Olhos Coloridos”. Mas a memória dele vai para outro disco: Sandra!, lançado em 1990 e produzido por ele com Guto Graça Mello.

A história entre Sandra Sá e Nelson Motta vem de longe. Nos anos 1980, ele já assinava letras gravadas pela cantora, como “Baticum”. Em 1990, os dois se juntaram em Sandra!, álbum produzido por Nelson e Guto que tentava levar a voz de Sandra para outro lugar: menos fórmula de gravadora, mais sofisticação, groove e risco artístico.

O disco reuniu participações de Djavan, Olodum e Marina Lima, além de repertório de Cassiano. Para Nelson, era um discaço. Em suas palavras: “um disco foda”. Para a gravadora, não era o caminho comercial esperado. Sem investimento, promoção ou apoio nas rádios, Sandra! acabou passando longe do sucesso que poderia ter tido.

Fracasso comercial: Nelson Motta fala do disco Sandra!
Capa do álbum ‘Sandra!’ (1990), de Sandra de Sá

É um disco maravilhoso, mas foi um fracasso absoluto, porque a gravadora odiou. A gravadora queria aquela baladaça, Sullivan & Massadas (dupla pop dos anos 80 e 90 de ‘Whisky a Go Go’). A gravadora cagou para o disco, não investiu nada, não promoveu. Esse reencontro com a Sandra é mais uma compensação por esse disco maravilhoso que nós fizemos. Também, um reencontro para a gente falar muito mal da gravadora 40 anos depois…

No Doce Maravilha, a presença de Sandra Sá, além do reencontro entre amigos de longa data celebrando um grande marco da Música Preta Brasileira, vira também uma espécie de acerto de reparação histórica com uma indústria que, naquele momento, não soube ouvir o disco que tinha em mãos.

Serviço – Festival Doce Maravilha 2026

Local: Praça Santos Dumont, 31 – Gávea, Rio de Janeiro

Ingressos no site oficial (Ingresse) ou clicando aqui.

‘Noite Doce’ – 7 de agosto – sexta-feira (a partir das 18h)

Fresno: 10 Anos de A Sinfonia de Tudo que Há, com Nova Orquestra; Raimundos convida Thiago Castanho & Marcão Britto (Charlie Brown Jr.); Dibob: 25 anos com Danilo Cutrim, IZENZÊE, Dedé Teicher & Diego Miranda; DJ Julia Barros; Melton Sello DJ Set;

8 de agosto – sábado (a partir das 14h)

Paulinho da Viola convida Maria Bethânia; Bloco do Silva; Chico Chico celebra: Belchior com Juliana Linhares; Leci Brandão & Rappin’ Hood; Cortejo Afro convida Luedji Luna & Margareth Menezes; Amanda Magalhães; Larinhx; Sô Lyma; Yasmin Lisboa; Mango DJ Set; Nelson Motta & Lou Cascudo apresentam: Noites Tropicais DJ Set

9 de agosto – domingo (a partir das 14h)

Caetano Veloso convida Emicida; Os Paralamas do Sucesso: 40 Anos de ‘Selvagem?’; Falamansa convida Ruan Vitor Vaqueirinho; Sandra Sá: 40 anos de ‘Sandra Sá’ (1986); Academia da Berlinda: 10 Anos de Nada Sem Ela com Louise; Nova Orquestra toca: Bloco do Eu Sozinho; Bia Marques; Yasmin Vilhena; Rafa Canholato B2B Babi Facchinetti; Nelson Motta & Lou Cascudo apresentam: Noites Tropicais DJ Set

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Liz Sacramento

Nelson Motta rejeita saudosismo no Doce Maravilha: “se enterre junto com a sua nostalgia”


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